
Uma Under the Dome com cara de Stephen King.
Spoilers Abaixo:
Desde que a série estreou a sensação era de superficialidade, de tudo ser um pouco raso… Esse é um aspecto corriqueiro das produções que só pretendem números. Elas avaliam o espectador com a mesma inexpressividade com a qual criam seus universos. É um principio criativo básico, que prevê o envolvimento com o factual e não com a estética. O inverso, entretanto, também não é 100% eficiente. Boas histórias devem buscar a beleza.
Stephen King sempre foi um desses autores que se equilibram. Geralmente, ele passa o corpo de seus livros exercitando o suspense com expectativas únicas, descrevendo-os com uma propriedade definitivamente bela. Ele por vezes esquece o fato em detrimento da beleza, mas sempre, sempre é eficaz no exercício do envolvimento. Pra mim, especialmente, esse era o grande problema de Under the Dome em sua versão seriada: envolvimento.
Ironicamente, o episódio mais coeso da temporada se chama “Círculos Imperfeitos”. Pela primeira vez, desde que a série começou, ela ousou metaforizar de verdade, ela ousou buscar equilíbrios: nem muitos fatos e pouca estética… Nem muita estética e poucos fatos. Por mais que os problemas de sempre estivessem pairando sobre a série, nessa semana ela alcançou alguma excelência sendo mais que uma trama, e tentando ser arte.
Vamos admitir, enfim, que Joe e Norrie tem uma ligação definitiva com a redoma. Isso me assusta, preciso confessar. Esqueceram um pouco das convulsões e se focaram numa conexão que por algumas vezes parece científica, e em outras sobrenatural. Essa palavra “sobrenatural” é amiga íntima da obra de King, e se aplicaria totalmente a qualquer universo criado por ele. É preciso, no entanto, ter muito cuidado ao estabelecer essas conexões. Quando decidiram que a redoma ficaria em Chester’s Mill por mais de uma temporada, os roteiristas precisaram buscar saídas e o que vimos nessa semana pode ser o prenúncio dessas reposições.
Ainda assim, foi bom descobrir que existe um plano. O roteiro dessa semana estava muito bem amarradinho. Angie não está nessa equação positiva ainda, mas não foi um empecilho que ameaçasse a boa condução do episódio. Vejam bem, não é nada original correlacionar nascimento com morte, mas numa trama tão desinteressada em analogias, qualquer uma ainda é um ganho. Salvando-se esse aspecto, podemos dizer que foi muito importante para a série estabelecer que a redoma é um novo satélite. Ele reorganiza as marés daqueles habitantes. Ela é uma nova espécie de Deus.
Não foi apenas um flerte com essa “divindade”. Ao mesmo tempo em que Joe e Norrie encontraram aquela que pode ser a “ignição” da redoma, também presenciaram uma nova manifestação de sua existência. No episódio passado já tinham insinuado a “manipulação” do fenômeno, numa relação direta que afetaria os habitantes de maneiras que vão além do simples isolamento. Reforçaram isso agora, ao responsabilizar a redoma pelos destinos dos protagonistas dessa semana. Por um momento, achei realmente que o pedido de Norrie seria atendido e Alice realmente voltaria à vida.
Pela primeira vez, também, as semelhanças entre Big Jim e Junior foram mais sutis, menos óbvias, menos sublinhadas. E suas ações partiram de uma bem-vinda contradição de valores: Big Jim tem prazer em matar pela cidade. Junior descobre o prazer de simplesmente, matar. Porém, num primeiro momento, Junior também acha que está matando por um bem. Isso aproxima pai e filho pela perspectiva da morte, do crime, mas sem texto, sem drama, só com ações. Junior mata. Jim mata. Não há necessidade de descrições verbais vilanescas… Só uma explosão e um olhar, e o recado tem ainda mais força.
Enfim, nada seria tão vantajoso para Under the Dome quanto a atenção ao detalhe, à sutileza, à entrelinha. Ainda estamos curiosos com o mistério, assustados com o suspense, preocupados com as decisões futuras, mas estamos, sobretudo, famintos por mais camadas de interpretação, por mais prazer estético, por arte. Esse episódio teve um cheirinho de Stephen King e eu gostaria muito, muito mesmo, que esse aroma pairasse definitivamente na série, como se represado pela redoma, como se incapaz de perder-se no vento.
Little Dome: O rodapé que profetiza. Adorei a “little dome”.
Preparados para a sessão de comparações com o livro? Se não, vão evitar partos de bebês com placentas enroladas na cabeça, proteger o mundo de mais Iluminados, e fiquem longe daqui!
Redoma das Comparações:
SPOILERS DO LIVRO
– Como Alice no livro é um dos “redomórfãos” (crianças separadas dos pais pela redoma), ela não se despede da trama fazendo partos. A criança Alice representa um aspecto social que a série ainda ignora: estranhos e moradores podem criar laços definitivos substituindo seus laços anteriores.
– No livro, com a ajuda de um Contador Geiser, Joe encontra o artefato que parece “produzir” e manter a redoma. Entretanto, a descoberta também determina que as convulsões, os choques ao se aproximarem da parede invisível, os animais mortos na trilha da radiação, tudo isso pretendia afastar os moradores da cidade dessa “fonte”. No livro, não há uma “redominha” protegendo-a. Ela é descrita como uma pequena caixa, que assim como na série, emite luzes lilases. No entanto, ela não está num bosque e sim na parte mais alta da cidade. Essa geografia acaba sendo importante para a sobrevivência de alguns personagens no momento do clímax.
– Assim como no livro as explosões e incêndios continuam, mas infelizmente as semelhanças param aí. O ar da série continua puro e cheio de fluxo.
– Ironicamente, por mais que quase toda a obra de King seja permeada pelo sobrenatural, esse não é um aspecto explorado no livro.












![Under The Dome 3×13: The Enemy Within [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2015/09/Under-The-Dome-3x13-218x150.jpg)

