
A alma de um herói.
O nome Joss Whedon, sempre foi sinônimo de grandes sucessos e belas produções tanto no universo televisivo quanto no cinema. Antes de se tornar o responsável pela criação da ficção cientifica mais injustiçada da história (Firefly), este showrunner iniciou seu caminho de ousadias e inovações no panorama das séries com a criação de uma caça vampiros, consideravelmente inofensiva a uma percepção inicial, mas que foi capaz de destruir uma deusa, retornar do mundo dos mortos e combater a essência do mal enquanto selava, (algumas vezes), a boca do inferno. (Buffy). O sucesso desta loirinha invocada foi tanto que ao término da terceira temporada da série, o mesmo Joss Whedon associou-se com David Greenwalt para criar seu spin-off, Angel.
Não há novidades sobre o quanto a literatura vampírica torna-se envolvente e recebe inúmeras honras de reconhecimento critico sobre a perspectiva da sociedade, desde um de seus maiores marcos: o romance Drácula de 1897. Este “ser mitológico” tornou-se símbolo de um estilo literário, assim como uma figura recorrente ao universo dos cinemas, alternando certas características com outros contos e mitologias demoníacas. Mas que sem dúvidas ganhou a atenção do público e tornou-se um clássico transcendente aos tempos.
E “abraçando” este universo de possibilidades sobre esta criatura, Whedon criou um dos vampiros mais famoso e complexo das histórias das séries.
Angel é um vampiro que foi amaldiçoado em ter sua alma restaurada após assassinar uma jovem integrante de um clã cigano. A punição buscava puni-lo em angustia e sofrimento, enquanto vagasse pela terra, por todos os crimes e atrocidades que o vampiro cometeu quando era reconhecido como Angelus. E por muitos anos ele carregou este fardo, sem conseguir prosseguir com muitas ações ou significado para sua “vida/morte”. Até que ele conhece um demônio chamado Whistler, que lhe oferece a oportunidade de compensar seus feitos cruéis auxiliando àqueles que lutam contra o mal. Ele conhece Buffy e por muito tempo auxilia a garota sem a sua ciência, até que em Sannydale ele faz sua apresentação como aliado das grandes batalhas que iriam surgir no caminho da caçadora.
E uma parceria que deveria existir para combater as forças do mal acaba tornando-se o primeiro amor de ambos. Angel perdera a vida ainda muito jovem e como Angelus nunca apresentou este sentimento. Para Buffy, o vampiro surgia como um amor juvenil, mas que se tornaria o símbolo para sua evolução emocional e o único relacionamento completo que ela teria por toda a sua jornada.
Com uma analogia simples, porém significativa, a alma de Angel encontra-se “presa” ao seu corpo por conta de uma maldição, e como todas estas oferecem a oportunidade de serem rompidas. Para o vampiro, encontrar-se livre do fardo de seus crimes ocorreria se ele pudesse reconhecer a plena felicidade. A crueldade deste fato foi a grande responsável pelo grande ápice da série da caça vampiros.
Ainda durante a segunda temporada de Buffy era possível perceber que aquele personagem coadjuvante ganhara tamanha essência e complexidade permitindo-o transpor, em muitos momentos, a história da protagonista, naquele momento. Diante de tamanhas possibilidades e ao mesmo tempo em que suas participações tendiam a diminuições, em consequência da essência e evolução do seriado. Assim, Angel “despediu-se” de Buffy em Graduation Day, e seguiu para construir sua própria jornada em Los Angeles.
E como Cordelia explicaria, ainda na primeira temporada, Los Angeles era uma cidade de todos, pois muitos seguiam em busca de seus sonhos, sua identidade, em uma local sem um verdadeiro estereótipo.
Uma vez, estruturado o personagem, Joss Whedon muniu-se dos conceitos de Joseph Cambell (O herói de mil faces) para mergulhar-nos na aventura de um herói que recusara o seu chamado, mas futuramente compreenderia o seu destino e abraçaria um propósito.
Diferentemente da temática juvenil de sua predecessora, Angel era uma série extremamente adulta, e que construiu toda sua estrutura sobre os conceitos dos estereótipos da sociedade. Seu protagonista representava diretamente a concepção da consciência moral e duelava, inúmeras vezes, com a própria personalidade para auxiliar uma sociedade que distorcia seus valores.
Durante a primeira temporada, o roteiro transitou quanto a sua essência até verdadeiramente encontrar sua composição. Ainda com episódios procedurais, Angel tentava construir o cenário que seria a base de uma trajetória gradativa e absurdamente fantástica, até atingir o seu ápice durante a quinta temporada.
