“Não é a mamãe!”

“Família Dinossauros” (Dinosaurs) foi uma série voltada ao público infantil, mas com uma crítica ácida e bem-humorada sobre o estilo de vida americano, satirizando os costumes daquela classe média. Produzida pela Disney e transmitida pela ABC, estreou em abril de 1991 e, 56 episódios divididos em quatro temporadas depois, terminou em julho de 1994.

A série contava a história da família Silva Sauro (Sinclair, no original), uma família de dinossauros que vivia num planeta Terra onde eles eram os inteligentes e nós, humanos, meros homens da caverna. Aqui no Brasil a série passou pela Globo (Xou da Xuxa, TV Colosso), pelo Sbt, e hoje é exibida pela Band (aos sábados, às 13h).

Dino (Earl) era um megalossauro de 43 anos e chefe da família. Trabalhava para o Sr. Richfield derrubando árvores, tinha medo de pedir aumento, e sempre entrava em casa com o icônico “Querida, cheguei!”. Gordo e preguiçoso, Dino não tratava muito bem sua família quando estava de saco cheio. Mas era também muito alegre e amava todos eles, e sempre perguntava a seu filho mais novo se ele gostava do papai.

Fran era sua esposa, e era ela quem realmente comandava a casa. Era uma alossauro de 38 anos, e passava todo o tempo dentro do lar. Em alguns episódios recebia sua melhor amiga Mônica, uma apatossauro independente e divorciada que só mostrava o pescoção janela adentro. Essa amiga influenciava Fran na luta por direitos femininos, coisa que tirava Dino do sério.

Bob era o filho mais velho, um hipsilofodonte de 14 anos, que vestia uma jaqueta vermelha e único a usar calçados na série. Apesar de seu visual radical e rebelde, Bob era muito inteligente, e se ligava em causas sociais, o que o leva, entre outras coisas, a se tornar vegetariano. Seu melhor amigo, Carlão (Spike), era um malandro que sempre estava comendo algo na cozinha da família, ou botando Bob em enrascadas.

Charlene era a filha do meio, uma protocerátope de 12 anos, meio fútil e muito ligada em moda. Materialista, Charlene não ligava para as causa sociais do irmão, e curtia mesmo paquerar rapazes no shopping. Brigava constantemente com Bob, além de invejar todo o amor recebido pelo irmão mais novo. Queria ser a mais popular da escola.

Baby era o mais novo, e nasceu no piloto da série. Esse megalossauro era, apesar de novo, cheio de adjetivos. Além de carismático, era também muito sádico e pentelho quando queria. Amava a mãe incondicionalmente, e adorava programa infantis. Endiabrado, adorava bater na cabeça de Dino com uma frigideira, e fazer travessuras com seus irmãos. Dono dos icônicos “De novo!”, “Não é a mamãe!”, e “Eu sou o Baby, você precisa me amar!”.

Além do quinteto, a casa ainda abrigou Vovó Zilda, mãe de Fran, uma edmontonia de 72 anos, que adorava cuidar dos netos, mas também de infernizar seu genro, até que o espírito de seu falecido marido conta que no céu todos se parecem com o Dino.

Há também o Sr. Richfield, dono da companhia Wesayso (algo como “faça o que mandamos”) onde Dino trabalha. Esse tricerátopo de 42 anos era tirano, e protegia sua filha usando seus namorados como refeição.

Roy Hess, um tiranossauro rex, que trabalhava com seu melhor amigo Dino, e era um solteirão abobalhado, apaixonado por Mônica, mas que teve, no passado, um caso com Dina, irmã cantora de Dino.

No início, um acordo feito determinou que a Disney financiaria a série e escalaria produtores, e a Jim Henson Productions (dos Muppets) criaria os bonecos e cenários. Henson morreu em 1990, mas sua família decidiu manter o acordo, que nunca chegou a ser assinado por ele.

O investimento era alto, variando de 1 a 1,5 milhão de dólares por episódio, mas algo aceitável para a Disney. O presidente da empresa tinha a certeza de que o lucro viria também com a venda de produtos licenciados. Ele acertou.

Assim como “Punky”, o sucesso dessa família extrapolou as telas da tv, e dezenas de produtos foram lançados: camisetas, álbuns de figurinhas, discos, mochilas, chaveiros, doces e chicletes. Já o boneco Baby, que falava e era caro “pra burro”, foi campeão de vendas na época. Qualquer um de vocês que era criança na época, teve pelo menos alguma coisa com a cara dessa família estampada.

A série só se tornou realidade porque Jenson (antes de morrer, é claro) já havia criado um projeto similar, conhecido como “Tartarugas Ninja”. Cada boneco era um animatrônico, ou seja, uma tecnologia que misturava atores e movimentos eletrônicos. Jenson havia criado um sistema que permitia entre 30 e 50 movimentos faciais em cada personagem, criando assim um visual perfeito.

O ator ficava dentro da fantasia, movimentando os membros do personagem, enquanto um técnico movimentava o rosto dos bonecos eletronicamente, através de luvas mecânicas. Aquilo fascinou o público logo de cara, e muitas crianças, na época, achavam que aquilo tudo era computação gráfica.

