Nada melhor que um críquete para finalizar.

Spoilers Abaixo:

A principal crítica a esse ano de Downton Abbey foi relativa às dificuldades na construção de uma narrativa sóbria. Apesar dos pesares, a temporada conseguiu caminhar e ir se encontrando, culminando com esse último episódio que consegue fechar as inúmeras histórias ao seu redor de forma elegante.

O episódio tem como principal objetivo encerrar as tramas que foram jogadas na temporada. Se a execução incorreu em alguns problemas, parecendo em alguns momentos estática, a forma como se concluiu tudo foi sóbria e condizente com aquilo que era pedido pelas peculiaridades de cada uma das narrativas. Apesar da longa extensão, em nenhum momento é sentido pelo espectador que determinado personagem apresenta um tempo excessivo de tela, sendo um bom indicativo que o episódio obteve sucesso.

O uso da partida de críquete foi uma maneira bem executada de se inserir uma trama aparentemente tola, mas que ao final tem uma importância maior do que deveria. Isto acontece porque o jogo não é apenas uma diversão descompromissada como a princípio pode parecer, mas uma das poucas formas de Robert continuar certa soberania dentro da casa. Com uma sequência de sucessivas derrotas durante todo o período aqui relatado, é sintomático que o mundo esteja mudando rápido demais para alguém ainda fundada na ética aristocrática. A conversa dele com Branson, portanto, consegue ser bem honesta em relação a tudo o que se passa, fazendo o outrora líder assumir que a sua melhor função no momento é a de servir como um elo entre o aprimoramento técnico pretendido pelos seus genros e a população que jurou zelar.  A vitória no final simboliza um renascer para o Conde, com o uso de um time meticulosamente montado por ter conseguido lidar com as situações postas à sua frente da melhor maneira.

Se o ano anterior foi de Michelle Dockery, o grande objetivo desta temporada era evidenciar a atuação de Hugh Bonneville. Durante muitos episódios, o ator falhou ao não conseguir jogar uma camada ao personagem, mas durante este final sua performance é nada menos do que impecável. Percebam como seu olhar no início aparenta estar cansado e enraivecido, ao passo que relaxa e curte o lazer com a família no fim como se um peso fosse retirado dos seus ombros. Dan Stevens é outro destaque por ter conseguido construir paulatinamente toda a imagem de renovação da nobreza, tendo como ponto forte seu inegável carisma que se mistura com a sabedoria do personagem (a grande bússola moral da série).

A trama dos servos, por outro lado, consegue ser fiel a tudo aquilo que foi trabalhado durante os últimos episódios. Thomas aqui surge como um meio termo adequado entre aquele ser apresentado durante boa parte da série e o homem frágil dos últimos episódios, usando sua situação para sensibilizar aqueles que o viam com desavenças para o ajudar. Olhando em retrospectiva, o episódio funcionaria como uma perfeita despedida, mostrando a sua evolução nas últimas semanas e a combinando com a sua sagacidade para conseguir um emprego justo. Entretanto, o rumo tomado também é honesto por conter uma forte dose de ironia dramática, mesmo envolvida pelo clima leve do episódio, ao mostrar um desfecho que em nada agrada a Bates (principal motor da reviravolta). Será que, a partir do ocorrido, Barrow aprenderá uma lição e passará a ter uma postura melhor diante dos colegas? Dificilmente, mas essa jornada consegue valer por si só ao tê-lo colocado em uma posição inesperada. Agora caberá a nós o aguentarmos como o vice-mordomo (perdoem-me caso tenha trocado o nome do título).

Para Ethel, a coisa foi mais simples possível. Em certa medida, sua trama aparentava estar estagnada há duas temporadas, e nem a mensagem sobre o preconceito vigente na época conseguiu funcionar muito bem. Tudo foi resolvido sem burocracia e de uma forma honesta por Violet que, mesmo pelos motivos errados, conseguiu finalmente unir a mãe com o filho. Que sejam felizes para sempre e mais ainda o espectador que não terá mais que presenciar o pior personagem da história de Downton Abbey em cena mais.

Quanto a Edith, a trama por pouco não caiu em um problema. Quando digo isto, é pela frágil introdução de Rose e todo o seu arco tão previsível e corrido, cujo único objetivo é estabelecer um claro paralelo com a situação da prima. Como resultado, por mais que a cena da casa noturna consiga ser divertida, gera uma previsão sobre o estado civil do jornalista. Entretanto, tudo isto é subvertido pela forma como utilizam o arco, expondo uma fragilidade de Gregson e mostrando que este pode vir a conduzir uma boa química com a garota. Infelizmente, esta parte do episódio funciona mais como uma expectativa do que poderá vir na próxima temporada, o que não o impede de funcionar.

Por último, mas não menos importante, o tratamento para gravidez de Mary, algo que poderia ser dispensável, é correto por ter durante toda a temporada surgido nas entrelinhas. Em vez de optar por um arco de suspense sobre o assunto, o que seria por definição difícil de estabelecer com eficiência, a sutileza ao lidar com tudo acabou por funcionar. Evidentemente, quando Matthew entra no médico já é previsto todo o resto da sequência, mas este é um caso onde a previsibilidade não se configura como um problema.

Arrumando a casa para a próxima temporada, Downton Abbey finalmente consegue se reconstruir e estabelecer um claro foco narrativo para o seu próximo ano. Não é a toa que, pela primeira vez, a série encerre um ano com o que pode ser chamado de final feliz. Afinal, é uma felicidade que serve como um sinal de alívio para qualquer fã da série. Resta agora manter os pés no chão e mostrar que aprendeu a lição: O seu universo não precisa de reviravoltas surpreendentes para funcionar, mas apenas histórias simples e honestas.

Outras considerações:

-Para não perder o costume, o castigo de Violet para Rose pareceu algo gratuito e apenas uma oportunidade de vermos Maggie Smith em boa forma.

-A beleza da Rose quase me fez esquecer-se da nossa musa Sybil. Quase.

-Alguém tinha dúvidas que o Molesley iria decepcionar jogando? Desde quando um alívio cômico tem a oportunidade de brilhar em campo?

-Adoro como Downton Abbey resolveu todo o conflito de quem é o First Footman de forma bem simples. Um decreto de Robert e acabou todo o drama. Ponto final.

-A reação do Matthew ao entrar no clube está entre os momentos mais engraçados da temporada.

-Carson e Mrs. Hughes mereciam uma série em que interpretam um casal de velhinhos. Só dizendo.

-E mais uma temporada chega ao fim. Ao final, apesar de todas as críticas, não posso deixar de considerar um bom ano. O grande problema é que grandes momentos como a morte de Sybil, o casamento de Mary e Matthew ou esse final acabaram dividindo o espaço com episódios pouco fluidos. Talvez o grande obstáculo da série tenha sido seu teoricamente maior trunfo em relação a suas conterrâneas: O número de episódios.

-Agora só voltamos a operar no Natal. Com complicações na renovação por parte de alguns atores (entre eles Maggie Smith e Dan Stevens), não se sabe ao certo se a série entregará apenas um episódio natalino para impulsionar a temporada ou teremos o derradeiro final. Aconteça o que acontecer, estarei aqui para dar meu veredito. E gostaria também de dar meu agradecimento a todos vocês que, mesmo tendo que ver constantes críticas a uma série amada, não desanimaram e continuaram sempre aqui lendo e discutindo. Nos vemos por aí!

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