A escola foi assim para todos nós, e nunca uma série foi tão verdadeira a respeito.

Pense em uma série que uniu que de forma perfeita a comédia e o drama, os ambientes familiares e escolares, a turma “descolada” e o nerds, as relações entre pessoas de grupos diferentes e todas as dúvidas e emoções que rondam a vida de um adolescente; e tudo isso da forma mais verdadeira o possível, sem apelar para estereótipos ou personalidades que já assistimos em qualquer filme ou seriado adolescente. Esta série é Freaks and Geeks.

Criada por Paul Feig (que tem no currículo episódios de The Office, Arrested Development, 30 Rock, Parks & Recreation e o filme Bridesmaids) e produzida por Judd Apatow (Girls e filmes como O Virgem de 40 Anos, Pinneaple Express e Superbad), Freaks and Geeks foi uma série transmitida pela NBC entre 1999 e 2000, e cancelada precocemente após somente 12 episódios serem exibidos. Os seis restantes foram transmitidos após uma campanha realizada pelos fãs da série. Aí você pensa: como uma série tão curta pode ter sido tão importante? Freaks and Geeks está naquela seleta lista de séries incríveis de uma temporada, como Firefly e Studio 60 On the Sunset Strip. Para se ter uma ideia da qualidade da série, mesmo com esse fim precoce, ela garantiu uma posição na lista dos 100 melhores séries da história, feita pela revista Time, apareceu na 13ª posição do ranking das melhore séries dos últimos 25 anos feita pela Entertainment Weekly em 2008, e foi a quarta colocada no ranking das melhores séries da década (2000-2009) feita pelo site AV Club.

A trama da série é simples e nos 18 episódios acompanhamos dois núcleos de jovens no ensino médio durante os anos 80: a transição de Lindsay Weir (da ótima Linda Cardellini), uma “nerd” super inteligente que passa a andar com os jovens mais descolados, a galera “cool”, composta por Daniel Desario (James Franco), Ken Miller (Seth Rogen), Nick Andopolis (Jason Segel) e Kim Kelly (Busy Philipps); e o grupo dos nerds, composto principalmente pelo irmão de Lindsay, o tímido e inseguro Sam Weir (John Francis Daley), o simpático nerd Bill Haverchuk (Martin Starr), e o comediante Neal Schweiber (Samm Levine). Você série maníaco provavelmente reconhece vários desses nomes na TV ou no cinema atual, e em Freaks and Geeks tem a chance de vê-los em ótimos papeis quando ainda eram jovens.

Com esse elenco sensacional (que ainda conta com diversas participações especiais de atores já conhecidos da TV e cinema, como Jason Schwartzman, David Krumholtz, Rashida Jones, Shia LaBeouf e Ben Stiller), Freaks and Geeks é uma série cheia de ótimos personagens. Exatamente pelo fato de não fazer uma caricatura exagerada de ninguém, desde os alunos até os professores e pais, a série consegue trabalhar qualquer trama e assunto com um toque de realismo único. É impossível você assistir e não relembrar sua adolescência, e se relacionar com algum personagem, ou até mesmo com vários, vendo um pouquinho de você mesmo e de seus colegas em cada um desses jovens.

Em Lindsay temos possivelmente a figura mais fácil de nos relacionarmos na série, afinal, que adolescente nunca se sentiu perdido e “fora do seu lugar” quando estava na escola? Na turma dos freaks temos os jovens que passam confiança, mas escondem grandes problemas familiares ou pessoais, e na realidade são tão perdidos e deprimidos como qualquer outro. Nos geeks vemos os jovens com dificuldade em socializar, tímidos e desajeitados, que se esforçam para parecerem legais, ainda na transição da infância para a fase mais adulta. Todos com suas tristezas, alegrias, vontades, sonhos e decepções.

A série consegue tratar – misturando humor e drama –, diversos temas tão comuns e importantes nessa fase da vida. Os romances, a amizade, os problemas com a família e aquela fase em que ninguém no mundo parece te entender, as primeiras experiências com álcool e drogas, bullying, as responsabilidades que aparecem em um momento em que você não quer lidar com nenhuma, a insegurança e a dúvida sobre o que fazer da sua vida. Às vezes com situações bizarras, mas também com uma sensibilidade de quem está mostrando a mais pura verdade, Freaks and Geeks parece falar diretamente com você, independente se você foi um adolescente nos anos 80, 90, 2000 ou mês passado. Todos os episódios despertam alguma emoção, seja te alegrando com alguma situação engraçada ou com os personagens felizes; ou te atingindo como um soco no estômago, mostrando decepções tão reais, com personagens que despertam um afeto tão rápido em quem está assistindo, que parece estar acontecendo com você mesmo.

A série ainda tem uma grande influência musical, com uma trilha sonora que marca a busca destes jovens por uma identidade, contando com grandes bandas de rock, como Rush, Led Zeppelin, Lynyrd Skynyrd e Grateful Dead (essa última embalando algumas das melhores cenas da série no episódio final. Vale a pena ver de novo – ou pela primeira vez -, Lindsay dançando aqui), sem contar a clássica música “Bad Reputation” de Joan Jett nos créditos iniciais.

Falando com o seu “eu” de 16 anos, Freaks and Geeks é uma série que em seus 18 episódios traz uma experiência única para quem a assiste. Pode parecer pretensioso, mas falando com uma sensibilidade tocante, a série atinge um nível de realismo único. Sem criar grandes personagens com características exageradas, mas sim nos apresentando pessoas com virtudes, vícios e falhas como qualquer um; sem julgar as atitudes dos jovens, mas mostrando que é assim que eles enxergam o mundo, e nada vai poder mudar isso. Mesmo curta, Freaks and Geeks é uma série marcante, uma das melhores, se não a melhor das séries canceladas precocemente por seus canais.

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