The Simpsons ensina como colocar energia para fora e amor para dentro.

Spoilers Abaixo:

Uma das coisas mais incríveis dos seres humanos (ou pelo menos da maioria dos cidadãos que conheço) é a imensa aversão ao trabalho que possuímos. Tente-se colocar na posição de Homer em “King-Size Homer”, onde ele tem a possibilidade de realizar seu trabalho, sendo este resumido a digitar “Y” ou “N” em um computador e não fazer mais nada. Lembre-se que os riscos à saúde não existem aqui e o único desafio que o personagem tem diante de si é ficar extremamente acima do peso, o que é faz com que a questão da aparência entre em jogo. Sinceramente, eu tomaria uma decisão meio semelhante à que Homer toma no episódio: engordar propositalmente apenas para conseguir uma licença médica e “trabalhar” em casa.

O modo de agir do personagem ao longo do episódio é facilmente admirável e fácil de engolir porque, querendo ou não, todos nós temos certa aversão ao trabalho, existe aquela preguiça que bate depois de muito tempo seguindo uma rotina que a série brinca de maneira fenomenal durante o episódio ao utilizar algumas piadas já batidas em relação à obesidade como quando Homer tenta impedir o desastre nuclear, mas não é capaz de teclar os números no telefone porque seus dedos tornaram-se gigantes, algo que seria babaca nas mãos de um roteirista que não sabe o que faz, porém, possui importância fundamental para que o público sinta compaixão pela situação de Homer tentando impedir a explosão nuclear que sua preguiça construiu. Todas as piadas desse episódio não são responsáveis apenas para causar uma mera gargalhada*, elas funcionam como um pequeno pacote fechado que acumula diferentes tipos de humor com um valor cínico que é difícil de ser alcançado e que é aberto quando Homer rouba um caminhão de sorvete e invade a usina em uma sequência final que só ganha o efeito hilário que possui graças a maneira que o episódio se desenvolve.

* Ok, ok. O Burns dando uma de instrutor nos exercícios dos funcionários é algo que foge isso que disse agora. Entretanto, é perdoado graças aos exercícios ridículos demonstrados aqui.

Isso passa meio despercebido porque essa série está no ar há muitos anos, mas a primeira década de The Simpsons é um dos conjuntos mais divertidos e consistentes já produzidos. Um dos grandes trunfos disso é o dom que a série tem em trabalhar com personagens como Homer e Bart. O primeiro tem como característica principal a sua gigante idiotice, que condiz perfeitamente com o seu tamanho no episódio. O segundo possui um desaforo incrível que ao ser juntado com a babaquice de Homer cria momentos como a montagem que trata da mudança de dieta dele, algo tão cínico e tão errado que apenas esses dois personagens conseguem trazer de forma hilária.

É interessante observar como as piadas vão alternando ao longo dos momentos do episódio. Enquanto Homer e Bart estão perseguindo o peso “ideal”, o roteiro não se contenta em perseguir as piadas óbvias, ele coloca para fora o quanto absurda é aquela situação e o quanto Bart é semelhante a seu pai ao revelar seu desejo de fazer a mesma falcatrua para não trabalhar no futuro, enquanto vemos o lado invejoso de Homer quando ele se imagina relaxado enquanto Flanders está completamente destruído. As piadas sutis também são bem colocadas aqui, utilizando o efeito surpresa para arrancar algumas risadas no momento em que a barriga de Homer fica pendurada no porta toalha e obstrui a medição da balança.

Em outro momento, “King-Size Homer” entrega tudo aquilo que é esperado de um episódio desse tipo: piada com gordinhos! O roteiro cumpre seu objetivo de transformar Homer em um verdadeiro underdog ao ser humilhado no cinema graças ao seu peso e ao fazer Marge desabafar em relação a sua falta de atração por ele, adicionando ainda mais para que o próximo ato se dedique a sua vitória depois de tanto sofrimento, algo feito pela primeira vez na história da televisão. Entretanto, o maior acerto aqui é a maneira como a série trata toda a situação com a questão visual, a simples quebra da cama, a compra das roupas gigantes (uma das piadas mais engraçadas da série) e a maneira como ele utiliza a bengala são boas piadas utilizadas da maneira correta, seja encapsulando a raiva do personagem (a bengala) ou explorando a naturalidade com que ele encara a situação em que está (as roupas gigantes, confortáveis e coloridas e sua postura diante da cama quebrada).

Como você pode ter percebido, “King-Size Homer” é um episódio que sabe trabalhar com a previsibilidade de forma incrível, e os seus últimos momentos são a prova disso. É uma pequena narrativa de um gigante obeso tentando salvar uma cidade deixando para trás mais destruição do que o que seria causado pela explosão nuclear, cheia de contrastes que são bastante engraçadas graças à ironia que adicionam ao pânico. O ritmo de pressa atribuído nas últimas cenas contrastam perfeitamente com a dificuldade de Homer de chegar até a usina, o que causa mais desespero no personagem que a acumula até chegar ao ponto de… tampar o sistema de ventilação com sua bunda gigante e evitar Chernobyl 2.0. Um final perfeito para um dos melhores episódios já produzidos por essa série.

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Continuem mandando dicas de episódios que vocês queiram ver aqui na coluna Flashback. O leitor Richard Mingoti sugeriu no flashback anterior algo sobre Lost ou Deadwood. Já estava nos meus planos escrever algo sobre Lost e o colega Guilherme Inojosa prometeu que escreveria algo sobre um episódio de Deadwood. Conclusão: Enviem dicas que estamos escutando!

Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas. Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios. Espero que vocês gostem.

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