Andy Muschietti demonstra domínio criativo e deixa evidente que Pennywise ainda tem muitas “palhaçadas” para fazer.
Stephen King é um escritor com duas grandes reputações: ser o maior escritor de horror do mundo e ter sérios problemas para escrever finais. Em uma quantidade considerável de suas obras, o sensacional desenvolvimento de tensões perde espaço para ideias mirabolantes que geralmente envolvem criaturas tão mirabolantes quanto. A recorrência desses finais era tamanha, que em determinado ponto de sua carreira ele lançou a saga A Torre Negra, que serve como uma espécie de “explicação” definitiva para todo esse “exagero”.
It, publicado em 1986, é um dos maiores clássicos do autor. Com mais de 1000 páginas, o livro elevou a uma potência macabra a figura ambígua do palhaço; e confirmou o talento do escritor para construir seu próprio Maine, cercado de mistérios e crianças espertas vitimadas pelo desconhecido. Esse livro foi – também – um dos mais discutidos quando o assunto é a maneira como King decidiu dar fim à entidade personificada no “palhaço dançarino”.
Em 1990, uma minissérie de sucesso adaptou o livro com Tim Curry na pele de Pennywise. Outro sucesso veio em 2017, quando o diretor Andy Muschietti usou um gordo orçamento e a boa era de adaptações do mercado para dividir a adaptação – finalmente – em duas partes. Bill Skarsgard deu para Pennywise uma personalidade bastante diferente. Enquanto Tim Curry fazia uma palhaço com uma energia muito mais “pedófilo à espreita”; Bill brincou com a ironia, criando um palhaço que usava mesmo a dança e o tom infantiloide para atrair suas vítimas.
Em ambas as adaptações o final é um problema. Ser fiel ao livro significava a deselegância do resultado; e não ser fiel ao livro deixaria os fãs revoltados. Exatamente por isso, a iniciativa de criar Welcome to Derry veio como uma oportunidade de voltar à mitologia da Coisa de maneira ainda mais criativa. A série estreou ciente de que o espírito da obra tinha que ser mantido; e de que mais importante que “explicar” Pennywise, era fazer com que a cidade de Derry fosse o personagem mais marcante dessa adaptação.
O cuidado foi percebido desde cedo. A “fórmula” do enredo não tem muito como fugir de si mesma, já que a cada 27 anos Pennywise age do mesmo jeito: ele acorda e usa sua capacidade de mudar de forma para instaurar o medo antes de começar a literalmente se alimentar dessa emoção. Vamos conhecer as crianças, vamos gostar delas, elas sempre farão parte de um grupo de “excluídos” e logo começarão a ter visões assustadoras. Então, para fugir da obviedade, um grupo de crianças foi apresentado e eliminado logo no primeiro episódio. Foi a maneira mais eficiente de mostrar que justamente por conhecer muito bem a fórmula, Muschietti era capaz de transgredi-la.
A Derry da série segue a ordem cronológica do filme e não do livro. São 27 anos para trás do ataque de 1989; ou seja, estamos em 1962. Como fio condutor, Muschietti escolheu a família Hanlon, que já conhecemos dos filmes. O pequeno Will chega com os pais em Derry porque seu pai, Leroy, foi trabalhar na base militar montada na cidade para fins que também tem a ver com o passado misterioso da cidade. As jovens Lily e Ronnie também serão parte fundamental da trama. Elas são as crianças que sobrevivem ao ataque do primeiro episódio; o que faz com que junto com Will, Ritchie e Marge, formem o grupo que realmente viverá os eventos da temporada.
Por alguns episódios dessa primeira temporada os roteiros tiveram uma certa dificuldade em lidar com a bifurcação da narrativa. Muschietti sabia como emular o melhor do estilo King na construção das relações entre aquelas crianças; e não demora muito para que elas se tornem absolutamente adoráveis. O núcleo militar, contudo, encontra sua razão de ser depois da metade do caminho, quando descobrimos mais sobre a mitologia da criatura e como ela se relaciona com o General Francis e com Rose, a líder de um grupo de nativos indígenas que conhece profundamente os segredos da cidade.
