Adeus, LL.

Spoilers Abaixo:

Para nos despedirmos da série em grande estilo, teremos a participação especial nesse texto do homem conhecido por “Jack Donaghy do Série Maníacos”, Gabriel Oliveira.

André Fellipe da Silva: 30 Rock construiu uma temporada final que faz inveja a milhares de outras comédias marcantes, passando por todos os estágios de um processo de despedida necessários para desenvolver o tão requisitado sentimento de nostalgia que encerramentos devem conter. É ainda mais interessante com essa série porque podemos observar por sete anos algo extremamente voltado para si mesmo nos momentos de estabelecer as conexões entre seus personagens, deixando sua loucura de lado em raras ocasiões, o que faz com que os discursos emocionais do Series Finale sejam muito mais relevantes que o normal. A questão que podemos abordar primeiro é: como você acha que o modo escolhido pela série para encerrar sua passagem pela televisão colaborou para fazer o que provavelmente é a segunda melhor temporada da série (perdendo apenas para o seu segundo ano)?

Gabriel Oliveira: O grande acerto desta temporada de despedida de 30 Rock é o fato de saber trabalhar seus treze episódios de forma a não desperdiçar tempo com tramas sem sentido ou que servissem apenas para queimar episódios. Mais do que isso, a série soube criar com maestria uma espécie de ode a si mesma, passando por diversos aspectos da evolução de seus personagens tratando-os de forma honesta, como a transição de Kenneth ou a natureza do relacionamento entre Liz e Jack. E faz isso sem deixar de lado o humor que consagrou 30 Rock e a transformou em uma das comédias mais relevantes da história da televisão. Pelo contrário, o que vemos nesse sétimo ano é uma 30 Rock extremamente em forma, contando com uma Tina Fey inspiradíssima na concepção das piadas e em sua atuação. Some-se a isso o belíssimo trabalho de Alec Baldwin e é natural vermos que a série consegue encerrar sua vida muito por cima.

AFS: Essa questão da narrativa é um fator fundamental para entender como o episódio final é emocionante. A decisão de basicamente encerrar os grandes arcos da temporada em “A Goon’s Deed in a Weary World” é perfeita por render não apenas uma incrível meia hora de televisão, como também por permitir que todas as questões existenciais que o roteiro quer passar aqui sejam bastante naturais. Além disso, a ideia estabelecida no final de colocar o TGS apenas com objetivos cômicos sutilmente cria essa saudade da série, sendo feliz nas suas tentativas de humor ao explorar as relações entre os estranhos colegas de trabalho, com Lutz e sua vingança do almoço tornando-se uma ótima maneira de homenagear tanto o próprio personagem como aquela perturbada sala de roteiristas.

Mas, voltando para a presença de espírito de todos os personagens, podemos ver como todos eles ganham um momento especial a partir da lógica da série de evitá-los durante grande parte de sua jornada para apresentar esse elemento apenas em horas especiais. Ver Jack e sua busca pela felicidade é uma história não apenas condizente com o senso de finalidade, mostrando também uma 30 Rock sensível que subverte com características do personagem tanto para criar humor quanto para trazer essa mensagem doce de renovação na vida dele. Como você bem apontou, Alec Baldwin é essencial para isso, trazendo para sua interpretação uma mistura do Jack que conhecemos e aquele que está se esforçando para nos convencer de sua nova situação, uma mistura de sentimentos que dita o ritmo do episódio. Aliás, é possível afirmar até que o que vimos do personagem aqui seja mais relevante para a narrativa por proporcionar a Liz, através do rompimento entre os dois, um empurrão até a posição de desvantagem que a personagem de Tina Fey tem que enfrentar nos momentos finais. E, lógico, Jack nunca deixaria de ser engraçado ao buscar a felicidade do modo mais absurdo possível, uma ideia inteligente para que o roteiro solte discursos aleatórios e condizentes (Hogcock!) e homenageie as participações anteriores de Salma Hayek e Julianne Moore.

