Hora de desapegar.

Entrando em sua reta final, a cada episódio, Friends dá continuidade no processo de preparação do terreno para a series finale. Em meio a tantas mudanças na vida dos personagens, o telespectador começa a sentir um aperto no coração e uma saudade antecipada dos 6 amigos mais queridos da televisão. É engraçado perceber que, mesmo depois de quase 10 anos do fim da série, a despedida de Friends ainda consegue me angustiar e me emocionar. Impossível não se identificar com Joey e não sentir desespero pelas grandes mudanças propostas pelo episódio. Se nos acostumar com ideia de Monica e Chandler mudando para o subúrbio já era uma tarefa difícil, como lidar com a possibilidade de Rachel ir para Paris?

“The One With Princess Consuela” é essencial para entendermos como a série é capaz de nos transformar em pequenas garotinhas de 8 anos que ainda têm problemas para lidar com as mudanças da vida e com o final das coisas. Até hoje milhões de fãs pelo mundo ainda sonham com um retorno de Friends, o que fica provado com a grande repercussão que qualquer boato em relação ao assunto consegue obter. Nós, fãs, muitas vezes não conseguimos entender que a vida segue e que, por mais que fosse ótimo ter Friends de volta, a série nunca mais seria a mesma. O amor dos fãs, as eternas reprises do Wanner Channel, os DVDs, os Blu-Rays e iniciativas como o Flashback aqui do SérieManíacos vão manter Friends sempre viva na memória, sendo lembrada por 9 entre cada 10 pessoas como a melhor e maior série de comédia de todos os tempos. Acreditar que uma nova temporada de Friends conseguiria ser boa como as anteriores é a mesma coisa que inventar que a casa em que seus amigos irão mudar é mal assombrada. O fim é irremediável e ele ter acontecido quando aconteceu é um importante fator para que a série seja tão importante como ela é.

Falando do episódio propriamente dito, o grande destaque ficou por conta da participação da brilhante (pelo menos enquanto criança) Dakota Fanning. A escolha da precoce atriz mirim para este episódio foi uma verdadeira cartada de mestre por parte dos produtores, já que ficou muito engraçado a inversão de papeis entre adulto e criança da personagem com Joey. Algo que poucas crianças conseguiriam fazer no mesmo nível de atuação e carisma que Daktoa conseguiu. Depois de algumas ridículas e engraçadas tentativas de boicotar a nova casa de Chandler e Monica, Joey acaba encontrando sábios conselhos numa pequena garotinha, que o ensina a importância de desapegar das coisas e de pensar na felicidade de seus amigos. Ver Joey sendo tratado como uma criança é realmente muito divertido e costumeiro na série, porém a história consegue carregar um grande poder emocional, principalmente porque a gente sabe que, dos 6 amigos, ele foi o único que encerrou a história sozinho e ainda morando no mesmo prédio de sempre (a série “Joey” foi apenas um pesadelo e é completamente descartada por este reviewer e por todas as pessoas de bem). Vale ressaltar a ótima sequência final do episódio em que Joey acaba pedindo conselhos profissionais para ninguém menos do que o urso de pelúcia de sua mais nova amiga, que mesmo gostando de ler acabou conquistando a amizade de Joey.

Enquanto tudo isto, Phoebe acaba se empolgando um pouco demais ao descobrir que pode mudar o seu nome para qualquer coisa. Muito prazer em conhecer a Senhora Pricess Consuela Banana Hammock, um nome que, infelizmente, perde muita a graça quando traduzido. Interessante perceber que existe uma espécie de easter egg nesta trama, uma vez que Valerie, nome pelo qual os amigos da Princesa Consuela a chamariam, é também o nome do meio de Lisa Kudrow. É impressionante a capacidade dos roteiristas de Friends de fazer uma trama tão simples e despretensiosa como esta render tanto, sem dizer que o desfecho conseguiu ser igualmente divertido e ainda coerente com Mike se autointitulando Senhor Crap Bag. Só senti falta de alguma piada envolvendo Regina Falange, já que todos sabemos que este sim é o nome favorito de Phoebe.

Na história mais importante e significativa do episódio, ao dar um tremendo azar fazendo uma entrevista de emprego no mesmo restaurante onde almoçava seu atual chefe, Rachel acaba perdendo seu trabalho na Ralph Lauren ao mesmo tempo em que não consegue a oportunidade na Gucci. Todo este plot rendeu ótimos momentos de humor desde o começo com as novidades de Rachel e Ross sendo ofuscadas pelo grande feito de Joey, que finalmente conseguiu tirar uma semente do dente. Rachel tentando disfarçar a entrevista de emprego e se vendo em mais uma constrangedora situação com o seu chefe foi impagável, ainda mais com o trocadilho do Hugo Boss, porém um dos momentos que eu mais gosto do episódio é quando Ross resolve se gabar de sua promoção um pouco demais ao brindar com um excelente champanhe israelense. Gosto muito de ver os esforços frustrados de Monica, Chandler e Phoebe em contraste com a insistência de Ross ao falar da importância da carreira, de salário e do fato de não poder mais ser demitido justamente quando Rachel acabou de passar por isso. A trama consegue melhorar ainda mais quando os roteiristas resolveram desenterrar Mark, que ainda trouxe de presente a maior reviravolta do episódio, Rachel conseguindo um emprego, bem melhor do que o seu atual por sinal, em Paris. É muito bom ver aquele Ross ciumento e dedicado a Rachel de volta justamente quando ela me aparece com uma bomba destas. Mesmo quando o episódio era inédito era muito fácil prever que Rachel não iria se mudar para Paris e que obviamente conseguiria resolver sua complicada relação com Ross, porém, mesmo assim, não tem como não se desesperar com tal notícia. Rachel interessada em ir para Pais era o que faltava para a gente perceber o quão próximo estava o fim.

Com um episódio tão bom e cheio de momentos memoráveis, nos aproximamos ainda mais do final da série e do nosso Flashback. Faltam só 3 episódios. O bom é que nesta altura do campeonato já sabemos que todos eles manteram o excelente nível de “The One With Princess Consuela” e encerraram a série da melhor forma possível.

PS.: Mesmo não se destacando tanto neste episódio, Chandler foi capaz de nos presentear com as duas melhores piadas: “Única menina que morou aqui morreu a 30 anos” e “Voltei 7 anos no tempo. Minha máquina do tempo funciona”.

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