Seus personagens eram criados de forma a envolver as distinções que caracterizam a sociedade, enfatizando, em algum momento da série, àqueles que simbolizam as instituições base da civilização. Como por exemplo, A Lei: com a policial Kate Lockley, que combatia e lutava pelos mesmos conceitos de Angel, mas que agia às cegas, por realmente não estar preparada para a verdadeira face do mal. Em contrapartida à Wolfrang & Hart *, representada pelo grupo de advogados, detentores do conhecimento sobre a realidade terrena a outras dimensões, a empresa atua defendendo os demônios sobre a face da justiça. A Religião: representada por Powers That Be, que auxilia Angel e sua Fang Gang sobre as forças que agem na cidade e os caminhos a serem seguidos para ajudar os que necessitam. Os Poderes que Valem surgem como a representação da fé sobre a existência de forças que se aliam a Angel por reconhecer o significado do vampiro na luta contra um Apocalipse. E por último A Ciência: exposta primordialmente por Wesley e Fred. Antagônicos em seus posicionamentos (A Tecnologia x O Conhecimento em sua essência), o casal enriqueceu o seriado a partir do fim da segunda temporada, e foram os pivôs dos principais plots durante os dois últimos anos.
Desde o começo o seriado demonstrou que a ousadia seria sua aliada guia durante cinco anos, matando personagens marcantes e de forte carisma para o público sem qualquer piedade e como ancora para apresentar evoluções importantes tanto no panorama estrutural quanto sob a essência do seriado. Doyle representaria o primeiro sacrifício de um herói, que mudou a percepção do protagonista e estimulou o ritmo necessário ao roteiro a partir da primeira temporada. Cordelia, que surgiria como a tentação de Angel e partiria para retornar como grande vilã da quarta temporada. Fred que seria o símbolo da luta, por hora esquecida, da Fang Gang e com sua morte escancarava ao telespectador a crueldade de Whedon perante a sua soberana criatividade. A morte mais cruel da história do seriado, instituída sobre a figura mais pura e benévola do grupo, que sofreu (literalmente) e pagou o preço sobre os erros dos amigos.
E mais do que arriscar sobre os personagens, muito também era investido sobre inovações em cada episódio, sendo estes fillers ou não. Estruturações, muitas vezes, que fugiam da conceituação padrão ou da tradicional “zona de conforto”. Como Waiting in the Wings, criado sob um roteiro embasado na temática de uma ópera, ou Smile Time onde nosso protagonista transforma-se em um fantoche.
De fato, Whedon aprofundava-se sobre as possibilidades criativas associadas a uma grande base de conhecimentos filosóficos e mitológicos que simplesmente deixava o telespectador estupefato diante de cada episódio, sobre tamanha genialidade. Não apenas por muitas vezes, se espelhar ao olhar de novos estereótipos, mas também, por muitos momentos questionar o próprio valor do significado entre o certo e o errado diante aos dramas vividos a cada personagem. Como no episódio Are You Now or Have You Ever Been, onde nosso protagonista rende-se em acreditar que ninguém merece ser “salvo” e permite que um demônio destrua todas as almas de um hotel. Ou Jasmine que deseja imprimir uma sociedade utópica sem guerras ou desacordos, em troca de se alimentar de alguns humanos. Porém se de imediato isto parecia assustador, Lilah mostra a Angel que seria o sacrifício de poucos para a prosperidade de bilhões, enquanto que com a destruição daquele demônio, a humanidade estava totalmente perdida.
A questão é que, se entre o bem e o mal existe uma linha tênue, para Joss Whedon, esta divisão era uma enorme área pintada em tons graduados de cinza, chamada Los Angeles.
O ápice do seriado, sem dúvidas, ocorreu durante sua quinta e última temporada. Com a atribuição de Spike (James Marsters) à equipe, a despedida de Cordelia e a saída do intragável Connor. Angel e sua equipe decidem por trabalhar para seu maior inimigo, a Wolfrang & Hart. Iniciando o que indicava ser um grande acordo como o próprio diabo. Cada episódio responsabilizava-se de expor algum gancho que seria responsável pela estrutura final da série. E se para muitos aquele cliffhanger será odiado eternamente, para outros, (como eu), Angel não poderia ter apresentado outro final, senão a prova de que o seu protagonista representava todos os heróis, (cada individuo de uma sociedade) e que sua batalha poderia ser a última, mas que a guerra contra as forças atuantes em busca da corrupção da alma e a aniquilamento do bem, será eterna.

* O nome do grupo (Wolfrang & Hart) em inglês significa: O lobo, a ovelha e o cervo. Referência a um conto de fadas que estabelece como conceito de moralidade: “Quando alguém se posiciona contra ti em presença do inimigo, como prudência, resta-te calar até ocorrer a oportunidade da vingança.”, tema de fato utilizado durante toda série, até sua última temporada.
Fica a dica:
Para quem gosta de quadrinhos e lamenta, até hoje (como eu), o fim desta obra-prima da televisão. A série foi transformada em HQ e conta a história do herói após a season finale da quinta temporada. O sexto ano chama-se “After the fall”. É possível encontrar o material para download ou leitura online em pesquisa rápida.












