
Só faltou a Madame Pomfrey dar as caras em Downton.
Spoilers Abaixo:
Finalmente Downton Abbey utiliza um episódio para realizar a junção dos dois elementos que estavam guiando a temporada até o presente momento: As tramas envolvendo Downton e o Hospital e as consequências que a guerra ocasionou em ambos. Um bom ponto de partida para juntar a introdução que havia sido feita das tramas com possibilidades do que pode acontecer daqui para frente.
O primeiro elemento interessante explorado é a situação dos membros da família em relação a todas essas mudanças, ao que antes era o lar deles se transformando em um refúgio. Como uma consequência disto, vemos Cora supervisionando cada elemento de como ficará a nova estruturação de Downton. Evidentemente, toda esta situação conseguiu expor o medo que a personagem vem sentido desde o início da série: O de um dia não poder mais chamar o local que ela morou durante tantos anos de lar. Elizabeth McGovern oferece uma excelente atuação, percebam o seu sorriso e olhar ao ser revelada que ela dividirá o posto superior a Thomas com Isobel. Um momento que por si só já valeria o episódio.
E o que falar da Condessa de Grantham tentando de todas as formas descobrir de que forma Lavinia e Carlisle estão ligados? A prova de uma personagem bem construída é quando você consegue ver, em um único movimento, vários motivos para ela ter tomado a mesma atitude: Seja para zelar pelo bem-estar de sua neta, a qual ela percebe claramente que continua apaixonada pelo primo, quanto pelo seu medo de ver o futuro Conde de Grantham casado com uma mulher da classe média liberal londrina. Diversas facetas que englobam um personagem muitíssimo rico, encarnado com perfeição por Maggie Smith. Por sinal, é curioso como Smith consegue em boa parte de sua filmografia atual fazer o mesmo papel de figura de autoridade e personalidade forte, mas ao mesmo tempo conseguir por diversas sutilezas estabelecer diferenças em seus personagens para não parecer mais do mesmo.
A conclusão desta trama, inclusive, foi um ponto alto da série e marcou a evolução de Mary desde o início da série. Os interessados voltem ao piloto e se perguntem se aquela garota egoísta iria tomar essa atitude ou simplesmente optar por utilizar essa informação para jogar Lavinia contra Matthew. Ela não é mais a mesma de antes, por também dividir um segredo que não gostaria que fosse espalhado e assim entender a situação que sua concorrente se encontra. Por ter sido muitas vezes ameaçada, inclusive pela própria irmã, ela sabe que se tiver que conquistar o coração do seu amado, é melhor que isso seja pelas suas próprias qualidades.
Por sinal, acho bem interessante o quanto o figurino diferencia Lavinia de qualquer outro membro da casa com sua roupa mais marcante sendo da cor verde. Justamente de ser um belo simbolismo de o que ela simboliza para Matthew: A esperança, seja de sobreviver a guerra para construir uma família como de seguir em frente com sua própria vida. Contrastando com as cores cinza e negra sem vida no figurino de Mary, refletindo sua personalidade que está visivelmente abalada por toda a situação, embora tente sempre conseguir formas de escapar disto e dizer que está bem. E como estamos falando de figurino, é notável que em todo capítulo utilizem algum pretexto para colocar Matthew no uniforme de cor vermelha, mostrando que mesmo ele estando em Downton ainda está marcado pelo derramamento de sangue que ocorre contra a Alemanha. Esta capacidade de transmitir simbolismos no figurino é o elemento que Downton Abbey consegue fazer melhor do que qualquer série na televisão e devemos parabenizar Sussanah Buxton que, mesmo não assumindo o posto neste capítulo, é a responsável pelo figurino de quase todos os capítulos da série.
Já Edith consegue pela primeira vez ter uma trama consistente que, mesmo em apenas algumas cenas, consegue mostrar que a personagem está disposta a se encontrar. Sua personalidade de garota meiga, exceto com Mary, e sem graça consegue se encaixar perfeitamente com a função de cuidar dos pacientes os ajudando a escrever cartas. Espero que esse seja o início da transformação de um personagem que, até agora, vem sendo tratado como uma espécie de muleta para o roteiro ter alguém na família que não gosta de Mary e possa às vezes perturbar sua estabilidade.
E é interessante como, no meio de tantas tramas, o roteiro consiga ter espaço para desenvolver um personagem que muitas vezes é tratado como periférico: Tom Branson. O seu radicalismo político e ódio à Inglaterra, devido à nacionalidade irlandesa, atingem o auge neste episódio e gera um momento de tensão no jantar. Uma cena que consegue ser orquestrada com perfeição apesar das expectativas do espectador. Branson não deve ser sacado tão cedo da narrativa, e um atentado político de verdade o faria independente de ser bem sucedido ou não, mas todo o trabalho de direção, roteiro, trilha sonora, atuações, é tão bem feito que por um minuto isso consegue ser esquecido e pensamos que, de fato, está para ocorrer uma tentativa de assassinato em plena Downton. Cena que consegue ilustra bem a qualidade dos diversos aspectos da série e dar gancho para tramas futura, sobretudo como Sybil irá agir sabendo do que ocorreu.
E assim, Downton Abbey consegue mais uma vez construir com competência as suas diversas tramas e nos mostrar os rumos que a temporada tomará daqui para frente. Existe como não adorar essa série?
Outras considerações:
-Cora engoliu muito fácil a ideia de Thomas ser o encarregado por Downton. Eu às vezes fico impressionado o quanto os Crawley fazem vista grossa para o caráter do personagem, mesmo quando os funcionários de confiança não o veem com bons olhos. Santa ingenuidade!
-Mesmo não aparecendo fisicamente no episódio, Carlisle teve dois papeis importantes na trama. Bom saber que o personagem está sendo utilizado com alguma função além de concorrente de Matthew, o que dá mais verossimilhança a ele.
-Não falei nada de Mr. Bates e Anna ainda, mas isso é por eu estar esperando que a trama se desenvolva melhor para poder comentar. Por hora, resta dizer que acho a química dos dois muito boa, sempre é bom ver o conforto em cena que Brendan Coyle e Joanne Frogatt possuem juntos, algo que só é equiparado a Dan Stevens e Michelle Dockery.
-Uma cena muito interessante foi aquela que os criados discutem Kerensky assumindo o poder na Rússia e o que acham disso. Em momentos como esse é que pode ser visto as pequenas sutilezas de personalidade de cada um, em decorrência de suas interpretações do fato e como agem diante dele.
-Gostei muito do primeiro trabalho de Andy Goddard no comando da série, da qual podemos destacar o momento que ele coloca Mary pequena na câmera diante da aparição surpresa de Matthew. Além de ter a sabedoria de dar destaque ao fato por colocar a personagem no canto superior direito da tela, o ponto que o espectador tende a dar mais atenção.














