
O tiro no escuro… Que não acertou o alvo.
Não se pode culpar a Fox, vamos logo dizendo. Era tudo muito novo… Séries com tramas centrais fragmentadas e planejadas não eram uma realidade comercial. O que acontecera com Arquivo X era absolutamente peculiar. Porque as pessoas continuavam assistindo por todo aquele tempo, mesmo sem ter respostas e mesmo sem nenhuma previsão de quando as teriam? E a audiência crescendo, o respeito aumentando, os lucros subindo obscenamente… E para o desespero da empresa, Duchovny começando a entender que tinha o poder nas mãos.
Foi aqui, nas negociações para a sexta temporada, que começaram as eloquentes exigências e as ameaças de demissão do astro. Duchovny fez todas as exigências que pôde. Mais dinheiro, menos trabalho, mais versatilidade no personagem, mais versatilidade nos bastidores, e o maior de tudo: a mudança para Los Angeles.
Carter fica dizendo até hoje que essa mudança foi positiva, mas de fato ela só serviu pra ajudar a descaracterizar a série. Vancouver era excessivamente fria, nublada, cinza, sombria… Los Angeles passa a maioria do ano vibrante e quente. O elenco e produção executiva ganharam na proximidade com a família e a indústria (sim, porque o staff básico e bruto ficou todo em Vancouver), mas a série passou a ter que gastar mais pra esconder toda a luz e litoral.
Diz a lenda que uma das exigências de David foi que a série começasse a resolver seus conflitos. A Fox, ao mesmo tempo, não tinha a menor intenção de datar o final do programa (como a ABC fez com Lost) e pretendia lucrar com os mistérios dos arquivos x enquanto pudesse. Como lidar com o problema então?
Carter e Sponitz tinham duas saídas então: A primeira era fazer uma volta na mitologia e com ela enganar David e manter a audiência interessada. A segunda era continuar na vanguarda e transgredir as expectativas, respondendo tudo. Decidiram-se pela segunda alternativa, muito corajosamente, e deram um tiro no escuro, que pegou no próprio pé.
No meio da temporada, deram as respostas definitivas acerca do projeto. E o fizeram magistralmente. Só mantiveram o segredo sobre Samantha (afinal não era a última temporada). A questão é que eles achavam que havia pela frente, no máximo, mais uma temporada. No final das contas, nem eram tão de vanguarda assim, já que na sétima falariam sobre Samantha e pronto, acabou. Só que… Olhem só… Não acabou. E o desespero por uma nova mitologia começou, causando toda a rede de problemas que transformou o final da série num fiasco.
Sendo assim, como não culpar as decisões oriundas da sexta temporada? Arquivo X precisava de sua mitologia, e foi a partir daqui que ela passou a se dissolver gradativamente.
Mesmo assim, tivemos bons episódios, espalhados numa temporada irregular que foi do genial ao absolutamente medíocre.
Os dez melhores episódios da temporada:
O Princípio – 6X01

Uma das coisas que mais foram faladas quando o filme Fight The Future chegou às telas, dizia respeito aos alienígenas violentos que nunca tinham aparecido na série. Parecia uma profunda traição. Os seres eram retratados o tempo todo como seres inteligentes e não como monstros assassinos. Esse primeiro episódio veio com a função de tentar explicar isso, além de continuar os eventos da temporada passada. A teoria sobre todos sermos um pedaço de matéria orgânica alienígena foi muito acertada, mas a explicação para os aliens monstruosos não foi lá das melhores. Na última cena, uma troca de pele justificou tudo. O vírus engravidava o sujeito, emergia como um ser violento (para garantir a sobrevivência) e logo depois sofria metamorfose, tornando-se assim, o alienígena cinza e cabeçudinho que costumávamos ver na série. Enfim… Episódio bom, mas que ao invés de concertar o filme, corroborou certos exageros. E uma nota curiosa: o chefe do Seatle Grace, em Grey’s Anatomy, o poderosão Richard Webber, aparece aqui pela primeira vez como o malvadão Diretor Kersh.
Dirija – 6X02

Eu implico um pouco com o Vince Gilligan, admito. Primeiro porque ele está sempre na lista dos piores roteiristas da série e segundo, porque Breaking Bad está longe da competência e ousadia que lhe são atribuídas. Aqui, no entanto, ele acerta em cheio. E curiosamente, ocorre uma certa convergência entre a criação futura e a presente. Vince, conheceu seu astro futuro, o ator Bryan Cranston, que antes de Walter White, apareceu como um homem atormentado por uma experiência governamental que deu errado, e que faz com que ele seja obrigado a ficar em movimento constante, e em alta velocidade. Os diálogos do preconceituoso homem com Mulder são muito bons e o final, inspiradíssimo.
Triângulo – 6X03

