Mais um trauma de infância para a coleção de Friends.

Monica era gorda e tinha problemas com a mãe. Phoebe foi morar nas ruas depois que a mãe se matou. Chandler tinha pais, digamos, nada tradicionais. E Ross, como o geek do grupo, revelou, em plena nona temporada, o seu trauma: ter a revista em quadrinhos de sua autoria roubada em meio a seus pertences por um assaltante gigantão. Assaltante este que, para o nosso choque, de gigantão não tinha nada: era Phoebe, que em seu período nas ruas, trabalhava justamente na região em que Ross trafegava no dia do assalto. E esta é a grande revelação em The One With The Mugging (“Aquele com o Assalto”).

Não escondo de ninguém que Phoebe e Ross são meus personagens favoritos de Friends, e costumo adorar quando essa dupla se une para compartilhar um arco só seu. Isso porque não enxergo dois personagens tão diferentes, e por isso tão complementares quanto esses dois. Ela, maluca, durona e com uma vida bastante guiada pelo misticismo; ele, um geek extremamente racional e pé no chão. Muita coisa boa já saiu dessa união, como a inesquecível discussão sobre evolução em The One Where Heckles Dies (que, pra mim, poderia se chamar “The One Where Phoebe Doesn’t Believe In Evolution”).

Infelizmente, não acho que Ross e Phoebe tenham, neste penúltimo ano, aquela mesma química de outrora, e parte disso se deve principalmente ao roteiro do episódio. Há um excesso de descobertas que parece forçado demais para personagens que conhecemos há tantos anos. O trauma de Ross, o passado criminoso de Phoebe, a conexão entre ambos… não é a primeira vez que Friends faz uso do absurdo para fazer humor, mas aqui tivemos tanta novidade no limite da verossimilhança que ficou difícil engolir tudo de uma vez. Ainda assim, foi bacaninha ver Phoebe se sentindo mais realizada por constatar que sua conexão com o restante do grupo não era tão recente quanto parecia – preocupação que foi fazendo cada vez mais sentido ao longo desses anos, com vários episódios de flashbacks em que ela acabou ficando de fora. E não há como não rir do rótulo na caixa que continha os quadrinhos do Science Boy: “Crap from the streets”. Genial! Aliás, as ótimas falas de Phoebe no episódio dariam uma bela lista, certamente encabeçada por “I wasn’t rich like you guys, I didn’t eat gold and ride a flying pony!” e pelo diálogo com Monica (Phoebe: “I had a tough life, my mother was killed by a drug dealer…” Monica: “Your Mother killed herself.”  Phoebe: “She was a drug dealer!”).

Enquanto Monica e Rachel acabaram sendo deixadas quase totalmente de lado no episódio, Joey e Chandler tiveram, cada um, um arco para chamar de seu, e esses, sim, funcionaram incrivelmente bem. O primeiro deles, um teste do ator para uma peça da Broadway, teve a participação especialíssima de Jeff Goldblum como o astro Leonard Hayes. É verdade que Joey passou muito longe de atuar melhor por estar com a bexiga cheia, mas esse é o tipo da situação que merece um desconto em nome do humor. Além disso, não bastasse o imenso carisma do convidado, Matt LeBlanc parece ter se superado nesse episódio, principalmente quando seu personagem descreve para Monica as orientações recebidas e confunde horizontal e vertical e no momento em que Joey “relaxa” nos braços de Leonard Hayes. Demais!

Chandler, por sua vez, encontrou um novo caminho profissional: a publicidade. Uma excelente decisão do roteiro para alguém com o perfil dele. Apesar de uma carreira como essa ser mais distante do cotidiano do telespectador comum do que a burocracia de escritório a que o personagem se submetia antes, ela certamente rende mais diversão, e por isso é muito bem-vinda. E, contando com mais uma performance absurdamente fora do normal de um inspiradíssimo Matthew Perry, este começo já é uma boa palhinha do que ainda pode vir pela frente na vida de Chandler – a bacia quebrada que o diga, coitado.

The One With The Mugging é um daqueles episódios repleto de boas ideias, mas que infelizmente parecem ser muito mais interessante na teoria do que no momento em que as vemos prontas. Vale, porém, destacar que o fato de Phoebe ter assaltado e traumatizado Ross é um dos pouquíssimos desta nona temporada que ficaram gravados eternamente na minha memória,  o que certamente reflete um certo mérito desse arco. Talvez o único pecado da dupla tenha sido, no fim das contas, gerar expectativa em excesso em razão do talento e carisma dos intérpretes e personagens.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.