under the dome 3

Condensação é um exercício que talvez Under the Dome tenha muitos problemas em executar.

Spoilers Abaixo:

Pra quem faz dramaturgia, criar um mundo, uma sociedade, uma trama, exige o raciocínio não só do esqueleto narrativo, mas de quem vai fazer parte dele. A criação de personagens é um passo de muita responsabilidade, porque quanto mais alegóricos, mais difícil de lidar com eles depois. Se todos eles tem sua função, o autor provavelmente não terá problemas. Precisamos resistir ao ímpeto de completar fileiras aleatoriamente, ou isso pode nos perseguir depois.

Na literatura é bem mais fácil lidar com muitos personagens. Você pode criar todo um exército de “soldados rasos”, com a função apenas de aparecer nos momentos necessários e depois sumir, ou morrer. Não existe responsabilidade jurídica. Já na TV ou no cinema, é mais complicado. Personagem significa ator, e ator significa logística. Você tem que administrar egos e fazer valer cachês. E quando a questão é uma adaptação, o problema dobra. Um livro tem muito mais personagens necessários à uma história e nem sempre relevantes para a TV.

Under the Dome pode ser uma cilada nesse aspecto. King sabe manejar bem as aparições de urgência e tem o dom de torná-las importantíssimas. Na TV isso perde seu efeito, e o adaptador precisa escolher entre abrir mão ou revestir de novas possibilidades. No episódio dessa semana ficou muito claro que esse tem sido o maior sofrimento desses roteiristas, que se contorcem para criar novos enredos que destaquem essa ou aquela contratação. Com um elenco que não pode passar do limite, as tramas precisam ser condensadas e começam a trepar uma em cima das outras, nos dando essa sensação de que está tudo meio desarrumado.

E a coisa está fora do lugar sim. Mas principalmente e absolutamente, porque está se focando no indivíduo cedo demais. Seja por questões orçamentárias (o aspecto panorâmico da história exigiria mais gastos) ou por achar que precisa desenvolver os personagens, o roteiro de Under the Dome está enfraquecendo por não entender que o choque inicial, a resposta do mundo exterior, precisa vir primeiro do que os efeitos sociais. Toda a atenção dada às correlações entre Barbie, Junior, Julia, Jim e Linda acabam sendo mais naturais quando vem como consequência do movimento de enfrentamento perante a redoma.

É triste admitir que a trama toda entre Julia e Junior, por exemplo, foi completamente precipitada. Havia um sentido claro (o de tornar Barbie ainda mais ambíguo) mas essa é uma proximidade automática demais. Junior mal teve tempo de parecer perturbado e o roteiro já quer redimi-lo perante o público. Julia mal estabeleceu seus laços com Barbie e a história já quer que ela tenha algo em comum com o lado oposto. O mesmo para a reunião de Jim com Barbie, algo que faz parecer que Barbie é um personagem de anos na cidade, quando na verdade é um forasteiro que nem devia estar tendo tanta atenção assim. Tem uma redoma invisível bloqueando tudo!! Vamos nos incomodar com o forasteiro quando ele começar a atrapalhar a rotina (o que ainda não é o caso). E dá-lhe histórias do passado… Parece que todos se aproximam através do compartilhamento de um conto pregresso. Nesse episódio, o número de histórias do passado ou de explicações sobre o presente, foi absurdo.

Eu salvo o núcleo de Joe, que me soa bem coeso. Norrie é um pouco caricata, de fato. Uma garota como ela deveria achar a transgressão de ter mães lésbicas muito bacana, e não o contrário. Mas apesar disso, Joe tem sido introduzido de forma muito progressiva e correta, no caminho certo de que sua inteligência terá a ver com o mistério da redoma. As misteriosas convulsões são um toque bacana e por aparecerem também me tranquilizam, já que representam um detalhe da história que não será abandonado pela adaptação.

O aspecto humano é muito importante sim, e faz parte do grande miolo criativo da obra, mas agora, no entanto, acho que é hora de focar na cidade como organismo vivo, e que sofre um baque na sua rotina. Big Jim, inclusive, só crescerá na trama não através do plot das drogas, mas quando ficar claro que Chester’s Mill está desnorteada e precisando de uma liderança. Foquemos aí… Primeiro em Mills e depois nos moradores de Mills. No fim das contas, uma coisa levará a outra.

Little Dome: Muito bacana a referência ao filme dos Simpsons. Vai dar uma freada nos espertinhos que acham que precisam sublinhar o tempo todo a semelhança. Under the Dome é muitíssimo anterior à animação.

Little Dome 2: Mais cenas na redoma também serão bem-vindas. Ela sendo usada na pista de Skate foi um toque bem interessante.

Agora, reagindo a boa resposta na review anterior, partiremos para os SPOILERS DO LIVRO, portanto, se você não quer saber, vai fazer maratona de Haven e suma daqui!

Redoma das Comparações:

– No livro os celulares funcionam entre os moradores da cidade. Não há sinal pra fora. A internet funciona normalmente e é um importante veículo de compreensão de como o mundo exterior está reagindo ao fenômeno. Os geradores de energia também são comuns no livro.

– Peter Randolph, que é na verdade quem assume o lugar do xerife morto, virou Paul Randolph na série, e morreu surtado.

– A coisa toda com as drogas também existe no livro e está sendo bem abordada na série.

– O casal de lésbicas não existe na literatura. Na sua versão paginada, Norrie já é moradora da cidade. O caso mais louco é o de Carolyn e Alice. No livro, Carolyn é uma jovem que foi se encontrar com um homem mais velho, seu professor, num chalé dentro da cidade. A redoma chega e os prende lá. Eles então encontram dois irmãos que ficaram do lado de dentro da redoma depois da mãe ter saído para compras matutinas. Uma das crianças se chama Alice.

– Barbie não é um forasteiro tão recente assim no livro. Quando a redoma chega ele já está na cidade a algum tempo, e trabalhando como cozinheiro no Rosa Mosquetta.

– Notei que na série, os dias estão passando rápido. No livro, todos os eventos da redoma não duram muito mais do que alguns dias, talvez pouco mais de uma semana. Os dias e noites passam muito devagar.

– “Todos nós apoiamos o time” é uma frase do livro e uma espécie de chavão de Big Jim.

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