Depois de dar a Fox uma grana preta, Carter podia se dar ao luxo de só se envolver em projetos que julgasse interessantes. Aqui ele resolveu homenagear Hitchcook e colocar os atores pra trabalhar num episódio todo rodado em planos sequência, ou seja, sem cortes de câmera. Uma vez que a ação começava, uma câmera apenas era responsável por registrar tudo, seguindo os atores e alternando os quadros lentamente. Isso resultou num show de atuação de Gillian Anderson, num show de eficiência da equipe técnica (que trocava todo o cenário de um andar do FBI, nos segundos em que Scully ficava no elevador indo de um setor pro outro) e num peculiar episódio não-habitual da série. A história não era lá grande coisa, mas valeu a pena por toda a ousadia da ideia. Atentem para o detalhe especial da frase de abertura sendo escrita em alemão.
Terra dos Sonhos II – 6X05

Menos de dez episódios no ar e The X-Files já tinha feito uma quantidade imensa de licenças criativas. Aqui, nesse episódio duplo chamado Terra dos Sonhos, Mulder e Scully vão investigar estranhos eventos eletromagnéticos no Arizona e Mulder acaba trocando de corpo (!) com um funcionário da Área 51. A ideia era um disparate. Completamente fora de contexto e traía toda a perspectiva verossímil da série, mas… Era um episódio pra fã. E um dos melhores. Aqui nessa altura, a maioria dos fãs só se deliciava vendo seus personagens queridos passando por todo tipo de situação. E esse episódio, embora oriundo de um clichê hollywoodiano, tinha pontos interessantes e soube encontrar justificativas razoáveis para seus acontecimentos. Além disso, o ator Michael McKean, que troca com Mulder, se saiu tão bem que voltou ainda nessa temporada e até foi do elenco regular da fracassada série dos Pistoleiros Solitários.
Como os Fantasmas Estragaram o Natal – 6X06

E a licença poética continua. Agora, num episódio filosófico que levava os agentes a uma casa mal assombrada na noite de natal. Embora com uma certa comicidade, a história caminhou positivamente no quesito estranheza e foi inteligente lidando com as impressões que os dois fantasmas tinham dos agentes. Lilly Tomlin faz a mulher fantasma e está encantadora. O episódio é outra tentativa de Carter de homenagear suas referências cinematográficas, mesmo que isso representasse um risco para a evolução da temporada.
Laços de Ternura – 6X07

Primeiro episódio realmente assustador da temporada, e que nos entregou uma história fantástica sobre um demônio que só queria ser… Pai. Uma ótima ideia, com um ótimo desenvolvimento e um final arrasador. Tudo no melhor estilo Arquivo X, com enredo aparentemente absurdo, mas um embasamento totalmente plausível.
Dois Pais – 6X11

Como eu disse no início desse texto, Carter tomou a decisão de transgredir e com a série ainda no auge, dar as respostas que todos estavam esperando. O primeiro episódio mitológico após o início, veio com essa missão. Trouxeram Cassandra Spender de volta, como o híbrido humano/alienígena que finalmente deu certo. Com isso, o Sindicato não tinha motivos pra continuar atrasando os planos de colonização, o que resultaria num definitivo start para o cataclismo. Mulder então tem a chance de colocar tudo em pratos limpos com o Canceroso, que tenta recrutar o filho Jeffrey para com isso ser capaz de lidar com os sentimentos paternalistas a respeito do agente. É emblemático o momento em que Jeffrey vê um alien pela primeira vez. É como se todos nós naquele momento, estivéssemos sentindo a mesma coisa.
Um Filho – 6X12

The X-Files tentou dar a esse grande momento da mitologia, um caráter humano. A relação entre Bill Mulder e o Canceroso passou a ser o pano de fundo para o que representava o papel de Fox Mulder em toda a trama. Nada mais natural então, que esse episódio fosse sobre como as decisões desses dois pais, resultaram no futuro daquele um filho. Mulder ainda não descobre onde está a irmã, mas descobre ao menos o motivo de sua abdução. A resposta é totalmente satisfatória e estava ali o tempo todo. O resumo é basicamente esse: O acidente em Roswell trouxe a notícia de que a colonização era iminente. Alguns homens do alto escalão governamental se reuniram para tentar encontrar um jeito de cooperar para se salvar. Um acordo foi feito e enquanto nós entregávamos material genético para a realização das pesquisas com híbridos, em troca, os alienígenas cediam o próprio material genético para a fazedura de uma vacina, e recolhiam um membro da família de cada um dos conspiradores como garantia. O pai de Mulder não aceitou o acordo e por isso, Samantha foi retirada de dentro de casa. O episódio é belíssimo. E nos entrega momentos que esperamos por seis anos pra ver. No fim, os rebeldes acabam evitando a colonização e Jeffrey sai de cena levando um tiro do próprio pai.
A partir daqui, tudo praticamente zerado. Não temos mais Sindicato e da mitologia original, apenas o paradeiro da irmã de Mulder é uma incógnita. Nem eles e nem nós, tínhamos a menor noção do que estava por vir.
O Antinatural – 6X19

