
“Amor é fogo que arde sem se ver”, diria Camões. Mas a gente tem visto, e muito.
Spoilers Abaixo:
Ok, vá lá. O amor está presente como protagonista em narrativas desde sempre, inclusive em algumas ficções clássicas. De “Lolita”, com um quê de perversão, a “1984” (onde o sentimento em si é coadjuvante, mas tem relevância para o desenrolar dos fatos), passando por outras tantas obras literárias ou não, o amor dá as caras como força motriz para acontecimentos relevantes. Em outros casos, como em “Anna Karenina” ou “Madame Bovary”, é a ausência dele, talvez até numa conotação mais carnal, que permeia as ações das personagens-título. Até na Bíblia o amor de Jesus pela humanidade norteia o caminho trilhado pelo filho de Deus.
Isto posto, convenhamos: também não precisa abusar, ora. Qualquer recurso, se banalizado, corre o risco de ficar com cara de muleta narrativa. Nos últimos tempos, falando especificamente das séries de TV (afinal, é por isso que estamos aqui), o tal do amor, em vez de enriquecer uma trama ou torná-la mais complexa, virou cada vez mais uma desculpa para resolver qualquer problema. Em maior ou menor grau, com mais ou menos competência, não é difícil perceber que essas coisas do coração são, hoje, uma verdadeira febre na telinha. Um roteirista pensa: preciso ligar o ponto A da história ao ponto B. Como fazê-lo? Basta que dois personagens se amem e queiram por demais da conta ficar juntos… E pronto, o resto é detalhe! Parece exagero? Pois vamos, então, a alguns exemplos concretos.
Que fã de Dexter ainda não leu ou ouviu alguém dizer que esta sétima temporada – escrevo antes de assistir ao 12º episódio, vale frisar – é sobre o (tchãram!) amor? Tudo passa por isso, desde o gancho do season finale anterior, quando Debra só vai à Igreja porque quer se declarar. Mas peraí: em que momento ela começou a gostar do irmão? Era algo sinalizado desde o início da série? Não, decerto que não. Jogaram isso de supetão num dado momento da sexta temporada, só para criar pontos de tensão e justificar atitudes posteriores da tenente.
Dexter, por sua vez, não fica atrás… Insistem em nos mostrar que os sentimentos dele por Hannah são únicos, algo que o serial killer experimenta pela primeira vez. Será mesmo? Por que, então, a morte de Rita (esqueçamos Lila e Lúmen) o abalou tanto? Não foi depois dela que, num banheiro meio sujo, o assassino joga seu prezado código para escanteio e mata simplesmente por matar? O ineditismo do amor por Hannah, assim como o de Debra por Dexter, não têm coerência com o que acompanhamos por seis anos a fio, mas servem ao propósito de, por exemplo, levar à (interessante, a meu ver) epifania do protagonista sobre a não-existência do Dark Passenger. Desculpa, gente, mas não dava para chegar até aí por um caminho menos empurrado goela abaixo?
Vale lembrar que, ainda em Dexter, até os coadjuvantes decidiram seguir o mesmo rumo. Isaak Sirko, um vilão que pintou como um badass muito do foda, acabou agindo, do início ao fim, pura e simplesmente por amor a Viktor. Para ser sincero, nem desgostei tanto do plot em questão, mas é impossível não preferir uma motivação mais original. E o que falar de Quinn, jogando tudo para o alto (e servindo de estopim para a morte do próprio Isaak) porque decidiram, de repente, que ele deveria cair de amores por uma stripper? O pior é que, neste último caso, a série sequer se deu o trabalho de construir o arcabouço para um sentimento que, de tão forte, levou o policial a embargar a investigação sobre o assassinato de um companheiro de farda. É como se dissessem, sem a menor sutileza: “Ó, agora o mala do Quinn ama essa gostosinha, e vai fazer de tudo por ela. Não gostou? Foda-se”.
Se em Dexter o ato de apelar para o amor é apenas mais um símbolo da decadência da série, até em produções de rara excelência, como Hunted e Homeland, o tema andou se sobressaindo. Na série inglesa, a gente descobre, já no season finale, que a base de toda a motivação do implacável Jack Turner era, pasmem!, o amor pelo filho morto (e o consequente desejo de vingá-lo). Precisava mesmo disso? Pra que calçar um excelente personagem com um argumento tão clichê – e, neste caso, absolutamente desnecessário?