GO: Exato. Todo o discurso que o personagem incorpora é fundamental para que a história da série se finalize. Mais do que isso, é curioso vê-lo, no final, exatamente na posição que sonhara no princípio de 30 Rock, dentro da GE. Aliás, todas as homenagens propostas pelo roteiro que você mencionou são precisas, permitindo que todos eles atravessem suas características mais marcantes. Por exemplo, Pete perdeu muito de sua importância ao longo dos anos, mas aqui é explorado de forma fantástica, fazendo com que o espectador se lembre de todas as suas angústias com sua esposa e criando um plot que faz completo sentido dentro do universo naturalmente absurdo da série.  Não me lembro do personagem recebendo tantas boas piadas em um longo tempo.

Até mesmo Jenna se sobressai exatamente por ser ela mesma. Toda a odisseia dela para ser notada, indo a Los Angeles e retornando em um curtíssimo espaço de tempo soa como música para a personagem, sempre sedenta por atenção. Aliás, é curioso como em grande parte das vezes em que ela é ignorada, Cerie aparece ao fundo fazendo qualquer atividade aleatória, desviando nosso olhar para ela e nos obrigando a também ignorar Jenna, em uma inusitada sacada do episódio colocando a nêmesis da atriz sempre em seu caminho.

AFS: É incrível como todos os segmentos do episódio passam o mesmo sentimento utilizando pessoas tão diferentes, com cada uma mostrando o que o TGS significa para ela do seu jeito particular. Diante do fato de que todos os personagens ganham ocasiões especiais, é fascinante ver a homenagem ao espelho do camarim de Jenna, desenvolvendo uma cadeia de epifanias que acompanha de forma elegante o diálogo entre Liz e Jack nos momentos finais. Mesmo possuindo inúmeros prêmios e elogios, ainda considero Jane Krakowski subestimada por seu trabalho na série, sendo um exemplo de sua genialidade a capacidade de utilizar o choro de sua personagem como um traço que se sustenta durante todo o resto do episódio após o descobrimento de que ela sentirá falta de si própria.

Tracy também acompanha essa lógica para criar tanto uma carga emocional forte como um exemplo de como fazer comédia de alta qualidade. A história dele nos dois episódios encapsula todo o significado de um Series Finale: mostrar o quanto aquela pessoa aprendeu depois de tanto tempo (como visto na sua relação com Kenneth), fazer uma rima com o primeiro episódio (a cena no strip club, que ganha ar muito mais sentimental do que o normal e torna-se o que provavelmente é o melhor momento Tracy/Liz da série), ser puramente engraçado e trazer um senso de urgência para a história (o seu atraso com as motivações tão favoráveis para o desenvolvimento da narrativa que é impossível não rir das suas atitudes como a mudança no jornal).

GO: E, no fundo, Tracy é o fiel da balança de 30 Rock. É a chegada dele no piloto que movimenta todas as peças, inclusive trazendo Kenneth para esse universo. Aliás, é curioso vê-lo como presidente da NBC, além da cena final da série, que evidencia exatamente o símbolo que o personagem representa. Afinal, ele nada mais é que a personificação do universo que 30 Rock tanto homenageia: a televisão. Assim, quando ele, em mais um dos inúmeros exercícios de metalinguagem propostos pela série (o crédito de encerramento que divide os episódios é genial), aceita produzir a mesma obra que acaba de ser concluída, o roteiro se encerra com uma auto-homenagem que, se poderia soar prepotente, acaba gerando um incrível ciclo que acaba por passar ao espectador a mensagem que, na televisão, tudo é infinito.

Mas se Tracy é o responsável pelo que Kenneth aprende ao longo dos anos, é ele quem aproxima Liz Lemon de Jack Donaghy. E é essa relação que transporta todo o conteúdo de 30 Rock, evitando cair no clichê de uni-los romanticamente em momento algum, apenas utilizando-os como epicentros de uma avalanche de humor provocada por um roteiro inspirado e dois atores talentosos. E é curioso como a simbiose entre os dois se conclui no momento em que eles se despedem, cientes de que fizeram um pelo outro tudo que poderiam fazer, com direito a um fervoroso e inesquecível “Good God, Lemon!” final.

