Vamos redescobrir essa obra-prima.

Há quase 20 anos, em 1994, foi exibido o piloto de My So-Called Life na ABC. Criada por Winnie Holzman e produzida por Edward Zwick e Marshall Herskovitz, a série teen retratava o universo da estudante Angela Chase (Claire Danes), de sua família e amigos. Angela, com seus 15 anos, encarava todos os conflitos internos e dilemas existenciais inerentes à idade. Procurando descobrir melhor a si mesma e seu lugar no mundo, ela se distancia dos seus pais, Patty (Bess Armstrong) e Graham (Tom Irwin), e de seus amigos de infância, Sharon (Devon Andessa) e Brian (Devon Gummersall), passando a andar com novas companhias: Rayanne (A.J. Langer) e Rickie (Wilson Cruz). Completando o elenco principal, temos o amor platônico de Angela, Jordan Catalano (Jared Leto), e sua irmã, Danielle (Lisa Wilhoit). A série começa neste momento de transição na vida dela, marcado pelo tingimento dos seus cabelos.

Lendo esta introdução, aparentemente não há muito que diferencie My So-Called Life de tantos outros seriados do mesmo gênero. O grande diferencial desta série está no modo que ela retrata a adolescência e as relações familiares. Esqueça líderes de torcida, futebol americano, nerds de aparelho, fofocas, jovens lindos e ricos, festas insanas, brigas de popularidade e boa parte dos clichês de produções sobre adolescentes. My So-Called Life retrata este universo de uma forma muito mais realista e intimista, mostrando a transição para a vida adulta como um período confuso e conturbado, dando uma profundidade incrível aos seus personagens e abordando diversos temas delicados de forma extremamente profunda e sensível.

Através dos olhos de Angela (ela é a narradora da série em quase todos os episódios), vemos todos os anseios e inquietações típicos de uma adolescente. Angela é uma adolescente consideravelmente normal, porém um tanto introspectiva e observadora. Um aspecto bastante interessante do seriado é que, comparada à maior parte dos outros personagens jovens, Angela é bastante “sortuda”. Ela tem pais presentes e amorosos, não tem nenhum grande problema familiar e sua família não enfrenta problemas financeiros, o que causa até certa inveja em alguns amigos dela. Ainda assim, Angela enfrenta diversos problemas e questionamentos internos. Isto mostra que, independente da situação, a passagem para a vida adulta não é fácil para ninguém.

Hoje em dia, Claire Danes varre as premiações devido à sua atuação em Homeland, mas em 94, com apenas 14 anos, ela já começou a colecionar prêmios com My So-Called Life. O talento dela é monstruoso. Angela definitivamente não é uma personagem fácil de ser interpretada e é responsável pelo funcionamento do seriado. Uma das maiores características do mesmo é que muita coisa não é dita com palavras, o que demanda certa capacidade interpretativa. E Claire Danes tirou de letra este trabalho. Muito é dito através do olhar de Angela, do modo como ela anda, mexe no cabelo e encosta-se no armário da escola para ver as pessoas caminhando. Devido ao seu trabalho, ela acabou levando um Globo de Ouro pela sua atuação e foi indicada ao Emmy, um feito bastante notável.

Falando do núcleo jovem do seriado, eles são dignos de nota. Ainda que apenas Jared Leto e Claire Danes tenham tido uma carreira expressiva após My So-Called Life, todos os atores são bastante competentes e os personagens são riquíssimos. Aprendemos a amar encrenqueira Rayanne, a certinha Sharon, o CDF Brian (que é apaixonado por Angela), o homossexual Rickie, sem esquecer do bad boy “too cool for school” Jordan Catalano. Esses adjetivos foram usados de forma intencional, pois, quem viu a série, sabe que falar dessa maneira deles causa certa estranheza. Assim como na vida real, é impossível reduzir toda a complexidade desses personagens a apenas um rótulo.

Do outro lado, também acompanhamos a vida dos pais de Angela, mostrada como um contraponto à vida dos personagens jovens. Os problemas e temas dos episódios sempre repercutem nos dois núcleos e sempre são mostradas as motivações dos atos de Patty e Graham em relação à Angela. Esta dualidade é um ponto bastante interessante do seriado. Ainda não tenho idade o suficiente para comprovar esta teoria, mas creio que uma mesma pessoa pode enxergar a série de uma forma totalmente diferente se a assistir quando jovem e, posteriormente, quando adulta.

