Cinco episódios depois e o documentário mais esperado dos últimos anos se torna também o mais frágil.
No mundo do entretenimento há duas grandes forças motoras: a imprensa e os fãs. Nem sempre essas duas forças estão na mesma correnteza, mas, são elas também as facetas da fama mais difíceis de administrar. A imprensa ainda pode ser calada com algum empenho, mas os fãs – uma vez virada a ignição quase ritualística – se tornam o organismo faminto que anseia por ter sempre suas expectativas satisfeitas. Então, exatamente por isso que bons profissionais acabam sempre por entender que em alguma instância e de alguma maneira, os fãs serão frustrados.
Pedro Bial é um desses que provavelmente sabia disso assim que tomou a decisão de documentar a riquíssima vida de Xuxa Meneghel. Xuxa talvez ainda seja o maior fenômeno de popularidade da história do país, e resida na memória afetiva de um número incontável tanto de fãs quanto de meros observadores. Ela foi apresentadora de um clássico infantil, vendeu milhões de discos, estrelou dezenas de filmes, teve namorados que foram ídolos tão grandes quanto ela, viveu escândalos, mitos, rivalidades e ainda hoje, sob a luz dessa história relembrada, vira assunto em qualquer veículo, em qualquer estrada. E Pedro Bial… Pedro Bial resolveu contar tudo isso em somente cinco episódios.
Talvez a famigerada edição de Xuxa: O Documentário tenha começado errada nesse ponto. Por quê apenas cinco episódios? A resposta pode ser simples: o documentário tem cinco episódios porque foi assim que Bial organizou a história que ele quis contar. Tudo em arte é ponto de vista; e um documentário, por mais jornalístico que seja, é arte involuntária (suas bases flertam com a dramaturgia). A “escaleta” montada por Bial previa a necessidade de apenas 5 blocos, onde se espremeriam décadas de uma carreira brilhante, em uma confusão de tópicos contraditórios, que podem ter partido de uma decisão estilística, oriunda daquele mesmo ponto de vista, enfraquecido pela total superficialidade de sua natureza.
A fragmentação de todas as linhas temporais da vida de Xuxa confundiu mais que explicou. As promessas de um documentário que não fosse todo uma celebração da vida da apresentadora, pareceram uma mentirinha sapeca para enganar os amiguinhos do parque… A expectativa de ver polêmicas e mitos sendo debatidos foi frustrada pela pressa em citar o máximo de coisas, sem perder muito tempo em absolutamente nenhuma delas. Ou em algumas que não tinham nenhuma importância. Nada além do já sabido veio à tona; e o que veio à tona nem sempre fez bem à razão prímeva desse projeto.

O Fenômeno
Esse crítico que vos fala assistiu ao primeiro episódio do documentário em um evento especial, para convidados, onde Xuxa estava presente. A ocasião em si já era uma provocadora natural de emoções e mesmo que essa estreia já estivesse tomando meu coração, era perceptível que havia algo de frágil na forma como essa primeira hora engolia a carreira de Xuxa como se o almoço fosse acabar em 5 minutos. A edição passou pelo programa de TV como um jato; ficou 5 minutos na carreira musical e contou o surgimento das Paquitas meteoricamente.
Poucos detalhes interessantes sobre uma quantidade imensa de outros detalhes… O Xou da Xuxa ficou no ar de 1986 a 1992… e essa passagem por si só sustentaria um ou dois episódios inteiros do documentário. Os LP’s de Xuxa, suas capas, seu repertório, as canções clássicas, as Paquitas, os Paquitos (esses totalmente esquecidos), os filmes, os erros… E em parênteses, um pouco das relações pessoais que surgiram (Senna) e que cresceram (Marlene) durante esses anos de consolidação da apresentadora. Duda Little foi esquecida, Patrícia Marx (que tinha canções nos primeiros discos de Xuxa) foi esquecida e 90% do grupo de Paquitas (incluído aí as que não estão do lado positivo dessa história) ficou de fora. O nome disso pode ser “decisão”, mas não pode nunca ser chamado de “apuro jornalístico”.
