
New Orleans precisa da nação ou a nação precisa de New Orleans?
Treme em seu cerne é a série com o maior nível de acerto no quesito “passar uma determinada mensagem através da televisão” atualmente. Tudo que ela faz acaba atingindo você de certa forma, que todos os eventos e as consequências do desastre ocasionado pelo furacão Katrina, transportam-se para um diferente ângulo de visão que David Simon e companhia estão mostrando (ou melhor, escancarando), desde o piloto da série. Treme é construída a partir da estranha, porém, simples maneira que a mesma trata o conceito de felicidade e como os personagens a buscam depois do que aconteceu com sua amada cidade no ano de 2005.
É louvável o acerto de Simon ao mostrar o quanto aquele enorme grupo de pessoas ama a cidade não utilizando a discussão social que envolve toda a reconstrução de New Orleans como o alicerce, e, sim, usando a sua cultura como canal para mostrar isso tudo. Os personagens de Treme estão circulando questões sociais em todo episódio da série, mas não ficam presos a tudo aquilo, eles acabam encontrando força, não do modo super dramático, mas de uma maneira honesta, fazendo com que todos os personagens da série se desenvolvam a partir do sentimento de que eles compartilharam do mesmo horror e acabaram reagindo da mesma maneira, sendo os empecilhos das suas vidas pessoais o maior diferencial entre cada um deles, trazendo diversas histórias individuais encantadoras, mas também difíceis de engolir por soarem como um soco no estômago graças ao modo que David Simon transmite sua mensagem.
Vê-se em Treme uma linha de discussão social semelhante a que The Wire utilizava, mas com objetivos diferentes. Enquanto The Wire gritava para todos os cantos do mundo o quanto Baltimore estava caindo aos pedaços, Treme utiliza as suas discussões sociais espelhando-se na (tentativa de) superação de todos aqueles problemas. A primeira era mais fria, onde o ponto chave era de que nem sempre o herói é capaz de sair por cima ileso (se bem que chamar um personagem dessa série de herói seja algo aflitivo). A segunda se agarra ao pingo de esperança que os sobreviventes possuem e faz uma festa a partir disso.
Tudo funciona da maneira que as novelas deveriam ser. Treme tem uma maneira distinta de trabalhar com seus personagens no ponto em que eles acabam tendo suas características estudadas, fotografadas e exploradas em ambientes que podem parecer estáticos e fadados a não serem desenvolvidos, mas que na verdade mostram apenas como Treme é uma daquelas raras séries onde a sua própria premissa acaba sendo o maior acontecimento que ela oferece. É normal ver os mesmos personagens em cenários semelhantes por praticamente uma temporada inteira, interagindo com as mesmas pessoas, com raras exceções. Dezenas de personagens que parecem avulsos em seus próprios mundinhos, mas que não acabam se isolando, e, sim, contribuindo para criar o universo de Treme.
Séries como Boss, por exemplo, partem do princípio de que o seu universo é atracado de forma tão forte por causa da relação de disputa que existe entre os personagens que todos entram em uma zona em que qualquer atitude por menor que seja termina destruindo alguém (ou todo mundo), algo que se encaixa perfeitamente com o cenário político da série. Enquanto isso, Treme é metódica. David Simon segue seus já estabelecidos princípios e os desenvolvem em uma ordem determinada, tudo segue acumulando e passando um sentimento de que poucos avanços acontecem para que em determinado momento as coisas se dissipem, às vezes de forma calma ou com certo evento fatal, passando a impressão de que isso não é o fim de alguma coisa, e sim, o símbolo do início de algo diferente, uma mudança de estado* que permite que a série se mantenha viva e capaz de exibir sua versatilidade.
* É interessante notar como a série muda de profundidade de uma temporada para a outra. A primeira é dominada por eventos que se encaixam do conceito mais feliz da série, onde ela tenta e acaba encontrando sua identidade. Por sua vez, a segunda aproveita o clima adorável que a primeira elaborou e o destrona de forma tão forte (algo que acontece logo na Season Premiere e atinge o seu ponto final no terceiro episódio dessa temporada), que acabamos deduzindo o quanto essa série é magnífica e como David Simon é super capaz de conduzir esse tipo de narrativa como se fosse algo do nível de roubar doce de uma criança ou andar de bicicleta.
Todo esse esquema de David Simon mostra determinada característica interiorana da cidade que faz com que a série consiga aproximar público e personagens. Sendo que os últimos são tão honestos diante de suas próprias tragédias que fazem com que Treme se afaste do conceito de que ela não passa de um conjunto de críticas sociais despejadas sobre o espectador, personagens falam sobre os seus problemas diante de um ambiente tão seco e agoniante que ficamos em um corredor presos e forçados a sentir empatia por aquelas pessoas ao mesmo tempo em que saímos durante a noite para curtir música.
O principal atrativo de Treme para o grande público, que não existe, exemplificando o quão específica essa série é em relação ao tipo de espectador que ela atinge, desconsiderando sua própria premissa, a música espelha justamente a necessidade do povo de New Orleans de exibir o que eles fazem de melhor, seguindo uma lógica de que o lado de fora não deveria sentir pena e, sim, ser capaz de receber entretenimento do mais alto nível sem ter uma tragédia interferindo nesse julgamento. É uma cidade que quer ser julgada pelo que faz diante da adversidade, não pela própria desgraça. Parte da empatia que possuímos pelos personagens de Treme vem graças a habilidade de David Simon de conhecer que aquele grupo particular de pessoas, que acabam representando uma grande cidade, não deseja ser ajudada com aquilo que outras pessoas, que não tinham conhecimento nem de como pronunciar o nome do local da maneira adequada antes da passagem do furacão, acham que é melhor. Treme é um grito de socorro de uma cidade, mas que acaba sendo enfeitado por uma das melhores coleções de músicas que existe na televisão, transformando-se em um dos produtos mais agoniantes/lindos que podemos encontrar no mundo das séries.