AFS: Liz e Jack… Ah, que dupla! A colocação dos dois em um contexto que é tanto necessário como doloroso é perfeita para esse processo de união, sendo que esse rompimento breve da amizade propicia a linda cena do barco, reflexo tão simples de uma série que cria grandes momentos de um modo completamente diferente, o que faz dessa cena algo ainda mais especial. O mistério sobre o paradeiro de Jack traz também a leve suspensão de descrença que finais devem ter quando tratam do futuro dos personagens, com o roteiro sempre mantendo a dúvida se ele irá seguir em frente para trazer de volta com força total a dupla em uma forma primorosa. A única queixa que podemos realizar sobre a cena é a infelicidade da Liz ao contar o final de Mad Men.

Entretanto, isso não seria uma análise de Series Finale se não fosse pela pergunta de sempre: o final valeu a pena? Bem, depois de tudo que falamos a resposta deve ser óbvia, mas a emoção de um desfecho sempre abre a porta para um pouco de sentimentalismo…

GO: E como valeu! 30 Rock pode ter passado por um momento de intensa instabilidade em suas quinta e sexta temporadas, mas soube conduzir seu final com um brilhantismo raramente visto em séries de qualquer gênero. Cada um dos onze episódios propostos antes deste Series Finale tem sua função, levando a esse momento apoteótico que consagra uma das grandes produções do gênero, que inova o jeito de fazer televisão através de sua intensa metalinguagem e do humor seco, direto, que torna situações absurdas absolutamente críveis dentro de seu universo. E, mais do que isso, 30 Rock se mostrou capaz de emocionar seu espectador sem cair na pieguice de abusar de auto-homenagens, trazendo lágrimas simplesmente por compreender a importância de seus personagens e sendo sensível quanto a isso, algo que a série raramente teve a intenção de fazer. E é sabendo se reinventar que uma produção se torna uma das maiores, algo que 30 Rock definitivamente é.

AFS: Bem, depois de uma longa jornada, é triste ver 30 Rock se despedir. Existem momentos que não serão lembrados por sua imensa qualidade? Particularmente, acredito que sim. Mesmo com isso, essa série é um dos casos perfeitos do tipo de programa que quando acerta, acerta com uma brutalidade incrível, faturando cenas que ficarão marcadas para sempre graças ao modo como Tina Fey e sua equipe abordaram o complicado universo televisivo, um contraste que “Hogcock!” e “Last Lunch” representa de modo especial, criando até nos personagens mais egoístas essa melancolia que o afastamento proporciona.

Foi uma experiência ótima passar sete temporadas com você, 30 Rock! Agora apenas podemos esperar que Tina Fey arranje um lugar em Parks and Recreation…

Observações finais:

– AFS: É incrível como esse final é engraçado, provavelmente um dos melhores da série no quesito. A relação de Criss e Liz é perfeitamente abordada por ter uma função extremamente cômica, considerando que a resolução para essa trama foi encerrada no episódio passado, e por disparar a primeira epifania do final, sendo especialmente divertida a troca de mensagens comentando a relação entre maternidade e trabalho. Por falar nos casos amorosos de Liz, a súbita piada sobre seu relacionamento com Conan é um ótimo exemplo de como a série é capaz de utilizar a estrutura de flashbacks.

– GO: E 30 Rock não poderia encerrar sem citar sua melhor piada. O Rural Juror, sempre impronunciável, provoca sonoras risadas em sua menor menção. E por ser tão específica, e tão identificada com a série, se torna impossível não relembrar tudo que passamos desde a primeira menção do filme de Jenna até essa retomada.

 – AFS: O modo como 30 Rock simboliza a televisão também é passada nos pequenos detalhes, como Liz abordando a questão de como séries da tevê fechada normalmente são muito mais cuidadosas ao deixarem que os diálogos tenham seus efeitos desejados. Uma piada ainda mais divertida por causa da inteligente montagem, que corta a cena rapidamente ironizando seu discurso.

– AFS: Kenneth provavelmente seria um melhor presidente para a NBC do que o Robert Greenblatt. Tipo, ele deu sinal verde para uma série com Dot com e Grizz!

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