Em Homeland (também ainda não vi o season finale, repito), trocou-se a dubiedade dos dois protagonistas por… Amor puro e verdadeiro. Tanto que Carrie, de agente dedicada (e insubordinada, é verdade), chega ao ponto de acobertar a morte do vice-presidente dos Estados Unidos (!!!) só para proteger Brody. O deputado, por sua vez, deixou de ser um ex-torturado dividido, que já vestiu até um colete explosivo, para se transformar num simulacro de si mesmo, motivado apenas por seus sentimentos por Carrie. Isso não torna Homeland (ou Hunted) ruim, longe disso. Mas apenas porque, como eu disse lá no início, o óbvio pode ser trabalhado com mais ou menos competência.
Já Fringe – uma ótima ficção científica, com rara primazia na construção de uma mitologia toda própria -, virou, justo na reta final… Cada vez mais “uma série sobre amor” (alô, Camis Barbieri!) Vejam bem, a cena entre Olivia e Peter na ponte, no oitavo episódio, não me incomoda se analisada isoladamente. Ao contrário: até me emocionei, mesmo porque a trajetória do casal nos acompanha desde o início da série, não há nenhuma tentativa de ludibriar o espectador com uma paixonite repentina. É inegável, contudo, que a overdose do tema volta a arregaçar as mangas por aqui.
Se em Fringe o romance veio sendo amadurecido ao longo de cinco coerentes temporadas, também há as séries que apelam para a paixão antes mesmo que o público possa se importar com os personagens. Vejamos o caso de Last Resort, por exemplo: levou apenas nove episódios para a já cancelada trama de conspiração colocar o amor em primeiríssimo plano num momento decisivo (afinal, os rumos da história seriam bem diferentes se a esposa de Sam morresse baleada). E, novamente, presenciamos uma construção pobre, que não nos faz acreditar no poder do sentimento de Paul por Christine… Até o terceiro (ou segundo, não lembro) episódio, os dois sequer se conheciam. Agora, algumas semanas depois, o advogado está disposto a arriscar a própria vida por ela? Fica difícil de acreditar.
Em The Walking Dead, toda a trama central da última temporada, entre Rick, Shane e Lori, girou em torno de amores mal resolvidos – culminando com a morte de Shane. Na terceira temporada, além dos sentimentos e conflitos do próprio Rick, é o amor de Maggie por Gleen que a faz ceder à pressão do Governador (nem a ameaça de estupro teve efeito semelhante!). Falando no Governador, não duvido que a relação com Andrea também será fator determinante para algum acontecimento relevante pós-hiato.
Apenas para não passar batido, tendo em vista que ainda não assisti aos quatro últimos episódios da terceira temporada (ando um tanto quanto cansado da série), fica a menção a Boardwalk Empire. Parei exatamente na cena em que, a mando de Gyp, o teatro explode e mata (ao que tudo indica) Billie. Ou seja, até o quase sempre pragmático Nick Thompson deve sucumbir à moda e deixar o amor pela atriz (mesmo que somado a outros fatores) influenciar numa jornada de vingança.
O fato é que, concluindo, eu aceito o excesso de melodrama quando assisto, sei lá, Scandal, da supernovelesca Shonda Rimes. Sei que, a todo o momento, o amor eterno amor entre Olivia e o presidente vai estar ali, pairando no ar e afetando o rumo da história. É tão pobre quanto o resto, claro, mas pelo menos é honesto: esperamos isso, e é isso que ganhamos. Mas é realmente necessário que séries das mais variadas (a vida de um serial killer, histórias de espionagem, ficção científica, conspiração geopolítica, apocalipse zumbi, drama de época, etc) optem, quase sempre, por caminhos tão parecidos?
O amor, sem dúvida alguma, já cansou de movimentar o mundo real. O problema é que ele não está sozinho: raiva, desprezo, frustração, cobiça, pena, euforia, amargura, ousadia, culpa, ansiedade, revolta, avareza, covardia, idealismo, etc etc etc… Enfim, tudo isso (e muito mais), com o tempero correto, também pode virar um excelente catalizador. É só uma questão de ter criatividade.
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Como os mais assíduos podem ter reparado, essa é a minha primeira contribuição para o excelente time do Série Maníacos. Gostou? Achou um lixo? Tem sugestões sobre onde pode melhorar? Dá um toque aí nos comentários, e quem sabe a gente não se esbarra de novo daqui pra frente! 😀





















