Mostrando que carnaval se passa com a família.

Spoilers Abaixo:

Existe uma hierarquia interessante que “Kin” tão perfeitamente quer destruir utilizando técnicas diferentes. A conspiração envolvendo Drew Thompson se afunila e todos os personagens estão em uma posição desconfortável que aparenta não ter muito futuro. Na terceira temporada, era evidenciado quem estava dominando as ações, sendo que, nesse específico caso, o jogo de gato e rato era bem definido e o drama era retirado a partir das bagunças que aquelas pessoas faziam quando estavam em controle. Nessa quarta temporada, todos os personagens possuem uma minúscula quantidade de informação para poder trabalhar. Isso permite que determinadas coincidências cumpram as necessidades de twists que muitos membros do público possuem. Poucos acontecimentos explosivos realmente aconteceram até agora, mas a mensagem por traz da busca está relacionada mais a como Harlan é esse lugar onde toda a bagunça aparece com uma questão de tempo.

Mas, voltando a essa hierarquia: Raylan e Boyd estão claramente no topo dela quando observamos a progressão narrativa da história. Ambos ficaram afastados durante o início da temporada para realizar suas próprias conexões que os guiarão até o mesmo caminho. Essa ideia é inteligente por criar novas dinâmicas que desenvolverão consequências próprias (a situação de Shelby/Ellen May/Colt). O roteiro em nenhum momento da temporada cria uma sensação de superioridade para nenhuma das duas partes citadas, colocando eles mais como complementos do que inimigos, uma ideia que acompanha o inusitado confronto entre os dois.

Aliás, esse primeiro encontro está longe de ter as implicações que a relação entre os dois normalmente traz, mas é um adicional perfeito por exibir como as famílias Givens e Crowder estão profundamente enfiadas na merda. Essa questão familiar está presente com força em “Kin”, servindo como motivação e resolução para grande parte das problemáticas criadas aqui ao mesmo tempo em que ela divide espaço com outras questões que conseguem ser relevantes. Esse é um dos grandes trunfos do episódio, que sabe misturar diversos fatores que fazem dessa série interessante sem ser pretensioso. Ele é sutil ao ponto de fazer com que alguns elementos não tenham o impacto que mereciam, como o rápido retorno de Winona.

A conversa entre Raylan e ela serve para reforçar o porquê daquilo não acontecer repetidamente do ponto de vista dramático. O protagonista é um tremendo idiota em algumas questões sociais e a cena representa isso de uma forma forte, associando a questão familiar com a falta de tato em lidar com situações do tipo apresentada por Raylan. O fato de ele transferir o assunto da conversa para a sua vontade de ver o filho tendo orgulho de suas ações é o tipo de pensamento que justifica perfeitamente a ausência de Winona nesse momento de Justified.

Enquanto essa cena passa de forma direta um pensamento que se mantém no episódio, observa-se como a distante relação entre Raylan e a prima de sua mãe traz essa responsabilidade que familiares devem ter um pelos outros que retrata esse aspecto importante da série. “Kin” é um episódio que apresenta esses elementos de Harlan que a temporada atual vinha sendo colocada de forma secundária nos episódios anteriores. O outro episódio da temporada que também possui essa característica é a Season Premiere. Ambos possuem a presença de Bob, confirmando como ele encapsula todo esse lado mais interiorano de Justified. O desconforto dele quando Raylan fala sobre a indecente proposta que lhe é feita é um momento que mostra o quanto ele é relevante naquele contexto.

Assim como os personagens trazem de volta muitas questões comuns vistos anteriormente, a presença das colinas é outro ponto turístico de Justified que merece ser visitado, cheio de personagens que transitam na linha da idiotice e da sabedoria que torna a situação complicada de Raylan e Boyd algo muito mais divertido de ser visto. É nesse local que vemos a série se divertir de várias maneiras diferentes, desde a própria captura dos dois até a relação entre seus respectivos ajudantes, Tim e Colt, em uma cena particularmente bonita por utilizar o espaço como um elemento chave para separá-los para criar determinada tensão em relação ao encontro. Peter Werner faz isso dando uma atenção especial a planos abertos nas montanhas e priorizando a exibição das armas, algo que acontece não apenas nesse momento, como também quando Colt procura as imagens da câmera no posto e na reunião de Boyd e Duffy.

“Kin” é o mais sutil e importante episódio da temporada até agora, conseguindo estabelecer as relações que provavelmente se manterão até o fim do quarto ano da série com uma pitada de um tema essencial do universo da série: família.

Outras observações:

– A relação de Josiah e Roz é outra questão familiar do roteiro que segue a motivação do episódio ou eu estou muito conectado a mensagem que a série quis passar?

– Johnny quer bagunçar com a hierarquia natural de Justified. Leis da televisão dizem que ele não irá suceder com essa associação com Duffy.

– Por falar em Duffy, o personagem é de uma sobriedade incrível em “Kin”, conseguindo passar a imagem de que ele está em controle durante todas as suas cenas com seu semblante superior. A sua posição temporária de big bad da temporada enquanto os chefões não chegam é perfeita para aquilo que conhecemos do personagem, não tão alta ao ponto de apagar o fato de que ele apanhou muito na temporada passada e não tão baixa ao ponto de fazer com que ele seja uma peça importante do quebra-cabeça.

– Arlo retorna para comer na delegacia e a reação de Raylan para isso é impressionante. Uma série onde os personagens possuem grandes problemas com suas famílias tem a oportunidade perfeita para que as motivações sejam sinceras. Ora, Raylan apenas quer manter seu pai na cadeia o máximo que puder.

– Um dos aspectos mais interessantes da temporada está na caçada silenciosa pela cabeça de Boyd. Além de Johnny, Shelby se prepara para derrubá-lo e o apoio de Ellen May o coloca em uma posição de relevância que deve apenas aumentar com o passar do tempo e a relação do personagem com Duffy é muito delicada para ele fazer demandas. Lembram como uma das teclas em que mais bato está relacionada ao fato de parecer importante? Boyd deve ser quem se dará pior a partir disso e a reação causada por esses elementos é um dos momentos mais aguardados da temporada.

– Seguindo a linha de personagens invisíveis, Theo Tonin possui uma história interessante de introdução, sendo colocado como uma peça importante mesmo que isso signifique o desaparecimento do cidadão do FBI. Raylan terá que dizer “Kiss my ass!” para outra pessoa agora… e candidatos não faltam.

– Momento de parar para refletir: o que vocês estão achando da temporada? Ela se aproxima mais do nível lento e chato ou da posição metódica e misteriosa? Quão incrível é Timothy Olyphant ao utilizar o chapéu para diminuir a expressividade de seus olhos nos momentos em que seu personagem está com raiva e não pode expressá-la? Esse é o ano da série que permite com maior facilidade a presença de teorias. Quais são as de vocês? Aproveitem e passem pelos comentários antes de ir curtir o carnaval!

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