O que o documentário fez com a carreira cinematográfica dela foi uma lástima. Lua de Cristal – um verdadeiro símbolo otimista tatuado na cultura pop nacional – deu à sua diretora meros segundos de tela. Julia Lemmertz poderia ter coisas interessantes a dizer; decisões estilísticas consideradas cafonas para a época, agora são cultuadas como vanguarda (e incluímos aí o espetacular Super Xuxa Contra o Baixo Astral, que não foi nem mencionado; perdendo uma grande oportunidade de celebrar o gênio Guilherme Karan). Os filmes da era pós-Xou, parece que ela nem fez. O destaque dado à “Amor Estranho Amor” era necessário, mas a conversa com o agora homem Marcelo Ribeiro (que chegou a fazer filmes adultos apoiado nesse tema) foi – assim como todas as outras conversas em dupla – monocórdia. Nada de Angélica, de Mara, de Eliana… nada sobre a construção machista de rivalidades.
A edição do documentário cometia erros amadores, como mostrar na tela uma imagem da fase Xuxa Parque enquanto a história narrada era da fase Xou da Xuxa; ou mostrar uma paquita falando que quando começou havia apenas 4 ajudantes e a imagem na tela mostrar uma cena onde contamos 6. Foram 8 minutos gastos para contar a carreira cinematográfica e 18 falando – e falando errado – da carreira nos EUA. A narração falava da brutal venda dos LP’s do Xou da Xuxa e lá estava na tela a capa de O Sexto Sentido, lançado anos depois do Xou ter acabado. O fim do programa original foi mostrado episódios depois, num outro contexto. O que veio depois na carreira da apresentadora ganhou uma edição de 10 segundos no episódio final. “Decisão” sim, “apuro” não.

Pessoa
É curioso ver como a produção do documentário pareceu querer incutir na organização uma espécie de diretriz das narrativas fictícias contemporâneas, onde tudo é fragmentado e “encaixável” de acordo com a perspectiva do espectador. Mas, usar o método dentro de uma documentação histórica parece extremamente bizarro. A vida privada de Xuxa não foi centralizada, tampouco. No primeiro episódio, seus anos antes da Globo foram bem contados; mas o trabalho da edição após isso seguiu caótico e desnorteado.
O namoro com Pelé aparece no primeiro episódio, depois um pouco mais antes de introduzir Senna; e de novo no último, quando Luiza Brunet,- que deveria ter aparecido lá no primeiro – surge. Aliás, Angélica, que poderia ter falado com Xuxa sobre tanta coisa, falou três palavras e sumiu. É possível entender que Brunet apareceu quando Xuxa resolveu falar dos abusos; mas se isso aconteceu na época de modelo, por que não construir seu perfil progressivamente; o que tornaria algumas das passagens seguintes mais claras à luz dos abusos sofridos antes da fama.
O namoro com Senna não resolveu e nem admitiu os hematomas que a narrativa dos acontecimentos deixou. Adriane Galisteu, namorada oficial do piloto, foi tratada como uma oportunista messalina pela família conservadora do moço e Xuxa, que havia desistido da relação, tratada como “o grande amor”. A irmã de Senna alfineta Galisteu, Xuxa diz que estava pronta para pedir para voltar mesmo com ele praticamente casado… e tudo fica como estava antes do documentário: deselegante e mal resolvido.
No episódio 3 (onde boa parte disso tudo é resumido), Pedro Bial e sua equipe tomaram a inexplicável decisão de juntar os amores de Xuxa e o nascimento de sua filha, com o incêndio no Xuxa Parque. Mais para frente, a conversa com Marlene entrou no mesmo episódio que falava da mãe da apresentadora. E nos dois casos, a transição de uma coisa para outra foi grosseira e até mesmo um pouco insensível. Aos poucos, a vida da Rainha foi soando um sarapatel descontrolado de acontecimentos desconexos. Contudo, nada foi mais equivocado do que o que aconteceu no episódio quatro, em que Marlene e Xuxa foram finalmente colocadas frente a frente.

