Phillip: o maior trunfo e o pior problema de “The Walking Dead”.

Spoilers Abaixo:

A 3ª temporada de “The Walking Dead” se tornou rapidamente a mais esperada da série quando foi anunciada a participação do Governador, uma das figuras consideradas mais emblemáticas, polêmicas e amadas pelos fãs da HQ. Nós, telespectadores comuns da série, jamais teríamos expectativas tão elevadas para esse ano se vocês, consumidores ferrenhos da HQ, não tivessem sido os grandes responsáveis pelo hype criado antes mesmo do fim da 2ª temporada.

Mas a série não contou só com isso. A personalidade de Phillip foi apresentada com certo cuidado, ressaltando suas características dúbias, alternando entre um líder preocupado com o seu “povo” e um perseguidor implacável. Seu passado foi pouco explorado, mas isso não era relevante para o que a 3ª temporada se propunha a construir: a guerra entre Woodburry e os habitantes da prisão, que a gente já conhecia e acompanhava há dois anos.

A virada veio quando duas mulheres apareceram aleatoriamente em sua cidade. Uma delas, já calejada pelas dificuldades e o abandono de seu grupo, logo embarcou na ideia de um oásis em pleno apocalipse zumbi, onde a vida superficial se assemelhava a velhos costumes de um mundo saudoso. A outra, mais desconfiada, teve ressalvas com o que estava vendo. “Parecia bom demais para ser verdade”. E de fato, só parecia.

Fomos descobrindo, junto com Michonne, que o simulacro Woodburry era construído à base de sangue e mentiras. Peças de um quebra-cabeça que ela montou sozinha, assim como ela estava, antes de salvar a pele de uma pobre coitada loira.

À essa altura, nós já sabíamos que estávamos diante de um psicopata. Phillip era essa pessoa, encantadora à primeira vista, mas escondia comportamentos egocêntricos, impulsivos e sádicos. Dizer que a psicopatia é uma doença acaba gerando uma discussão que eu não tenho condições de argumentar, mas a partir do momento que o Governador pode ser enquadrado no caso, suas ações já não precisam mais ser justificadas. Ele é doente e ponto.

Porém, “The Walking Dead” quis ir além. O encontro com Michonne, que matou pela segunda vez a filha de Phillip e lhe custou um olho, somado à traição de Merle e a descoberta de que outro grupo habitava uma prisão, bem próximo a sua Woodburry, levaram Phillip para outro nível, fazendo com que ele abandonasse a figura que havia construído para sua plateia. De repente, não era mais o Governador garantindo sua sobrevivência e de seu grupo, por vias moralmente questionáveis, era um homem disposto a tudo para suprir sua sede de vingança.

Enquanto os personagens principais sofriam por decisões questionáveis e incoerentes tomadas em temporadas anteriores, além de pouco apelo com o público, David Morrissey nadou de costas e chamou facilmente para si todas as atenções. É por isso que hoje ele se tornou o maior problema de “The Walking Dead”, principalmente porque a série já se mostrou preguiçosa na criação de arcos e falha na construção de novos personagens.

Esse problema me lembra Russel Eddington, que roubou tanto a cena na 3ª temporada de True Blood que ganhou destino diferente de todos os outros vilões da série: ficou hibernando debaixo de um prédio para ser aproveitado duas temporadas depois.

Por qual motivo a permanência de Phillip se justifica para além de uma temporada (já prolongada)? Por que perder tempo com sete episódios pouco ágeis e rasos, se um único e último episódio não será o suficiente para finalizar a ameaça que o Governador representa?

Ok, Phillip mostrou que jogou Call of Duty tempo suficiente para aprender alguma coisa sobre táticas de guerra. Sua estratégia de derrubar zumbis e eliminar pontos de defesa foi correta. Mas se seu volume de soldados era uma de suas principais vantagens, sendo inclusive esfregado na cara de Rick, como justificar o massacre que ele promoveu logo após a fuga da prisão? Ele entregou a vitória de mão beijada, o que não seria necessário se essa guerra tivesse acontecido alguns episódios antes.

Este season finale foi fácil de engolir, principalmente por ter vindo após uma fraca sequência de episódios. Mas a decisão repentina de eliminar tanta gente, incluindo Andrea e Milton, mais soou como uma tentativa de forçar um choque para mascarar o fato de que pouca ou nenhuma coisa aconteceu. Todo série maníaco está cansado de lidar com produções que são canceladas sem final, deixando aquela sensação de “Tem, mas acabou”, e “The Walking Dead” conseguiu fazer o inverso, sendo a concretização da expressão “Acabou, mas tem”.

Entre os pontos positivos, merece destaque o destino de Andrea. Atire a primeira pedra quem não tiver pecado, mas eu gostava da personagem. Talvez por vê-la ser chamada equivocadamente de vadia, por ter transado com Shane e o Governador. Em condições extremas de sobrevivência, acredito algumas características inerentes ao humano acabem se sobressaindo, como comer e transar. E “The Walking Dead” tem pouco sexo.

Tenho o cuidado de evitar spoilers sobre a série porque isso atrapalha a minha experiência com o episódio. À contragosto, uma amiga infeliz acabou me avisando que Andrea morreria. Mesmo assim, movido por uma esperança de que tudo não se passava de um 1º de abril tardio, torci para que ela conseguisse se livrar da cadeira e eliminasse Zumbilton. Não aconteceu. E Andrea, uma personagem recriminada e pouco aproveitada, vai engrossar a lista dos que estão no inferno por suas boas intenções.

Boa intenção também foi a marca de Tyreese no episódio. Nem minha teoria e nem a de Michel Arouca se cumpriram, mas ainda assim o personagem mostrou que é íntegro e possui bom senso. Ele tem potencial para crescer e ganhar relevância na próxima temporada, mas potencial é só o que ele mostrou até o momento.

A gente já sabia que Carl tinha crescido, aprendeu a utilizar armas, matou zumbis, deu o tiro de misericórdia na sua mãe e até se engraçou para Taylor Swift, filha do Hershel. Por mais que a frase a seguir pareça estranha, ela faz sentido. Matar uma pessoa viva, naquele contexto, é um rito de passagem e precisamos ver para onde isso irá levá-lo. Gritos entre Hershel e Rick, uma rápida conversa com seu pai não podem bastar. Se as ações definem as pessoas, como bem vimos com Phillip e Rick, Carl não pode passar imune pela decisão que tomou.

Lembro que falei em um Podmaníacos que queria ver uma série sem “draminha” e foi o que aconteceu com Michonne e Daryl. A primeira, por ter falado para Rick que o entendia por considerar entregá-la ao Governador para o bem do grupo. E o segundo, por ter entendido a última e talvez única boa ação de Merle, sem perder tempo com lamentações e aparições de espíritos. Pelo menos prefiro pensar assim, porque se os acontecimentos tivessem se passado no meio da temporada, talvez o desenvolvimento tivesse sido diferente. Mas não vou me prolongar (mais) lamentando o que não aconteceu.

TWD tem tudo para ser uma grande série. Mas se quiser ser levada a sério, precisa reavaliar a condução de sua narrativa. Ao final do episódio, nada de cliffhanger espetacular. Com a audiência monstruosa que “The Walking Dead” possui, não é preciso muito para segurar seu público até outubro. A gente se encontra daqui a sete meses.

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