O ator que vestia a fantasia do Dino contou em uma entrevista que só conseguia enxergar o exterior quando a boca do boneco estava aberta. Por isso, quando Dino se mexia e parecia que estava puxando um pouco de ar para si, na verdade era o ator que precisava enxergar.

Um detalhe muito curioso da série era o fato da família gostar de televisão. Assim, muitos programas e emissoras da tv americana foram parodiados, com um apelo maior ao público jurássico, como DNN (CNN), DSPN (ESPN), DSN (HSN, um canal de compras) e DTV (MTV), botando a palavra “dinossauro” em tudo o que era possível, e programas como Good Morning Pangea (Good Morning America), House Full of Dads (Três é Demais, mas aqui é uma garota e seus doze pais), Pangea Hills Dino210 (Beverly Hills 901210), e George, programa infantil de um hipopótamo laranja, clara alusão ao dinossauro roxo Barney.

Em um dos episódios que eu mais lembro, Dino chega em casa todo estressado e destrói a fita do programa do George. Para se redimir com Baby, acaba se vestindo de hipopótamo e, no final, acaba indo preso porque o verdadeiro George  era procurado da polícia.

Além dos Simpsons, a série também brincou com Jurassic Park. Em um dos episódios a família se perde no Vale dos Monstros, e o andar de um monstro é traduzido no tremer do líquido de um copo que está dentro do carro da família. Teve também um episódio inspirado no filme “O Exorcista”.

A série ainda brincou com sua maior concorrente, no episódio em que Vovó Zilda quase morre, e é convidada a participar num programa de mistérios não solucionados (como era o concorrente), e ela pergunta como eles encontram tantos mistérios. O apresentador então fala que na verdade são só quatro, mas que eles repetem incessantemente, e ficam felizes pelo público não descobrir isso. Enquanto isso, Dino e Fran estão assistindo ao programa, e Dino pede para ver o programa de bonecos do outro canal, mas Fran diz que é para crianças e que não duraria mais de um ano. Sensacional.

Além de todas as paródias possíveis, “Família Dinossauros” abordou temas como sexo, drogas, morte, racismo, masturbação, assédio sexual, homossexualidade, direitos civis, animais ameaçados de extinção, entre outros, com muitas metáforas e bom humor. Num dos episódios Dino e seus filhos experimentam uma planta que causa alucinações.

Em outro episódio, Vovó Zilda é levada ao alto de um penhasco para ser jogada lá do alto. Era um costume da sociedade (acabar com os mais velhos), mas seu neto Bob não deixa ela cair. Ele e seu pai discutem, e ele diz que não jogará Dino quando ele estiver velho. E que não é por uma idade avançada que ele deixará de ser seu pai. Tudo isso foi uma crítica a sociedade ocidental, por não tratar bem seus idosos, doentes, deficientes e crianças indesejadas, questionando o que é real e justo nas crenças da humanidade.

Mas de todos os episódio aqui lembrados, e de todos os outros (como aquele em que eles vão à guerra pelas árvores de pistache, ou aquele também em que Fran vira conselheira num programa de tv, ou um outro em que Baby vira rei após um chifre dourado nascer em sua cabeça, ou ainda outro em que Bob não consegue uivar), nenhum é tão falado quanto o series finale. Mas afinal, por que tantos comentários? Porque a série sempre foi um programa infantil, mas terminou sua história de sucesso com um episódio censurado em vários países.

Ele começa com todos os dinos aguardando a chegada da nuvem de besouros. Mas só um deles aparece, e Charlene constata que o pântano, local do acasalamento deles, não existe mais porque uma fábrica de creme de frutas foi construída no local. A partir daí a gente descobre o que aconteceu porque Dino começa a dizer o que ele e sua empresa fizeram.

Primeiro eles mataram todos os besouros, depois eles usaram um veneno para matar uma certa planta, que era alimento desse besouro, mas o veneno acaba matando todas as plantas do planeta. Eles então decidem fazer chuva, mas acabam criando espessas nuvens de ácido sulfúrico, o que impede a chegada dos raios solares.

A era do gelo tem início, e Dino pede desculpas ao filho por ele não ter mais um planeta para crescer e se desenvolver. A última cena mostra o apresentador do jornal falando que não há nenhuma boa previsão, e termina a série com um simples, porém pesado, “Adeus”.

Por muitas semanas, a série esteve sempre entre os 10 programas mais assistidos da TV. A série foi então jogada para as sexta-feiras, logo após o sucesso “Três é Demais”. O resultado foi que ela continuou em primeiro lugar entre as crianças de 2 a 11 anos, mas perdeu o resto do público, e terminou sua última semana na 43º posição do ranking. A série até estava planejando um filme, mas foi cancelado devido à baixa audiência de seu último ano.

“Família Dinossauros” marcou nossas vidas por trazer um conjunto de características único na programação da televisão. Uma abertura memorável, bordões inesquecíveis, dinossauros cativantes, e muita confusão.

Mas de todos os personagens apresentados, da pescoçuda aos que moravam na geladeira da família, passando pelas refeições vivas e pela própria família, não há como não botar Baby numa posição acima. Odiado e amado, malvado e carinhoso, pilantra e engraçado. Baby foi febre na época, e até hoje está no hall de personagens inesquecíveis. Inveja de quem teve, e ainda tem, um boneco dele.

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