
Wallander é TV com cara de cinema ou cinema com cara de TV, eis a questão?
Recentemente li uma entrevista com Dustin Hoffman, na qual ele promovia Luck, a já falecida série da HBO. A entrevista tinha um tom amargo e o ator reclamava da tão em voga crise do cinema, dizendo que os filmes atuais não são ousados como costumavam ser. Principalmente devido a grande preocupação com os números que deixaram os filmes grandiosos e com pouco conteúdo. Mas otimista ele apontava as séries de televisão como uma salvação, e dizia que essa era sua principal motivação para migrar para a telinha.
Para falar a verdade, eu concordo com ele no que diz respeito ao crescimento das produções para a telinha. Não foi só o público que aumentou, mas as séries realmente alcançaram um alto grau de qualidade, tanto em termos de produção quanto em roteiro. E são sim, definitivamente mais ousadas que o cinema. Mad Man, Dexter, House, Sherlock e tantas outras são apenas alguns exemplos das séries que superam muitas produções cinematográficas.
Como viciada em série, afirmo que as vantagens das séries são muitas; como acompanhar tudo em casa, a facilidade do acesso e principalmente ver o desenvolvimento dos personagens ao longo da temporada. Confesso que o único lado ruim é ter que esperar três meses ou mais pela próxima temporada.
Então o que fazer nesse período de férias? Já que ficar só esperando não dá, a solução que encontrei para esse problema foi simples; aproveitar esse tempo para procurar novas séries. Acabei percebendo que esse tempo é uma boa oportunidade para descobrir algumas séries que acabaram passando batido, mas que merecem uma segunda chance.
Foi em um desses intervalos de temporada que descobri Wallander, série produzida pela BBC, baseada na série de livros com esse mesmo título, do escritor sueco Henning Mankell e estrelada por ninguém menos do que Kenneth Branagh. A produção narra à história do detetive sueco Kurt Wallander, que vive a tão famosa crise da meia idade, ao mesmo tempo em que precisa investigar os mais violentos casos de assassinatos. A primeira temporada com três episódios foi ao ar, no fim de 2009 e a segunda temporada também com três episódios, foi ao ar no fim de 2011. Ao foram apenas seis episódios com duração média de uma hora meia cada um. Dizem as boas línguas que uma terceira temporada poderá ir ao ar ainda em 2012. Mas eu só acredito vendo.
Mesmo sendo um sucesso de público e crítica nas terras da rainha, essa série passou completamente batida em todo o mundo, não só no Brasil. Mas quero dizer que Wallander encaixa-se perfeitamente na lista das produções que superam o cinema. Uma verdadeira joia rara.
Quando vi o trailer me interessei de cara, não somente porque sou apaixonada pelas produções britânicas, mas porque me pareceu ser entretenimento da mais alta qualidade.
Resolvi assistir e confesso que minhas expectativas foram mais do que superadas, encontrei um drama de primeira com ótimas interpretações, um roteiro brilhante, superior a muita produção de Hollywood, um protagonista que vive crises existenciais e que mostra uma profundidade humana impressionante.
Baseada nas duas temporadas que assisti, resolvi enumerar algumas razões tentando mostrando o porquê Wallander merece sua atenção.
1º – Wallander carrega a marca BBC; o que por si só é sinônimo de qualidade. O cuidado que eles tiveram com essa série foi algo primoroso, comparável aos melhores filmes de Hollywood. Desde detalhes de produção ao cuidado com roteiro, direção e atuação. Só para mencionar, tratando-se de adaptação literária, nunca é demais falar que ninguém sabe fazer adaptações melhor que a BBC.
2º – Fotografia impecável; a série foi toda gravada na Suécia, para dar mais veracidade à narrativa. É uma produção inglesa para um canal inglês, mas toda a história acontece no cenário sueco. Isso sim é adaptação. Não é apenas pegar personagens de um livro e colocar em um universo totalmente diferente e dizer que é uma adaptação. E não me venha com essa história de que o público não vai aceitar fidelidade à obra. Só para mencionar, Wallander é extremante fiel ao livro até mesmo em detalhes como e-mails e jornais todos escritos em sueco. E foi uma das séries de maior sucesso de público e crítica recebendo até uma indicação ao globo de ouro.
3º – TV em formato de cinema; os episódios de Wallander mais parecem filmes. Começando pelo tempo de duração de cada episódio, em média com uma hora e meia, basicamente o mesmo tempo de um filme. Depois o formato do episódio também é semelhante ao cinema, tendo sempre um início, meio e fim para cada história sem continuidade para o próximo episódio. Algo semelhante ao que acontece em Sherlock. De modo geral, os episódios funcionam como tramas independentes. Digamos que o link principal entre os episódios é a vida pessoal do protagonista. Mesmo assim, quando terminei o primeiro episódio fiquei tão impressionada, senti que tinha acabado de ver um dos melhores filmes de suspense dos últimos tempos. Fiquei com uma vontade louca de continuar assistindo os outros episódios. Essa é a vantagem da série, saber que sempre tem mais.
4º – Elenco; o que dizer de Kenneth Branagh? Sou fã, se ele interpretasse uma árvore, seria a melhor. O papel do detetive Kurt Wallander caiu como uma luva para o ator. Ele dá tanta veracidade ao personagem, que não tem como ficar indiferente ao solitário detetive. No elenco ainda dá para conferir a participação de Tom Hiddleston (mais conhecido como Loki, vilão de Thor e os Vingadores). Sou suspeita para falar desse ator também, qualquer coisa que ele faça me convence. Aliás, não sei o que acontece com os atores ingleses, eles são sempre ótimos.
5º – Não é apenas uma investigação de assassinato; como uma boa história de detetive, começa com um assassinato, mas vai bem além, quando na mesma trama consegue envolver assuntos como corrupção, violência sexual, violência doméstica, ganância e poder. Dentro de cada episódio todos os elementos são interligados formando uma grande teia no final. Todos os episódios sem exceção são excepcionais.
6º – Kurt Wallander; ele é o cara. Além de ser um grande detetive, ele ainda é um homem que sofre os danos de um recente divórcio, não consegue relacionar-se com o pai e ainda tem problemas para adaptar-se ao mundo que o cerca. Sem contar o fato, que diferente de outros detetives, Wallander sempre acaba envolvendo-se emocionalmente em cada caso. Ele sofre pela menina que cometeu suicídio no primeiro episódio. Como pai, ele entende o sofrimento do pai que perde a filha no segundo episódio e assim por diante. Ou seja, mais humano impossível. Essa profundidade humana foi sem dúvida o que mais me atraiu na série.
Enfim, por que não aproveitar esse tempo de folga da sua série favorita e conferir um pouco de Wallander que é sem dúvida uma ótima pedida para aqueles que procuram uma surpreendente novidade? E são apenas seis episódios, não vai levar muito tempo.











