Uma série de qualidades.

Spoilers Abaixo:

A nova aposta televisiva da MTV Brasil estreou ontem à noite após meia hora de making of seguida por mais meia hora de uma playlist da série e um contador regressivo em destaque. A manobra que visou manter a audiência de ‘A Menina Sem Qualidades‘ foi cansativa, mas valeu a espera.

A série é baseada no livro da escritora alemã Juli Zeh, originalmente desenvolvido para ser uma peça de teatro. Na história, conhecemos Ana, interpretada pela excelente Bianca Comparato, uma menina inteligente que desafia professores, sofre bullying, vive numa família onde o pai é ausente e se refugia no mundo dos livros para encontrar sua poesia. Em 20 minutos fomos apresentados ao universo de Ana e os personagens ao seu redor.

Um deles é o professor de literatura espanhola, Tristan. Argentino e vítima do regime totalitário de seu país, o personagem é casado com Bianca, que lamenta as agruras sofridas por um ideal e ostenta um ar depressivo. Alex, apresentado nas sinopses oficiais como um garoto manipulador de dezoito anos entrará na história nos próximos episódios para mudar a vida de Ana e Tristan, atuando como um catalisador para os conflitos da trama.

Entre os conflitos apresentados neste primeiro episódio, temos o namoro precoce entre Ana e Selma, colegas de escola. A relação navega entre passeios bucólicos, regados a explicações literárias e carícias, até a ocasião em que os pais de Selma descobrem o namoro e impedem que a filha mantenha contato com Ana. A primeira decepção amorosa causa leve impacto na protagonista e dá lugar a uma violência contida, alimentada por ataques gratuitos de outros alunos, que é a libertação da garota.

A série é dirigida por Felipe Hirsch e apresenta uma atmosfera cinematográfica de cenas contemplativas, silenciosas e surpreendentes por fugir do óbvio. É assim durante a cena da piscina, quando uma Ana indefesa leva uma surra de três alunos. Ao invés de mostrar a cena da agressão do ponto de vista de quem participa, seja vítima ou algoz, Hirsch nos coloca em uma situação desconfortável. Nós observamos sem poder fazer nada, como os vídeos que devoramos na internet. É uma cena contemplativa quando deveria ter sido rápida. Silenciosa quando deveria gritar em nossos ouvidos e, por isso, forte. Aliás, é no desprezo da protagonista pela internet que reside a crítica à contemporaneidade. Uma adolescente que despreza a internet é curioso e contagiante.

Por fim, ‘A Menina Sem Qualidades’, a despeito da divulgação massiva em diversas mídias, criou muita expectativa e apresentou um produto à altura. A série acerta ao apostar numa abordagem artística, dolorosa e nem por isso piegas, com roteiro ágil e diálogos sutis. Um produto incomum para a MTV que encanta pela ousadia.

A série é exibida de segunda à quinta, as 23h, na MTV Brasil.

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