E aí? Prontos?

Spoilers Abaixo:

Logo antes de encerrar uma temporada, é necessária a confecção de um episódio que engatatilhe todas as tramas, atingindo o clímax de todas elas, para que no season finale sejam resolvidas de maneira livre, sem precisar desperdiçar tempo trabalhando-as. Quando essa situação envolve o final de uma série, essa necessidade é ainda maior, principalmente pelo fato de o series finale possuir praticamente a obrigatoriedade de ser emocionante, eletrizante, e coerente. Por isso, o episódio que antecede esse evento possui uma função narrativa muitas vezes mais importante que o próprio, exatamente por semear todos os acontecimentos seguintes. Por esse motivo, Chuck vs. The Bullet Train surge como um grande fator para que o final de Chuck seja marcante.

O episódio começa alguns dias após o sequestro de Chuck, mostrando Sarah e Casey tentando salvar o nerd, em um trem-bala no Japão. Ela, desacostumada com a presença do Intersect, tem uma quantidade enorme de flashes, o que preocupa Ellie e Devon, que estudam os motivos do supercomputador ter fritado o cérebro de Morgan. Chuck, ao saber do acontecimento, mostra preocupação ainda maior, principalmente após Sarah perder o controle de máquina, precisando ficar vendada para evitar novos infortúnios. Enquanto isso, Alex é sequestrada pelos homens de Quinn, o que complica o andamento das coisas no Japão. Para piorar, Jeff e Lester voltam a desconfiar dos estranhos acontecimentos dentro da Buy More.

Um dos pontos mais interessantes de Chuck vs. The Bullet Train é o fato de o vilão da temporada finalmente aparecer de forma contundente, ganhando imensa importância para o final da série. E o curioso é que Nicholas Quinn não é esse vilão, servindo apenas como um artifício dos roteiristas para provar ao espectador o verdadeiro antagonista não apenas da temporada como de toda a série. Trata-se do Intersect, que se torna um excelente exemplo de como as coisas raramente são o que parecem. Aliás, a importância do supercomputador para a série é tanta que seria um pecado Chuck terminar sem que ele possua imenso destaque. Além disso, a saída encontrada por Josh Schwartz e Chris Fedak é inteligente, transformando o elemento que deu vida à série no vilão que dará fim à mesma, criando uma rima temática interessante e até irônica.

É claro que Quinn também se apresenta como um bom personagem, revelando-se como um vilão esperto e cheio de recursos, sem, no entanto, tornar-se uma figura caricatural como Volkoff em vários momentos da quarta temporada. Graças a ele o episódio ganha em tensão, principalmente pelo fato de ele possuir uma característica importante para a série: a ausência de escrúpulos. É interessante como esse maniqueísmo funciona dentro do universo de Chuck, e como a série peca quando tenta fugir dele. Isso é prova de que nenhuma técnica de construção de personagens ou roteiros é necessariamente ruim, desde que seja aproveitada de maneira satisfatória. Também é impressionante como existe uma imensa quantidade de recursos que só funcionam em uma série como Chuck, o que ajuda a torná-la única.

Mas o grande foco do episódio é mesmo o relacionamento entre Chuck e Sarah. Procurando a todo tempo atacar o espectador com cenas sobre planejamento do futuro e esperança, o roteiro constrói de forma engenhosa a tragédia que ocorre nos minutos finais, tornando-o extremamente relevante e real, conseguindo com incrível eficiência imergir o espectador no drama vivido por Chuck, criando uma tensão bem executada e até cruel com o público, que não esperava por isso. Além disso, a cena em que os dois conversam sobre as qualidades do Intersect, em um dos melhores momentos do episódio, além de um dos poucos momentos de humor dentro do trem-bala.

Mas não é apenas o Team Bartowski que se envolve com os problemas criados pelo Intersect e Quinn. Todos os personagens se mostram importantes para a trama, em uma inteligente decisão de não separá-los para o final da série. Assim, ainda que alguns momentos soem artificiais até mesmo para Chuck, como a criação de uma “Medicina Intersectiana” por Ellie e Devon, o episódio é feliz em integrar bem as histórias, evitando que algum dos personagens fique deslocado, exceto talvez por Big Mike. Além disso, finalmente Alex possui alguma função na série que não seja o romance com Morgan ou o processo de humanização de Casey.

O grande acerto na integração das tramas está no aproveitamento de Jeff e Lester, que há tempos apareciam deslocados, perdendo inclusive sua função de alívio cômico da série. Por isso, é impressionante que Schwartz e Fedak consigam trazê-los de volta não apenas para isso como conferindo importância para a dupla na trama principal. Com isso, os diálogos entre Lester e Casey mostram-se particularmente inspirados, bem como a maneira encontrada pelos dois para resolver o problema, armando-se, quase literalmente, até os dentes, contrariando todas as ordens do coronel, mas solucionando a situação de maneira igualmente, se não mais, eficiente.

Além de construir um grande panorama para o encerramento da série, Chuck vs The Bullet Train o faz de maneira sempre orgânica, fluindo sua narrativa com a mesma leveza vista em seus melhores momentos, como o fantástico Chuck vs. The Other Guy. Além disso, o clima de tensão é extremamente bem aproveitado, crescendo ao longo do episódio, e estourando ao final deste, como uma forma de deixar o espectador aguardando ansiosamente pela próxima semana, em que Chuck se despedirá de seu público. Novamente, não acredito que a série terminará com algo diferente de um final feliz, mas é inegável que as expectativas construídas pelos roteiristas tenham atingido o nível esperado para essa última temporada, ainda que isso tenha demorado um pouco. Por esse motivo, Chuck vs. The Bullet Train se torna um nome perfeito para o episódio, já que a história se desenvolve em alta velocidade, sem sair dos trilhos uma vez sequer.

Assim, torna-se impossível que o final de Chuck não seja, no mínimo, emocionante.

@GabrielOliveira

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