Richard Gadd é aclamado pela criação de “Half Man”, mas até que ponto o extremo drama e violência dos roteiros serve aos propósitos do desenvolvimento e não do choque? 

 

Em 1940 o escritor Thomas Mann lançou um livro chamado As Cabeças Trocadas, que funciona como uma análise atemporal da relação cronicamente dramática que o ser humano tem com a autopercepção. Nessa história, Shridaman é um homem franzino, descrito como fraco, mas que possui grande inteligência. Seu melhor amigo se chama Nanda, e ele é forte, robusto, mas intelectualmente limitado. Ambos se apaixonam por uma mulher chamada Sita, que fica dividida entre a mente de um e o corpo do outro. 

A história começa de verdade quando Shridaman cansa de existir sonhando com uma aparência que não pode ter; e se mata. Seu amigo dá de cara com a situação e mata-se também. Os dois cortam as próprias cabeças. Sita fica desesperada quando descobre o que aconteceu e pede ajuda aos deuses. Seu pedido é concedido, mas na pressa para cumprir o ritual, ela troca as cabeças dos dois homens. O intelectual Shridaman tem sua cabeça colocada no corpo forte de Nanda. E a cabeça de Nanda é colocada no corpo franzino de Shridaman. 

A partir daí o livro começa um debate constante sobre quem é dono da identidade de um indivíduo – sua cabeça ou seu corpo? – e sobre como nem sempre a cabeça de uma pessoa está preparada para ter seu desejo atendido. Todos nós já desejamos em algum momento nos livrar de quem somos para experimentar ser o outro… e algumas vezes a busca pela paz da própria identidade se torna impossível. A coisa mais aterradora sobre o livro de Mann e sobre a série de Richard Gadd é confirmar que o trauma pode trazer consigo a rejeição ao simples ato da existência. 

Richard alcançou prestígio e fama mundial com a minissérie Bebê Rena, que contava a história de um comediante que passou a ser perseguido por uma mulher com quem ele simplesmente conversou no bar em que trabalhava. Não só a história da perseguição era autobiográfica, como também o entorno pessoal do protagonista. Richard colocou na série todo seu histórico como vítima do abuso e do vício. Ficou claro que ele tinha uma capacidade notável de falar do trauma por uma perspectiva próxima e esclarecedora. 

Quando Half Man (Pela Metade aqui no Brasil) chegou à HBO, descobrimos que mais uma vez o trauma seria o ponto de partida da nova obra de Richard. Postos frente a frente pelas circunstâncias ainda meninos, os irmãos Niall e Ruben não são unidos pelo sangue, mas criam um laço forte e disfuncional imediatamente. Niall é tímido, franzino, inteligente e retraído. Ruben é forte, seguro e bonito, mas é obtuso e violento. Niall esconde ser gay e quanto mais próximo está da masculinidade opressora do irmão, mais sua orientação vai sendo auto julgada como uma característica vexaminosa e fraca. 

Homens gays que viveram em ambientes opressores durante a infância e adolescência puderam se relacionar imediatamente com a série. Além dos sentimentos habituais de culpa e vergonha, os primeiros anos de desenvolvimento de uma pessoa homossexual são tomados de medo. Medo de admitir aquela característica que você acha que vai mudar para sempre a maneira como você mesmo e como as pessoas te verão; e que vai te expôr; vai te tornar um “alvo”; vai te vulnerabilizar perante o mundo. É como o medo de ver-se sem roupas no meio de uma avenida. 

Niall tem uma relação de afeto com Ruben; mas também tem pavor dele. Ruben sabe, e tira proveito. Niall também tem uma atração sufocada por aquela figura masculina de poder e sensualidade. Ruben sabe, e tira proveito. Nas primeiras horas da série, parece que esse será o “jogo” de Richard: falar sobre masculinidade tóxica; sobre como ela é protegida em todas as instâncias pela maneira como o mundo funciona (a mãe protege, o irmão teme, as mulheres desejam…); e sobre como ela pode se transformar na raiz de um trauma maior a longo prazo. 

E então, Ruben espanca e desfigura Alby, o interesse romântico de Niall. A partir daqui Richard adiciona mais uma camada à narrativa. O trauma que dita a história não é mais somente a dinâmica de masculinidade tóxica que se estabeleceu entre os irmãos (sim, porque a maneira como Niall trata as mulheres que o cercam também é tóxica). Agora estamos falando do trauma mantendo seu ciclo vicioso através da violência. O criador da série precisa estabelecer um cenário favorável ao que ele planeja para todos os episódios; a  maneira como a partir do trauma, nenhum dos personagens consegue deixar seus comportamentos autodestrutivos para trás. 

Richard Gadd e a Bebê Rena venceram um zilhão de prêmios ao redor do mundo. Aqui precisamos nos descolar um pouco da nossa relação emocional com a série e entender que a ética de se levar para uma plataforma mundial sua versão unilateral dos fatos era praticamente nenhuma. Esse reconhecimento positivo veio na esteira daquela boa e velha compreensão mercadológica de que “boa arte mesmo é aquela que explora o drama”. Quanto mais o protagonista de Bebê Rena era violentado, mais aumentava a resposta intelectual do público e da crítica sobre aquela história. 