Como estratégia pra tentar manter Duchovny no programa, a Fox ofereceu alguns privilégios ao ator. Um deles era a chance de explorar outros dos talentos do astro. Temos então o episódio assinado e dirigido por ele. A história é interessante e mostra que os alienígenas podem desejar mais do nosso planeta, como… baseball. Duchovny escreve um texto inteligente, mostrando os agentes de um jeito diferente e mais leve. Claro que ele aproveita pra zombar um pouco de Scully… Não é um arquivo x habitual, mas tem seu charme.
Biogênese – 6X22

O pesadelo da renovação de contrato recomeçou. Pra variar, Duchovny recomeçou as ameaças de demissão. Em pânico, a Fox aumentou seu salário, garantiu menos horas de trabalho e novas possiblidades artísticas. Mesmo assim, o astro não confirmou presença e um episódio neutralizador precisou ser feito. Ele precisava ser impactante para o público caso viesse a ser o último, mas também oferecer possibilidades caso não fosse. Biogênese então apresenta a história de uma nave sendo encontrada na Costa do Marfim. Um pedaço dela acaba ativando um centro nervoso do cérebro de Mulder, fazendo com que seja ligada aquela parte meio alienígena descoberta em nosso genoma no primeiro episódio da temporada. A ativação em Mulder é possível devido ao contato com material alienígena que ele teve anos atrás (óleo negro, na quarta temporada). Mas o agente não é o Gibson Praise e acaba enlouquecendo.
Terminamos assim, com Mulder no hospício e Scully tentando encontrar uma saída.
XX
O time de roteiristas diminuiu e o excesso de trabalho causou uma escolha de roteiros que ficou um pouco difícil de engolir. Tivemos muitos episódios regulares e diria que a lista abaixo foi até gentil com os considerados ruins. Na maioria dos casos, o problema foi a falta de originalidade condicionada com ideias frouxas, sem embasamento, o que em se tratando de Arquivo X é inconcebível.
Abaixo então, alguns dos piores episódios da temporada:
S.R 819 – 6X09

Desde a terceira temporada que Skinner tem um episódio centrado nele, e todos são sempre ruins. Esse, escrito por John Shiban, não foge a regra. Um bom efeito especial mostra que Krycek tem o diretor-assistente nas mãos, mas acho que não precisávamos de 45 minutos de trama pra entender isso.
O perigo vem da água – 6X13

Um episódio que traria de volta a figura de Arthur Dales parecia promissor, mas ao invés disso, fomos presenteados com mais um caso totalmente tolo. Nem dá muito pra explicar do que aquilo tudo se tratava, só sei que um furacão faz emergir do mar uma criatura cheia de tentáculos que apesar de bacana visualmente, é pífia. Outro caso triste numa temporada cheia de equívocos.
Alpha – 6X16

Um episódio sobre cães e mitologia metamórfica. Parece bom? Parece, mas não é. Mulder encontra uma antiga fã de seu trabalho e ela o ajuda a resolver uma série de crimes que lembram as lendas do lobisomen. Por mais que essa palavra não seja mencionada nenhuma vez, a lembrança está ali o tempo todo. Esse episódio é pobre de narrativa, e novamente tolo e repetitivo. Só deve ser lembrado – se é que deve – por ser o episódio em que Mulder recupera seu pôster “I Want to Believe”, queimado no final da quinta temporada. Há um final alternativo nos DVD’s que merecia ter sido apagado dos registros.
Trevor – 6X17

Uma tempestade com tornados (ops, again!) passa pela vida do criminoso Pinker, e ele começa a ter a capacidade de expandir moléculas e atravessar objetos sólidos. Os autores do episódio tentam dar motivações familiares para o personagem, mas tudo continua soando ridículo. Enfim, dá sono e irritação, só isso.
A Viagem – 6X21

Esse é o penúltimo episódio da temporada. Nele, uma planta carnívora ataca (isso mesmo) suas vítimas e para conseguir devorá-las lentamente, as engana com alucinações. A planta solta uma meleca verde que causa essa privação de sentidos, e as vítimas ficam enterradas em grutas enquanto são devoradas. Mulder e Scully acabam sendo capturados (mesmo que ninguém explique como) e passamos o episódio no meio da “onda” deles. Tudo com direito a mais fantasias com a morte de Mulder (tema recorrente na série) e momentos como o do encontro dele com uma entidade alienígena. 45 minutos de bobagens. Uma viagem em todos os sentidos.
XX
Temporada que vem temos o último vestígio da antiga mitologia sendo revelado, o que resultou na temporada menos mitológica da história da série.
See you in the seventh season.















