
Um dispositivo nanotecnológico para remendar enganos, por favor.
Spoilers Abaixo:
Às vezes acontece de um reviewer sofrer as consequências de seus atos. Embora a review seja um exercício escrito de parcialidade, nem sempre os leitores encaram bem o nosso direito de nos expressar livremente. Revolution nunca me deu muitos problemas nesse sentido, porque em sua maioria, os leitores concordam com as instabilidades da série. Ainda assim, de vez em quando aparece alguma cobrança, principalmente no twitter.
A maioria das reclamações tem aquele mesmo tom de “você não dá uma chance pra série”. Eu, entretanto, me sinto no direito de discordar, porque já dei 17 chances e não me sinto recompensado. De certa forma, nesse trabalho de crítica, precisamos entender o lado do leitor, que muitas vezes se conecta a uma história por razões que transcendem até a compreensão dele mesmo. O curioso é que essas reclamações às criticas usam apenas a emoção como argumento. Os fãs gostam porque gostam, e muitas vezes não conseguem formular uma defesa a um item específico da diatribe.
A série funciona mais ou menos na mesma vibe digressiva. Ela vai para muitas direções e não se dedica a nenhuma. Ela vai funcionando sanguineamente: onde a circulação é melhor, ela passa. Eventualmente aparecem umas gorduras e ao invés de lidar com isso, ela prefere se dedicar a artérias novas. Um episódio como o dessa semana é um exemplo cabal disso. Foi uma confusão de intenções tão grande, que chega deu medo.
O caso mais grave foi de ritmo. A série tinha a intenção de repartir essa narrativa em direções correlacionadas: O passado de Miles como sempre em contradição com o presente, onde ele se importa com Charlie, e Tom correspondendo a isso na sua relação com Jason. O problema é que no meio disso tinha a história de Rachel, que não na tentativa de se aproximar da ordem do dia, justificou suas atitudes com argumentos que traíam tudo que ela tinha dito duas semanas atrás.
Já me cansei de Miles, principalmente porque ele é só reputação. Os flashbacks com Rachel não tinha nenhuma relevância e não nos serviam para aumentar a tensão sobre o risco de vida de Charlie. Primeiro porque Charlie não ia morrer mesmo, e já sabemos que o tio se importa com ela faz muito tempo. E sou da opinião que se os flashbacks não comunicam nada, não é necessário usá-los. E em Revolution eles raramente nos dizem alguma coisa.
A coisa toda fica mais clara quando falamos sobre Tom, que começa o episódio ameaçando o filho, com cara de vilão de novela, sem nenhum pingo de humanidade, sem nenhuma camada de insegurança em sua interpretação. Na metade do episódio ele volta atrás e passa a se importar de novo com o rebento. Poderia ser absolutamente normal, se Giancarlo Sposito não estivesse tão dedicado em demonstrar ódio, que ao ser obrigado a transparecer o mínimo de amor, isso transfigurasse seu rosto numa feia careta de confusão. Era um ator confuso ou um personagem confuso? Tô apostando na primeira opção.
E essa é a única opção viável, já que Rachel assinou um recibo de incoerência quando veio com aquele discurso egoísta de vingança. Se não bastassem os aviões e mísseis, que ofendem as raízes da série e ferem meus olhos quando os vejo, agora temos a nanotecnologia curativa, que é um território minado que ameaça tanta história bem planejada que dá medo de pensar no que pode acontecer com Revolution ao usá-la.
Rachel passou um tempão tentando convencer a mãe da Meredith Grey que a energia precisava ser religada mesmo que as pessoas beneficiadas pelos mecanismos sofressem, porque “isso era o certo a se fazer”. Agora, não vale a pena tentar salvar um garotinho, porque “ela não se importa com ninguém, só em se vingar de Monroe”. Eles ficam tentando fazer Rachel funcionar em sua ambiguidade, mas a personagem parece uma bagunça terrível. Ela não é rica porque é indecifrável, ela é pobre porque não tem consistência.
Enfim… Do jeito que está, vai precisar melhorar muito pra merecer elogios, e isso significa que vou continuar sendo criticado no twitter. Revolution quer tanto, que entrega pouco. Não soube desenvolver seus personagens e agora acha que fazê-los cometer atos chocantes vai torná-los mais críveis. Não, não vai. Monroe pode matar quantos quiser e Tom pode torturar até a mãe, que eles não vão parecer nada mais que caricaturas do mal. E por um motivo muito simples: Revolution é só uma caricatura de série.
Turn Off: Nora deu e se arrependeu e agora foi capturada. Mais um episódio de resgate aparecendo por aí. É só o que esses personagens fazem: resgatam alguém.