Enquanto Angela é, indiscutivelmente, a protagonista do seriado, podemos dizer com certa certeza que Patty é uma espécie de protagonista secundária. Do mesmo modo que acompanhamos com Angela, Patty passa por diversos problemas e se vê obrigada a repensar a si mesma e suas visões de mundo diversas vezes. Não desmerecendo Graham, ele também é um grande personagem e apresenta um desenvolvimento notável, mas Patty possui um destaque muito maior, talvez devido aos constantes embates com Angela. Muito mérito de Bess Armstrong.

Muitas vezes, Patty representa uma grande parcela da população: o americano de classe média. Através dela, o seriado faz algumas críticas a determinados comportamentos e expõe hipocrisias enraizadas na sociedade. No decorrer da série, ela segue aprendendo diversas lições com Angela e seus amigos (principalmente Rayanne e Rickie), mostrando que, nas relações familiares, não são apenas os filhos que aprendem com os pais. Tudo isto é feito, normalmente, de forma indireta: o uso de metáforas é outra grande característica de My So-Called Life.

Das personagens jovens, destaco Rayanne Graff. Com seu espírito livre, estilo peculiar, comportamento autodestrutivo e sexualidade à flor da pele, Rayanne é maravilhosa. Considerando a época em que o seriado foi exibido e o público-alvo, ela é um grito de liberdade. Mesmo ela sendo um dos maiores alívios cômicos da série, Rayanne também possui uma melancolia enorme. Destaco também a inusitada amizade que se desenvolve entre ela e Sharon, promovendo o desenvolvimento de ambas as personagens.

Outro ponto notável é a trama de Rickie. Sendo um dos primeiros retratos de um homossexual adolescente na TV, ele foge de todos os estereótipos televisivos, como o de ser um alívio cômico, o gay bonitão ou o melhor amigo gay engraçado da protagonista. Rickie é latino, pobre, usa maquiagem e frequenta o banheiro feminino com a maior naturalidade. E é absolutamente normal. Talvez seja um dos personagens mais tristes do seriado, tentando constantemente viver através de Angela e Rayanne por achar que não há espaço no mundo para ele.

Numa época em que falar sobre homossexualidade era algo muito mais complicado, My So-Called Life conseguiu, sem levantar bandeiras e apenas através da beleza de seu texto, representar muito bem uma parcela renegada da população, que não possuía muitos modelos em que pudessem ver a si mesmos. Ser um gay adolescente não é fácil, e o seriado merece palmas por ter tido essa coragem. O maior exemplo de tal coragem é o episódio especial de natal, So-Called Angels, sem dúvidas o especial de natal mais bonito que eu já vi.

Como dito antes, My So-Called Life fala muito através do que não é dito. Pouco é mostrado sobre os dramas familiares de Brian, Jordan, Rickie e Rayanne, mas podemos muito bem enxergar as consequências deles nos personagens, através puramente da interpretação e do texto primoroso.

Infelizmente, a série não teve vida longa. A linguagem peculiar não conquistou grande audiência. Com isso, houve uma grande manifestação virtual para pedir a renovação da série, sendo o primeiro caso de união de fãs para tentar causar a renovação de uma produção televisiva. Sim, os fãs de My So-Called Life foram os precursores de #savefringe, #sixseasonandamovie e tantas outras. Infelizmente, Claire Danes não demonstrou interesse em continuar com a série, preferindo dedicar-se a uma carreira no cinema. Aliás, muitos fãs se revoltaram com ela por causa desse motivo. Com isto, MSCL chegou ao seu fim.

Terminando de forma prematura, a temporada de My So-Called Life é excelente. Não há um episódio ruim e a série consegue transmitir sua mensagem de forma muito competente. Destaco os episódios do professor substituto, o do desfile de beleza de mãe e filha, os que são narrados por Bryan e por Danielle, o (novamente, maravilhoso) especial de natal e a season finale. My So-Called Life termina com a sensação de que havia muito mais a ser explorado, mas, de certa forma, o final prematuro confere certo charme ao seriado. Como disse a criadora da série em entrevista, a ironia era que o seriado, que falava sobre adolescência, terminou na sua própria adolescência.

Concluo meu texto fazendo um apelo: assistam a My So-Called Life. São apenas 19 episódios que merecem ser vistos e revistos por todos. Se você se considera um serie maníaco e ainda não assistiu, veja-o agora mesmo. É uma obrigação. Mesmo depois de anos, My So-Called Life permanece atual, e eu realmente duvido que ela vá deixar de ser um dia. Os dramas retratados por ele são universais, e há muito que se apreender destes 19 episódios. Um grande exemplo de como a teledramaturgia pode atingir o patamar de arte.

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