Retrocessos e tiroteios.

Spoilers Abaixo:


Um dos aspectos mais chamativos de Southland é sua obsessão pela simplicidade. O início da série foi tão pautado na lógica de vermos policiais nas ruas de um modo que humaniza a categoria com uma elegância ímpar que ver um episódio como “Babel” acarreta a um leve sentimento de retrocesso. Não que isso seja totalmente negativo, pois Southland conhece demais aquilo que elaborou nos anos anteriores para aparecer de modo aleatório com casos normais. O que vemos nesse terceiro episódio é um senso de agilidade incrível no momento de contar as histórias que compõem a narrativa, mesmo que ainda seja evidente a necessidade da série de retomar temáticas do modo mais fútil possível.

Os temas menos atraentes da quinta temporada são relacionados à Sammy e Lydia. Ambos retratam de forma honesta esse retrocesso exibido em “Babel”. O grande problema de se abordar a questão da guarda de Nate do modo escolhido é que as reviravoltas da história que compõem o segmento são bastante repetitivas, atingindo o ponto de nos questionarmos se Southland está fazendo graça de si mesma. Nos três episódios vistos até agora (com uma leve exceção do segundo, que termina fazendo um pouco mais do que os outros dois), Sammy expressa com as mesmas palavras e do mesmo modo sua insatisfação com a situação. Enquanto isso, Tammi tenta incriminá-lo de alguma forma para poder garantir a guarda do filho. A preguiça da trama atinge níveis sobrenaturais. O pior é que a progressão que está sendo tomada também deve nos levar a um retrocesso sem pagamento compensador no final, considerando que Sammy está desenvolvendo uma postura bastante antipática diante do público ao reprisar suas ações sem um pingo de consciência. Além disso, Ben apoia seu parceiro no final, reafirmando uma camaradagem que não é novidade e não tem elaboração suficiente para ter uma consequência dramática relevante em “Babel”.

A mudança da vida de Lydia é tratada de um modo especialmente secundário, o que é surpreendente considerando os eventos de semana passada. As investidas do roteiro de Southland na personagem são de uma inconsistência grande. A relação entre os casos da semana e seu comprometimento com o filho torna-se sutil e organizada (como no episódio passado) ou artificioso por soar como regressão, como aqui. A investigação da morte do último filho de uma mulher apresenta-se como um paralelo que não tem mais espaço depois de tudo que ela passou. Assim como a discussão com a mulher do pai da criança, que não tem preparação suficiente para ter um impacto mais profundo na personagem, limitando o poder da cena final.

Ao contrário do resto, Cooper tem um aprofundamento mais conciso como personagem, seguindo uma progressão que beneficia aquilo que a temporada vem construindo. Observe como ele passa por diferentes estágios em cada episódio da quinta temporada, arquitetando uma naturalidade ideal para a sobriedade da situação em que está. Sua adaptação ao mundo e recusa de um parceiro jovem é um reflexo da desilusão que o assombra, um caráter mais sombrio e reflexivo. A sintonia entre os elementos que envolvem o personagem estão em um nível incrível até mesmo para os padrões de Southland. Seu novo parceiro, Lucero, não oferece muito a narrativa, construindo apenas um elo entre a questão da comunicação pelo fato de ele trazer um ponto de vista diferente em relação a comunidade latina.

Entretanto, o aspecto mais chamativo de “Babel” é a quantidade de unidades de ação que são jogadas e que formam uma imagem incrível depois que assistimos o episódio e refletimos olhando por fora depois de sermos imersos em um dia comum da polícia de Los Angeles. É interessante que essa é a única característica da regressão do episódio que não é incômoda, mantendo-se de um jeito cru que é instigante de ver. Aliás, as cenas de peleja e conflito das abordagens nas ruas são belíssimas, culminando em um universo que pode ser visto como profundo mesmo a temática sendo tão simples. Não apenas isso, como também vê-se um humor de alto nível com a peculiaridade do caso das mulheres querendo destruir o pai de seus filhos, um momento em que a própria indiferença de Southland diante do caos cria essa atmosfera positiva para risadas. Isso é feito com uma calma que se adapta bem a episódio, que inicia-se com ares infantis para nos levar a um clímax ensurdecedor, um processo narrativo bem idealizado.

O ápice desse estilo é atingido com o tiroteio na escola que deveria ter encerrado “Babel”. O modo como tensão é manufaturada é mais diferente e atrativa para uma série que se vende por real, criando um clima tenebroso que faz muito a partir de uma situação que muitos dos personagens da série veem como cotidiana. Do ponto de vista temático, “Babel” está longe de alcançar os níveis de “Heat”, o que não é atingido pelo simples fato de o tempo ser investido para o desenvolvimento de segmentos que fazem pouco por personagens que não estão tão interessantes como em épocas anteriores. O potencial para a questão da comunicação era gigante, mas essa semana foi dedicada a Sammy gritando no celular.

“Babel” é incapaz de se destacar muito diante daquilo que conhecemos de Southland, sendo extremamente eficiente ao elaborar um ambiente para que a série volte a algumas características básicas que sempre são bem aceitas. O obstáculo que impede uma apreciação maior é a sua fixação manter-se estático diante da realidade de grande parte dos policiais que deveria homenagear.

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