Em retrospectiva, pode parecer que o diretor tomou muitas liberdades a respeito do que constitui a mitologia de Pennywise; mas, de fato, Muschietti foi inteligente em adicionar elementos que estivessem apoiados no que o livro de King oferecia como background ou no que o próprio Muschietti havia estabelecido nos filmes. A série dava aos fãs a oportunidade de ver mais sobre o passado de Derry e sobre a própria origem de Pennywise. Com o verniz da HBO, o diretor conseguiu produzir episódios deleitosos para os fãs desse universo.
Constantemente, a linguagem gráfica muito exagerada típica da abordagem de Muschietti irritava os mais conservadores. King é um diretor que usa o suspense para desenvolver suas tramas, mas que no fim das contas, na maioria dos casos, está trabalhando com códigos do horror. Pennywise se apresentava de maneira grotesca no livro e o diretor do filme e da série estava apenas traduzindo essa linguagem para uma era onde os efeitos especiais podem servir a um propósito maior. Horror não é sobre sutileza. O horror é extremamente gráfico; e por muitas vezes, cômico.
Mesmo assim, Welcome to Derry passou por problemas na temporada. Enquanto sequências como a do Black Spot seguraram perfeitamente o peso dramático necessário, a infeliz sequência no cemitério da cidade quase colocou tudo a perder. Pobre em execução e longa demais para ser ignorada, a sequência não fez jus ao brilhante trabalho da equipe de criação da série, que entregou – em contrapartida – aquele final deslumbrante no lago congelado (outro grande exemplo de qualidade visual). A imagem de Pennywise carregando a fila de crianças pelo lago foi um dos momentos brilhantes deste primeiro ano.
Embora o elenco adulto fosse inteiro muito bom (especialmente Chris Chalk e sua versão competentíssima do nosso amado Dick Hallorann), a escalação correta das crianças era a garantia do respeito ao universo de King. Clara Stack antecipou seu futuro promissor como atriz dramática; assim como Amanda Christine e sua devotada Ronnie. Matilda Lawler cumpriu perfeitamente a transição de “inimiga” para amiga do grupo; e em apenas 1 episódio ao lado de Ritchie roubou nosso coração. Aryan Cartaya, inclusive, invadiu a série com toneladas de carisma; fazendo com que Ritchie se tornasse o mais querido dos muitos deus ex machinas da série.
Com um final potente, Welcome to Derry deixou o terreno pronto para que continuemos a descobrir mais sobre Pennywise. Muschietti foi bastante ousado ao inserir detalhes na mitologia que podem morder seus calcanhares mais adiante; mas usou easter eggs e aparições especiais na medida certa para garantir nosso interesse (com direito a uma cena pós-créditos no último episódio que me fez pular da cadeira). Sabemos que 3 anos foram planejados e que ainda vamos ver Pennywise agir em 1935 e 1908 (se a agenda de Bill Skarsgard permitir). É animador saber que os Muschietti provavelmente têm outros importantes trunfos em suas mangas.
Welcome to Derry usa em sua canção de abertura a música A Smile and a Ribbon; que com vocais angelicais e imagens perturbadoras, parece fazer uma provocação com a palavra ribbon (laço de fita). Um sorriso é especial, mas um laço é raro. Então eu serei especial e rara, porque usarei um sorriso e um laço no cabelo. Tanto no livro quanto nos filmes (e na série), é apenas o “laço” formado entre estranhos que garante a força contra Pennywise; esse monstro metamórfico que usa o “sorriso” como ataque.
Quando a série voltar “a luta será de outros”; mas o “laço” formado por nós (Derry, eu e você) é o que vai – segundo a tartaruga Maturin – “manter todos que acreditam… dentro de sua mente”.
Ansioso para retornar a Derry. Até lá.
















