A franquia Missão: Impossível nunca negou suas origens fantasiosas. Desde a série que deu origem a tudo até os longas estrelados por Tom Cruise, a narrativa sempre foi carregada de um tom extravagância, resquício das aventuras de espionagem dos anos 60 e 70. 

O ponto alto desta máxima foi Efeito Fallout, longa anterior, que se tornou o ápice das aventuras vividas por Ethan Hunt e sua equipe, misturando com primor o realismo cru de suas cenas de ação com as licenças criativas de agências secretas e apetrechos ultra tecnológicos que a humanidade não está nem perto de criar (ainda).

Restou para Missão: Impossível – Acerto de Contas Parte 1 (Mission: Impossible – Dead Reckoning Part 1, 2023) a ingrata tarefa de continuar à altura dos feitos da entrada anterior, assim como também superá-la, entregando ainda mais ação e acrobacias. 

No sétimo filme da franquia, Ethan Hunt precisa lidar com o inimigo mais poderoso que ele já enfrentou. Sendo perseguido por uma força onipresente, pelo seu próprio governo e também por figuras de seu passado, Hunt precisa correr contra o tempo para eliminar uma ameaça global sem precedentes. A questão é que quanto mais ele se aproxima de seu objetivo, maiores são as consequências, colocando não só a vida dele em risco, mas também daqueles a quem ele ama.

O roteiro do longa, escrito a quatro mãos, continua fazendo o que tornou a franquia um sucesso: misturar sequências de ação de tirar o fôlego com momentos de drama e tensão, sem esquecer de alguns respiros de leveza aqui e acolá.

A questão é que nessa tentativa de sempre superar o que foi feito anteriormente o filme acabou se perdendo pra megalomania, tornando o personagem de Cruise quase um super humano. Ao se utilizar do hot topic do momento para o vilão da trama, a inteligência artificial, a narrativa meio que estabelece que somente uma entidade onisciente, onipresente e onipotente (praticamente divina) é capaz de barrar Hunt e fazer com que ele realmente tenha que suar pra conseguir escapar dessa vez. 

Isso dá vazão para que o longa pise no acelerador e apresente os stunts mais insanos em tela. A megalomania não é só do roteiro, mas também do próprio Cruise, que insiste em realizar as próprias façanhas acrobáticas, não importando o nível de risco ou perigo para realizá-la. 

Mas se Cruise sempre se esforça para ir mais longe, a decisão de dividir a história em duas partes acaba esvaziando não só o esforço do ator, mas também a própria razão de existência do filme. Ainda que apresente perdas significativas na equipe da IMF, de resto a tensão se encontra somente na trilha sonora que insiste em carregar um senso de suspense a cada segundo, quando sabemos que nada daquilo terá uma consequência real. Afinal de contas, ainda temos uma segunda parte pra acompanhar.

Tudo bem que muitos dos espectadores vão assistir o filme pelas cenas de ação e lutas, mas a falta de lógica em alguns momentos é gritante, principalmente o que envolve Vanessa Kirby no terceiro ato do longa e que fica difícil de engolir como ninguém percebeu o óbvio, já que tudo é baseado num dos traços mais marcantes da atriz, seus característicos olhos azuis.

A escolha do vilão “humano” também não ajuda nessa empreitada. Esai Morales faz o que pode com Gabriel, um antigo inimigo de Hunt (que curiosamente nunca foi mostrado até então…) que retorna para dar trabalho ao agente secreto. Só que o papel tem uma aura tão caricata, tão forçada, que fica parecendo uma paródia dos vilões antigos do 007. Não sei se foi uma homenagem às origens da franquia, mas acabou se tornando um dos defeitos do filme.

Hayley Atwell é uma lufada de ar fresco como Grace, uma charmosa ladra que se envolve na teia de intrigas de Hunt e sua equipe e se mostra uma bem-vinda adição ao já estrelado elenco. As interações dela com Cruise carregam uma química palpável, o que torna até os momentos de humor prazerosos e bem inseridos na trama.

Alguns dos novos nomes, como Pom Klementieff e Shea Whigham devem ter mais destaque na parte dois, já que aqui servem apenas como cães de caça no rastro de Hunt, ela para o vilão, ele para o governo americano.

O diretor Christopher McQuarrie continua mostrando o que sabe fazer de melhor com Missão: Impossível – Acerto de Contas Parte 1, entregando cenas de ação cristalinas (onde tudo é discernível), momentos inspirados e novas e instigantes maneiras de colocar a vida de Cruise em risco. 

Mas, assim como em Vingadores: Guerra Infinita, a necessidade da continuação acaba tornando estes momentos genuinamente surpreendentes em apenas mais um passo até o derradeiro final. O que era pra ser uma missão impossível com começo, meio e fim acaba se tornando mais um filme de transição. Um meio agitado e frenético para o verdadeiro final.

*O Série Maníacos assistiu o filme a convite da Paramount Pictures Brasil

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
critica-missao-impossivel-acerto-de-contas-parte-1-e-um-agitado-e-frenetico-filme-de-transicaoMissão: Impossível - Acerto de Contas Parte 1 entrega cenas de ação cristalinas, momentos inspirados e novas e instigantes maneiras de colocar a vida de Cruise em risco. Mas a necessidade da continuação acaba tornando estes momentos genuinamente surpreendentes em apenas mais um passo até o derradeiro final.