Saudade dos tempos áureos de House.

Spoilers Abaixo:

A premissa de House sempre procurou ir além de simples procedurais, levantando questões relevantes sobre ética e comportamento humano, que sempre enriqueceram profundamente as histórias dos episódios. O problema é que quando uma série chega a uma quantidade imensa de episódios como House, é natural que os temas comecem a repetir. O que os responsáveis pela série precisam fazer, nesse caso, é contornar esse problema com diferentes abordagens de um mesmo tema, evitando que o espectador se canse de ver sempre a mesma coisa. Há tempos, House convive com um ou outro episódio que segue essa linha de raciocínio, o que inevitavelmente torna a fórmula da série desgastadíssima. The Confession não é um destes episódios, e engrossa a lista de episódios medíocres da temporada.

Com as voltas de Chase e Taub, House finalmente conta com sua equipe completa, e pode utilizá-la para tratar Bob, dono do único posto de gasolina de uma cidade pequena, e idolatrado por lá. Mas o problema começa no momento em que o paciente estava traindo a mulher, e logo ele decide confessar o erro para ela, assim como várias outras atitudes desonestas que vinha tomando ao longo dos anos, enganando a população da cidade. Enquanto isso, House promove um bolão no hospital sobre a paternidade das duas filhas de Taub, envolvendo inclusive Wilson. Já Chase tem a oportunidade de conhecer melhor Adams, além de lidar com Foreman, que suspeita que House esteja tramando algo.

A principal característica que empobrece The Confession é justamente o paciente da semana. O motivo é simplesmente o fato de Bob não possuir relação alguma com o restante do episódio, tornando-se sem propósito. Além disso, a decisão do roteiro em não promover confronto algum entre o paciente e House separa definitivamente as duas vertentes típicas do episódio. Dessa forma, os acontecimentos durante o tratamento do paciente poderiam se dar em qualquer episódio da temporada, e diferença alguma seria notada. Da mesma maneira, o personagem aos poucos recebe do roteiro uma característica terrivelmente introduzida, tornando Bob excessivamente superficial, que é exatamente a sede por confissões dele. É verdade que isso fazia parte dos sintomas, mas o interessante desfecho da história é desperdiçado pelo fato de os roteiristas não serem eficazes em conduzir a narrativa de maneira consistente.

Não é apenas com o paciente que House desaparece. O protagonista parece ausente em praticamente todas as cenas do episódio, mesmo nas que dão destaque a ele. Por ser um personagem complexo por natureza, a série sempre procura tratá-lo com extremo carinho, dando a ele a oportunidade de desenvolver sua personalidade (uma das poucas coisas que a série ainda faz de maneira excepcional). No entanto, House só aparece aqui nos momentos de humor, o que caracteriza um imenso desperdício do personagem.

O que nos leva a duas situações importantes do episódio. A primeira, o bolão organizado pelo médico sobre as filhas de Taub. Quando House foi preso, no final da temporada passada, ele ainda não tinha ideia do fato de seu empregado ter engravidado duas mulheres. Entretanto, ele aparece aqui já sabendo de toda a história, desperdiçando a oportunidade de fazer com que ele descubra já durante a volta de Taub. Da forma como o roteiro conduz a situação, o espectador tem a impressão de que House é praticamente onisciente. O outro momento capital é a misteriosa reforma que o médico ordena para seu escritório. Diferente da inquietante presença do departamento de ortopedia até o episódio anterior, os barulhos criados pelos pedreiros de House jamais conseguem ir além do incômodo. Além disso, o real propósito do protagonista, de criar mais uma maneira de perturbar Wilson, mostra-se ainda mais sem sentido que a ausência do personagem nos momentos críticos do tratamento do paciente.

Mas se The Confession apresenta muitos momentos ruins, não se pode dizer que nada de bom aconteça no episódio. A nova dinâmica da equipe, por exemplo, funciona muito bem, principalmente nos momentos em que Adams e Chase aparecem juntos. Aliás, o roteiro faz questão de deixá-los sozinhos inúmeras vezes, deixando evidente a possibilidade de os dois terem um romance em breve. Mas é a personalidade compatível dos dois que torna os diálogos envolvendo os médicos interessantes. Embora Foreman seja o personagem profissionalmente mais próximo de House, é Chase quem herda do chefe parte de sua anti-ética. E Adams é diferente de todas as outras personagens femininas da série, mostrando-se mais decidida e mais interessada nas soluções dos quebra-cabeças do que em aspectos morais, como Cameron e Masters, ou emocionais, como Thirteen, mas que não chega ao ponto desumano de seu chefe, como evidenciado na expressão de choque da jovem médica ao ouvir House comentando sobre seus seios e as intenções de Chase com ela.

Se a dinâmica do grupo em geral e de Adams e Chase funcionam, o mesmo não se pode dizer de Park e Taub. Todas as cenas envolvendo os dois possuem diálogos arrastados e repetitivos, o que se torna ainda pior quando a outra dupla da equipe se sai tão bem. O interessante é que Park não é uma má personagem, mas Charlyne Yi jamais consegue conferir a ela mais do que uma caricatura. Some-se a isso o fato de Taub já ser um personagem saturadíssimo e o resultado é o que vemos em tela, com os dois apagadíssimos (principalmente Park, já que Taub ainda participa de um plot principal).

Além de estabelecer uma nova dinâmica para a equipe, as voltas de Chase e Taub possuem como função um esperado conflito com Foreman, que finalmente tem a oportunidade de aparecer mais como diretor do hospital. Aliás, o fato de Chase não aceitar por inteiro a chefia de seu ex-companheiro de equipe deverá trazer momentos interessantes nos próximos episódios, quando Foreman procurar o amigo para obter informações mais sérias sobre House. Por isso, mesmo não tendo recebido do roteiro um plot exclusivo para ele, é inegável que Chase tenha causado um impacto muito maior do que Taub e suas duas filhas, prova de que o personagem ainda desperta interesse (para mim, é o personagem melhor construído da série depois de House e Wilson, mas isso é assunto para outro dia).

Assim, House dá mais uma mostra do desgaste de sua fórmula com um episódio que, mesmo acertando em certos pontos, jamais consegue deixar de ser mediano. Se as coisas continuarem dessa forma, seria mais interessante encerrar a série enquanto ainda for possível um final digno do que House representa.

Obs: Neste e nos próximos dois episódios o Tiago não poderá escrever as reviews da série. Por isso, eu o substituirei nesse período. Portanto, não se preocupem. Logo ele estará desfilando seu talento por aqui novamente.

@GabrielOliveira

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