
Receita para um bom episódio de Louie.
Spoilers Abaixo:
Duas pitadas e meia de fofura infantil
As filhas do protagonista são um elemento fundamental para a execução de Louie. Como a premissa da série é contar as histórias envolvendo um pai solteiro em Nova Iorque, é importante notar os pequenos momentos de ternura que o protagonista passa com ambas. Podendo servir como uma análise sobre o processo de amadurecimento, ao notar as pequenas sutilezas e que ambas diferem, como a imprevisibilidade da pequena Jane, enaltecida pela piada do gorila que é hilária por sua obviedade, ou os primeiros traços de formação de personalidade da nem tão pequena Lilly, como notado pelas suas pequenas tentativas de começar a estabelecer piadas que obedeçam melhor à lógica do humor.
Duas colheres de stand-up
Se existe uma característica óbvia de Louie é que em algum ponto irá existir pelo menos uma apresentação de stand-up. C.K., como realizador inteligente que é, sabe usar este aspecto ao seu favor ao jamais tornar previsível o momento em que utilizará o artifício ou a natureza do seu conteúdo. Pode ser no início, no fim, ou no meio, uma vez ou mais, correlacionado diretamente ou não com a trama contada, além de poder em dado momento ser desempenhado por outro comediante.
Neste episódio, tanto o comediante principal como o convidado Allan Havey conseguiram com suas piadas fazer rir e complementar a história, encerrando a piada de Jane e servindo como uma ponte sobre o que virá ao encarnar o humor sobre a sexualidade na maior idade, esta última acerta ao não tentar ser uma ligação direta e óbvia, preferindo adotar uma postura mais sutil de ser um elo com a superfície da narrativa.
Um pacote de atores convidados
Como um nome de peso, sem trocadilhos, no mundo da comédia, Louis C.K. possui um grande número de amigos, tanto os conceituados na tevê e cinema quanto os mais obscuros, para participarem de seu programa. Mais do que isso, pode utilizar um papel condizente com a personalidade de cada um a seu favor, como o médico chato de Ricky Gervais ou a amável em sua grossura Pamela Adlon.
Allan Havey conseguiu servir bem durante o pouco tempo que passou em tela, mas é inegável que o grande destaque é a vencedora do Oscar, para quem se importa, Melissa Leo e sua Laurie. Construindo uma personalidade forte que serve como um ótimo contraponto ao personagem-título, sendo incorporadas pelo modo ríspido como caminha, escolhe um vinho ou corta com um talher, trejeitos atenuados por um ótimo trabalho da mixagem de som de Justin Gray como pode ser notado em toda a cena na loja de vinho, mas ao mesmo tempo dando para o comediante um conforto raro de ser encontrado, ao dividir com ele as mesmas opiniões sobre relacionamentos. Essa soma de fatores torna factível a atração de Louie, assim como um mosquito acaba sendo enganado pelo calor da luz.
100g de situações inusitadas
Um único plano parte de uma situação de diálogo, tornando-se uma discussão, evoluindo para uma aposta e se configurando como finalmente uma ameaça, tudo girando em torno da possibilidade de o homem poder ou não fazer contato íntimo no primeiro encontro. Essa é uma situação que poderia soar forçada em qualquer outra comédia, mas em Louie é concebida organicamente em meio a um universo tão caótico, cruel e hilário. São esses pequenos detalhes que tornam Louie não apenas uma série bem realizada, mas um grande nome do gênero comédia ao conseguir englobar em suas pequenas histórias os mais diversos tipos de humor e ser sempre bem-sucedido em colocar o protagonista em momentos absurdos que fogem do seu controle.
Três latas de melancolia
Ela está sempre lá para dar fermento às histórias, dando uma seriedade e nunca impedindo as piadas de se concretizarem. Pelo contrário, a solidão de Louie, por exemplo, é encarada como um fundamento importante para mover a trama, como pode ser notado nos diálogos que ele e Laurie dividem o seu pessimismo em relação ao universo.
Acrescente pequenas gotas de continuidade
Louie é baseada em contos que funcionam como um fim em si mesmos, mas não chega ao ponto de serem histórias desconexas por alguns pequenos elementos em comum que a situam no tempo e espaço. Seja um pequeno crescimento das filhas, uma moto comprada no episódio anterior ou a descoberta de que o personagem parou de fumar, esses pequenos detalhes dão uma face a cada uma das temporadas e conseguem quebrar a linha entre o contínuo e o antológico.
Esquente tudo em um formidável universo por vinte e dois minutos.
Duas atrizes podem ser convidadas para o mesmo papel. Personagens podem desaparecer da noite para o dia. Uma mulher negra pode ter filhas caucasianas. O universo de Louie não faz o menor sentido, mas ao mesmo tempo cada um desses detalhes se encaixam perfeitamente. É a ordem da desordem, a ponto de uma atriz mais velha que C.K. conseguir estabelecer um par romântico perfeitamente ou diálogos tão absurdos poderem ser desferidos com naturalidade.
Esse é o elemento X de Louie, unindo tudo e tornando a natureza da própria série única, mas ao mesmo tempo pode ser o seu ponto fraco. Encaixando cada um dos aspectos citados na natureza da série organicamente, é garantia de boa televisão, mas que deve ser orquestrada minimamente para que a justaposição de opostos funcionar. Felizmente, estamos falando do maior comediante da atualidade, aquele o qual consegue enxergar a força de sua premissa e utilizá-la ao máximo. O resultado é uma série constante em sua excelência, como pode ser notados em episódios excepcionais como “Telling Jokes/Set Up”.
Boa refeição!














