
Com vocês, a maior beldade a subir na TARDIS!
Spoilers Abaixo:
“Don’t Blink” (The Doctor)
O conceito de viagem no tempo é fascinante por despertar a ideia de uma fuga do cotidiano e a possibilidade de conhecer tempos longínquos ou civilizações extraordinárias esculpidas no futuro. Entretanto, no meio de toda essa engenhosidade existe um elemento mais sombrio caso seja perdido o controle, como pode ser ilustrado no clássico filme “De Volta para o Futuro” em que sempre existe o receio em Marty de não conseguir voltar para casa. A espinha dorsal de “Blink” se apossa de toda essa tensão e a eleva à última potência. Não sendo à toa considerado o ápice de toda a franquia moderna da série.
O episódio conta a história de Sally Sparrow (Carrey Mulligan), uma garota comum, mas que começa a receber mensagens e vídeos do Doctor (David Tennant) e Martha Jones (Freema Agyeman), enquanto tenta lidar com um ataque dos temerosos Wheeping Angels, a raça intergaláctica que a essa altura do campeonato dispensa explicações detalhadas.
A direção de Hettie McDonald efetua a construção da tensão do episódio ao utilizar simples enfoques na estátua para transmitir todo o medo, conseguindo se beneficiar da imaginação, sem limites, do espectador para conceber os perigos ocasionados pelas criaturas. O seu ápice, entretanto, é na brilhante sequência final onde o uso da luz piscando para mostrar o ataque dos inimigos em tempo real, conseguindo se constituir como um clímax apropriado à narrativa.
O roteiro, concebido pelo genial Steven Moffat, acerta ao trazer uma mistura quase imperceptível de agonia e melancolia. Por mais que a trama principal se resuma à da garota tentando fugir de uma grande ameaça, o texto discute também um pouco sobre a efemeridade da vida sem soar cansativo ou pedante. Como pode ser notado nas subtramas de Kathy Nightingale (Lucy Gaskell) e o Detetive Billy Shipton (Michael Obiora), sendo mostrando seus semblantes jovens e, momento depois, serem confrontados com as mesmas figuras envelhecidas ou até mesmo mortas, tornando a mesma frase (“life’s short and you’re hot”) possuir contornos quase que opostos de uma cena para outra. O drama surge da própria condição humana, pois, por mais que ambos tenham vivido, é triste vê-los morrendo pelo simples fato que o ciclo de vida de ascensão e decaimento é triste.
O diretor de arte Arwel Jones encara com seriedade esse clima de tristeza, optando pelo uso de cenários azuis, cor que na semiótica é indicativo desses sentimentos, durante a maior parte do tempo. Essa lógica visual pode ser percebida desde a morada de Sally, completamente estilizada na cor, à loja de Larry que as coloca mais sutilmente nas paredes. Não é à toa que um dos poucos momentos de rompimento desse visual é no hospital em que Billy morre, sendo preferível um branco para indicar serenidade e o azul se concentrar unicamente na camisa.
Toda essa melancolia apenas maximiza a tensão do episódio, de modo a tornar os Wheeping Angels vilões aterrorizadores, apesar de possuírem um modus operandi aparentemente inofensivo. Afinal, após ser visto o que ocorreu com os outros dois personagens, a última coisa desejada pelo espectador é ver toda a expectativa de vida da Sally e Larry ser drenada diante dos seus próprios olhos.
Moffat consegue ainda juntar em um só episódio todas as características que viriam a torná-lo o showrunner da melhor fase da série: As tramas complexas e aproveitamento da viagem ao tempo e todas as suas implicações. Mais do que isso, consegue justificar a circularidade do episódio, e o paradoxo no qual Sally só pôde sobreviver graças às pistas por ela mesmo deixadas, com uma explicação simples de que a concepção de tempo não é linear, mas um grande balaco-baco-temporal.
Carrey Mulligan consegue construir com proeza a difícil tarefa de sustentar o episódio sozinho e com uma personagem nova para o público. Construindo um semblante que é uma mistura de medo e tristeza, mas com uma grande admiração pela estranheza do universo que está sendo apresentada. Afinal, pela primeira vez na vida pôde ter o seu mundo despertado para algo além da própria racionalidade, o que é intrigante à mesma proporção que amedrontador. Enquanto isto, David Tennant tem a chance de brilhar na cena em que o Doctor se encontra com Sally, percebido pelo seu semblante de admiração e gratidão ao notar o que estava ocorrendo, tornando o seu “Nice too meet you, Sally” uma despedida esplêndida para o drama de ambos.
Como a cereja no bolo, Murray Gold concebe uma trilha sonora soberba, alternando de acordes mais suaves e longos nas cenas contemplativas aos mais graves e curtos nas sequências cujo foco é a ação, sendo um complemento ao que está sendo mostrado em tela e em nenhum momento tendo o objetivo de tentar induzir quais sentimentos devem ser experimentados pelo espectador.
Emocionante e inquietante, “Blink” representa a nata de uma série que sempre se destacou pela sua imensa qualidade, provando que, mesmo em uma temporada caracterizada por altos e baixos, a série ainda consegue atingir a sua melhor forma. Bastando para isso não dar destaque para a Martha Jones.
***
15/07 – Pilot (Friday Night Lights)
22/07 – Out of Gas (Firefly)
29/07 – Our “Cops” Is On (My Name Is Earl)
05/08 – Exodus (Battlestar Galactica)
12/08 – Something Borrowed, Someone Blue (Frasier)
15/08 – Six Feet Under (Episódio a definir, aceito sugestões)
19/08 – Coda (The Wonder Years)
Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas. Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios. Espero que vocês gostem.