É evidente que em alguma instância, essa também se tornou uma percepção de Richard enquanto artista. E nem só para ele mesmo, mas na maneira como ele seria veladamente cobrado de que seu próximo trabalho repetisse certos êxitos. Ele chegou a dizer em entrevistas que não queria interpretar Ruben, mas que foi cobrado pelos envolvidos na produção. De novo Richard; de novo trauma; de novo violência… Há uma dose de ego que fere a credibilidade do resultado final, sobretudo quando colocamos em perspectiva a maneira como Half Man chegou ao fim (atenção para spoilers adiante)

 

No decorrer dos episódios, Richard usa a resposta psicológica do trauma para justificar todas as ações dos personagens. E está certo. A série é sobre trauma; então faz todo sentido que eles tenham uma imensa dificuldade em interromper esses ciclos. E Richard vai fazendo Ruben e Niall avançarem mais e mais; até o ponto em que começamos a nos perguntar onde está a fronteira entre a coerência narrativa e o simples espetáculo da violência para fins de impacto dramático. 

A inteligente escrita do criador claramente só tem um único objetivo: chegar ao próximo extremo. E o resultado intrusivo disso é a série se tornando uma série sobre permissividade. Não importa que Ruben continue quase matando pessoas; ele ainda é “irresistível e charmoso”. Não importa quantas mulheres Niall continue enganando ou quantas vezes ele tenha sido responsável por inocentes sendo deformados; ele consegue até mesmo reconquistar uma das vítimas de sua covardia. Nenhum dos dois tem empatia nenhuma por ninguém mais… não o suficiente para abrirem mão dos próprios interesses ou admitirem seus erros. 

No final das contas, Richard Gadd não parece querer chegar a um amadurecimento para o universo que construiu. É como se ele estivesse dizendo: “olha, o trauma é isso aí; tudo se repete até que alguém morre”. E não é que isso esteja fora da realidade, mas essa premissa não só já foi representada exaustivamente na dramaturgia como também parece redutiva, incapaz de pensar em soluções que escapem da violência pura e simples. Àquela altura, não existe mais nenhum motivo para Niall aceitar passivamente que Ruben permaneça em seu casamento; ou para aceitar entrar um celeiro vazio e esperar que ele tire a camisa e enrole ataduras nas mãos como se estivesse se preparando para uma luta. 

Infelizmente, a forma como o grande segredo da paternidade do filho de Mona veio à tona também não foi nem um pouco coerente com anos e anos de medo total e absoluto das reações de Ruben. Aquela cena foi importante porque foi nela que descobrimos que Ruben foi abusado; que foi a partir desse ponto que sua personalidade se desenvolveu. Também foi uma cena onde vimos que ao dividir com o Niall o involuntário orgasmo no momento do abuso; foi rechaçado; calado; uma outra evidência infeliz de que nenhum dos dois parecia capaz de funcionar como antídoto recíproco. 

E tudo bem… mas, a ação avança mais um pouco e o roteiro decide que sim, que um deles pode “quebrar o ciclo”. O casamento entre Alby e Niall parece o último ato de permissividade desenfreada sugerida pela história; e de certa forma, a morte de Niall no final pode até mesmo ser encarada como o livramento de um destino apavorante: estar, de que forma fosse, relacionado aos tóxicos irmãos. 

Contudo, o último embate entre eles soou como uma alternativa fácil; a consagração do oportunismo dramático de uma trama pautada na catarse pelo choque. Mas, então, o que poderia ter sido feito? Não é nosso papel dizer. Richard Gadd tinha a história que queria contar nas mãos e suas decisões foram apoiadas por esse plano. Half Man é extremamente bem escrita; bem atuada e dirigida; e para muitos não existiria outra saída. 

Ao mesmo tempo… se a força criativa de Gadd está tão voltada assim para o trauma e suas consequências, me surpreende a ausência completa de esperança. Mais do que vencer o trauma, todos foram vencidos por ele. Agentes, vítimas e permissores. Se foi isso que ele quis dizer, missão cumprida. Se também pareceu um pouco vazio? 

Absolutamente. 

 

“A ventura terrestre, a satisfação dos desejos que cabem à grande maioria das criaturas mortais sob as condições da ordem, da lei, da piedade e da ética são módicas e reduzidas. Em toda parte, fulguram proibições e invencíveis escrúpulos. Privações, renúncias, compromissos ditados por emergências, eis o destino dos seres humanos. Nossa vontade não tem limites, mas a realização delas fica terrivelmente restrita. O insistente “se eu pudesse” choca-se a cada instante com o duro “impossível”; e é o sóbrio “se contente” que nos ensina a vida. Alguma coisa nos é outorgada; muita coisa nos negam e, via de regra, a esperança de que um dia o que nos foi negado possa ser concedido, permanece um sonho.”  THOMAS MANN, “As Cabeças Trocadas”

 

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