Vítima
Por anos, a relação entre Xuxa e Marlene Mattos foi um dos maiores mitos a respeito da apresentadora. Entre acusações de danos financeiros, abuso de poder e assédio moral, a ausência de Marlene na vida profissional de Xuxa, por 19 anos, nunca diminuiu o interesse das pessoas pelo que teria causado a derradeira ruptura entre elas. Natural, então, que o reencontro fosse ser o carro-chefe do projeto, que não se acanhou na hora de vender a cena entre as duas como a cena mais esperada do ano. Mais uma vez, Pedro Bial traía expectativas.
A figura de Marlene cresceu na mídia nos últimos tempos por causa da própria Xuxa. A Rainha não se cansava de citar o nome da ex-empresária em todas as entrevistas que dava. Marlene pipocou em cortes de podcast por toda internet, mesmo sem nunca ter dado uma só entrevista. A narrativa estava pronta: Xuxa precisou se libertar das correntes tóxicas dessa relação, mas, no processo, os resíduos ganharam destaque demais e quando Marlene entrou naquele teatro para esse reencontro, ela já chegou munida de duas vantagens máximas.
Sua personalidade cínica e irônica veio a calhar. Lapidada através dos anos, afiada, e que no mundo vigente, ganha as honrarias da web como uma personalidade “cool”. O deboche nunca foi tão celebrado. Além disso, Marlene – como todo algoz – em poucos momentos parece compreender a natureza violenta de suas falas e atitudes. A dinâmica entre ela e Xuxa sempre foi de dominância, o que, é claro, aflora do meio daquela sala como se o passado tivesse retornado à galope. Xuxa se encolhe, trava, se desarticula. Marlene faz piada, tem um ar jocoso, argumenta com ironia; diz “você deveria ter morrido jovem” com um sorriso, esmagando a narrativa de Xuxa com a elegância de um lince.
O mais curioso é que nos episódios anteriores, a edição decide não construir a narrativa desse reencontro e “salva” Marlene de muitas das histórias e opiniões que teriam tornado a personalidade dela mais clara, mais rastreável, fazendo que sua maneira condescendente de falar com Xuxa fosse imediatamente desmascarada. O reencontro não tem mediação, não tem provocação, não tem organização. Marlene está claramente se divertindo e Xuxa vai esvaziando, incapaz de se impor, fazendo com que os discursos dos anos anteriores sobre a ex-amiga passassem por um novo escrutínio. Diante da IMENSA parcela de público que está ansiosa para culpar a vítima, Xuxa se tornou a “mentirosa” ou aquela que “não entendeu que aquilo era necessário”; e Marlene se tornou um novo ícone, uma dama do deboche, a nova estrela dos altares virtuais.
Em uma passagem específica, a empresária diz que precisou ser implacável porque o mundo onde ela estava inserida era um mundo de homens, um mundo machista; e que ela não teria conseguido o que conseguiu se não fosse por seu pulso. Xuxa não retrucou, Pedro Bial não retrucou e pairou no ar a hipocrisia dessa declaração. Tanto quanto o mundo machista que dizia combater, Marlene Mattos tratava sua estrela como uma loira-burra manipulável; uma vestal de beleza clássica que precisava que lhe dessem voz e raciocínio; uma imagem que se não seria nada sem comandos. Ali, naquele encontro, ela fazia a mesma coisa; ignorando quaisquer sentimentos de Xuxa sobre a situação e sendo o porta-voz definitivo da voz de uma nação de cínicos pretensiosos: é tudo mi mi mi.
Por fim, o último episódio só seguiu a regra maluca estabelecida pela edição, de misturar água e óleo. A época do abuso sofrido por Xuxa foi misturada com Juno; e nada soubemos que já não soubéssemos. Foram 5 episódios de pinceladas em um passado calculado; cinco semanas desperdiçando ângulos… foi a lástima de um séquito de seguidores ávidos pela verdade da história, mas também inebriados de expectativas. Fomos traídos e o sonho que sempre vem para quem sonhar, não veio. Esse não foi um projeto que honrou ou representou Meneghel como ela merecia. Mas, de certa forma, Xuxa: O Documentário encerrou sua temporada como um documento oficial real deve ser: de puro júbilo à Monarquia.















