Se você não se amar, quem vai?

Spoilers Abaixo:

Não é de hoje que grito aos quatro cantos sobre o meu amor por produções britânicas. Mas é fato praticamente inegável que as séries da terra da rainha, em sua maioria, mostram muita consistência, coerência e nenhuma enrolação (claro que  a quantidade mínima de episódios ajudam), mas a questão é que seja qual for a premissa a qualidade quase nunca é ponto de decepção para quem assiste.

My Mad Fat Diary não é exceção a essa regra. A nova série do canal E4 (com seis episódios na primeira temporada) é baseada nas histórias de Rae Earl, que manteve um diário sobre sua difícil vida como adolescente obesa no Reino Unido nos anos 90. Esse diário virou um livro e esse livro a série em questão.

Com muita eficiência a série consegue atingir o objetivo de ser uma gostosa história sobre aceitação e transição da fase adolescente para a fase adulta. Uma admirável qualidade em séries britânicas desse tipo é que elas não escondem como é o real comportamento de seus jovens, entre altos e baixos, sexo e drogas. Temos como exemplos mais atuais Skins, Fresh Meat, The Inbetweeners e até mesmo Misfits, todas com foco em um determinado grupo de jovens e suas peripécias. Esse foco nas disfuncionalidades, fazem com que séries teens britânicas se tornem mais acessíveis e verdadeiras ao contrário dos jovens mostrados em séries teens americanas, por exemplo, onde em sua maioria o foco sai da história e vai para a beleza física e popularidade do elenco.

Em My Mad Fat Diary, o ano é 1996 e acompanhamos Rae, uma adolescente de 16 anos, acima do peso lutando para, não somente se encontrar, como principalmente se aceitar. Encontramos Rae pela primeira vez quando ela está prestes a deixar o hospital psquiátrico, onde esteve por quatro meses. Ali já somos apresentados as várias inseguranças e neuras da protagonista e durante alguns episódios não sabemos de fato o porque Rae estava naquele hospital. Mas não é preciso ser gênio para saber que a série falará abertamente sobre bullying, famílias disfuncionais e jovens que estão fora do padrão de beleza aceitável pela sociedade, afinal a protagonista pesa 120 kg.

Fora do hospital, Rae aprenderá a se relacionar com os novos amigos: Archie (o bonitinho e gay), Finn (o bonitinho e ordinário), Chop (o louco da turma) e Izzy (a sonhadora) que foram apresentados a ela por Chloe (a bitch), que é sua amiga de infância com  quem Rae luta para se reconectar. Não podemos esquecer dos amigos que ficaram no hospital, Tix (uma jovem com aneroxia) e Danny “Two Hats” (que algumas vezes faz o papel de conselheiro amoroso de Rae).

Rae tem um relacionamento conturbado com sua mãe, por isso em muitos momentos ela se comporta de maneira egoísta. Conturbado também é o relacionamento entre Rae e seu psicólogo, com quem ela desenvolve um relacionamento de admiração e respeito e assim tornando-se nítida a  influência e evolução da personagem através das sessões de terapia. Os relacionamentos entre os personagens são bem desenvolvidos e Rae serve como ponto de conexão, já que vemos a história através de seu ponto de vista com a ajuda de seu diário.

O relacionamento entre Chloe e Rae é, ao meu ver, o mais interessante. Elas são amigas de infância que se distanciaram, Chloe bonita e popular, mas no fundo sente ciúmes da espontaneidade e até mesmo da certa liberdade em ser o que é , que Rae tem. Chloe é a bitch típica que esconde um mundo de inseguranças e medos. Em muitos momentos essas inseguranças fazem Chloe atacar diretamente a auto estima de Rae. Mas é interessante ver que independente de tudo isso, da mesquinharia e das briguinhas juvenis, as duas são amigas que se amam e se apoiarão.

O elenco está longe de ser um elenco a la CW, com jovens sarados e super atraentes. Mas nos aspectos que realmente interessam, como nos passar a verdade e profundidade dos dilemas enfrentados pelos personagens, não podemos discutir que eles cumprem seus papéis de uma forma que nunca será feito por nenhum elenco de séries teens da CW. O diálogo (para variar) é afiadíssimo, inteligente, leve e descontraído.

A trilha sonora é outro ponto forte da série, que se passa em 1996 e então abusa das músicas que marcaram a geração anos 90. Com Rae brava ouvimos Rage Against the Machine, com Rae apaixonada ouvimos Oasis e com Rae e seus amigos curtindo uma festa ouvimos Depeche Mode.

O interessante é que o roteiro não transforma Rae em uma coitada. Sim ela é gordinha com problemas psicológicos e mesmo assim tem o direito de amar, ser amada, fazer besteira, ser perdoada e no geral ser feliz. A realidade e naturalidade com que Rae sai do papel deixa bem mais fácil a nossa relação com a personagem.

Claramente o intuito de My Mad Fat Diary é mostrar os efeitos que os padrões da sociedade deixam na cabeça dos jovens, além de mostrar que ser diferente não é ser ruim. Que nossa vida é importante e significante mediante as diferenças que fazemos e pelas pessoas presentes em nossas vidas.

Deixo vocês com as sábias palavras de Rae e com o conhecimento que essa série, deliciosa, está renovada para uma segunda temporada.

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