Décima primeira temporada de AHS volta à Nova York de 1981 e usa de ferramentas críticas e apaixonadas para resgatar o surgimento de um horror constante.
Na virada do dia 19 para o dia 20 de Novembro desse ano, 5 pessoas foram assassinadas por um atirador no tradicional clube Club Q, em Colorado Springs, durante uma apresentação corriqueira da casa, que recebia, naquela noite, todo tipo de público (ainda que tenha ficado conhecida por ser um estabelecimento LGBTQIA+). É enervante perceber que ao mesmo tempo em que o mundo avançou na direção de mais aceitação, o ódio pela diversidade segue tão mortal como sempre fora. Algumas vezes a matança é direta, empunhada belicamente. Outras vezes, ela é indireta, silenciosa, negligente, como se ao passar por um precipício, você ignorasse as súplicas de alguém que estende a mão em busca de socorro.
Nos EUA, um dos maiores massacres causados por um atirador foi o que vitimou 49 pessoas na boate Pulse, em 2016. A boate também era voltada para a comunidade queer. Aqui no Brasil, logo no início do segundo semestre de 2022, mais de 3 milhões de reais foram cortados do orçamento direcionado ao tratamento gratuito de portadores do HIV. O país tem um dos programas mais completos do mundo, com atenção inclusive à prevenção da doença, com distribuição controlada de Profilaxia de Pré-exposição (PreP), que protege pessoas que vivem em situações de risco. O atual governo, contudo, considera que o HIV é “um problema para a pessoa e uma despesa para o Brasil”.
Fazer parte da comunidade LGBTQIA+ é viver em contraste. Ao mesmo tempo em que ela é responsável por transformações culturais históricas, ela também é constantemente tratada como uma “praga” que precisa ser dedetizada. Nos dias de hoje é mais difícil promover essas tentativas de extermínio sem ser rechaçado por grande parte da opinião pública e pelas organizações dos Direitos Humanos. Contudo, houve um tempo em que o mundo entendeu que a ira de Deus tinha sido finalmente lançada contra os “pederastas” em forma de um câncer; e que a humanidade seria “limpa” de uma vez por todas.
O ano era 1981 e especificamente no dia 3 de Julho daquele ano, o New York Times publicou sua primeira matéria informando sobre as mortes de 41 homossexuais em decorrência de um “raro tipo de câncer”. Por pelo menos um ano antes disso, a comunidade gay já vivia um clima de “julgamento”. Um serial killer chamado de The Last Call Killer dopava e desmembrava homens gays que conhecia em bares (era o apogeu da epidemia de serial killers nos EUA). Ao mesmo tempo, os homens caíam doentes, marcados com Sarcoma de Kaposi, sem entenderem como chegavam a tal ponto e sem nenhuma ideia de como encontrar cura. A cada nova mancha surgindo no corpo, mais era difícil negar que algo se espalhava malignamente entre eles.

A Nova York dos anos 80 era problemática… Apagões constantes aumentavam a onda de crimes, o calor era insuportável e grande parte da cidade vivia tomada de lixo, o que causava uma impressão de decadência e periculosidade. O HIV já estava circulando pelo mundo desde a década de 70 e as teorias para sua presença na sociedade já eram inúmeras. A mais difundida (de que chipanzés contaminaram humanos na África) acabou encontrando na figura do comissário de bordo Gaetan Dugas, o seu demônio definitivo. Gaetan foi durante anos considerado o “paciente zero” da doença, mas ainda que isso tenha sido desmentido, seu nome atravessou o globo como o responsável por ter feito com que o vírus viajasse do continente africano para outros continentes. Gaetan, ao que consta, teve mais de 2.500 parceiros sexuais e passava a doença para eles propositadamente. O HIV era o vilão do século, que confirmava os maiores preconceitos da sociedade caucasiana: tinha vindo da África e contaminava homens gays.
AHS:NYC
Não foi a primeira vez que Ryan Murphy falou sobre a negligência das autoridades com a comunidade gay. Em American Crime Story: The Assassination of Gianni Versace, Ryan recriou a jornada criminosa de Andrew Cunanan através de uma perspectiva dura: se não fosse a negação das autoridades a tudo que dizia respeito à comunidade gay, outras pessoas poderiam ter sobrevivido aos ataques. No entanto, embora as cenas que costuram essa premissa estejam lá, foi somente agora na temporada NYC de American Horror Story, que o showrunner foi fundo nessa questão.
Para isso, fazia sentido colocar como protagonistas dois personagens que estariam no centro dos acontecimentos: o repórter investigativo Gino (Joe Mantello) e o detetive Patrick (Russel Tovey). Dessa maneira, a história seria rastreada em seus pontos mais importantes, sem perder de vista a oportunidade de falar também de processos de aceitação. Patrick e Gino são um casal, mas o jovem policial foi casado e não assumiu sua homossexualidade publicamente. Os dois estão procurando respostas sobre os assassinatos que se acumulam e vivendo intensamente a cena gay obscura dos clubes sexuais clandestinos da cidade.

Desde que estreou, AHS sempre trabalhou a ideia do horror por uma perspectiva fetichista. A estranha união de códigos eróticos ao suprassumo da violência fez parte de temporadas como Murder House, Asylum, Coven, Hotel e 1984. Mas, nunca isso foi feito de uma forma tão intensa quanto agora, em NYC. Para começar uma “conversa” realmente honesta a respeito, era preciso admitir o limítrofe das relações de submissão e subjugação tão constantes na comunidade.
Essa é uma temporada que não “esteriliza” as configurações e assume o flerte entre prazer e dor, que até hoje aparece desfilando pelas redes sociais em forma de acessórios de couro, máscaras de cachorro e correntes. O sexo gay se exibe pornograficamente sem vergonha, entre cusparadas, tabefes e sufocamentos. Há uma atração latente pelo sêmen, pelo coletivo, pela quebra de decoro, pelo sexo urgente, pela heteronormatividade, pela brutalidade sem proteção, promovida por estranhos em carros estacionados em ruelas escuras. É o bareback com alguém que não se sabe o nome, a “roleta-russa” dos glory holes, matas fechadas, banheiros públicos e estacionamentos vazios… A homoafetividade ainda está lá, mas as raízes dessas necessidades eróticas são opressivas. Elas não estão ali para serem julgadas, mas tampouco negadas. É isso, também, que torna NYC uma temporada tão apurada quanto difícil.
Apesar dessa “agenda” sócio-política importante, ainda estamos diante de uma peça de entretenimento baseada em horror. Por isso, a caça ao serial killer ocupa boa parte dos episódios. Já sabemos que o time de Murphy sabe como conduzir esse tipo de trama. Embora o horror nessa temporada seja muito mais metafórico (ou não), os roteiristas tentaram fazer com que o gore do gênero, com muito sangue e muitas tripas, aparecesse na trilha de ataques do assassino. De forma muito inteligente, uma figura musculosa e usando uma máscara de couro, passeia pelos episódios como se estivesse relacionada aos ataques, até que percebamos, muito à frente, que essa figura chamada de Big Daddy, era, na verdade, uma alegoria personificada para uma ameaça muito maior.
Quando a caça ao serial killer termina, os episódios finais começam a competentíssima investida nessa ameaça. A televisão teve, por muitos anos, a existência de Angels in America como grande peça de emulação do surgimento do HIV na cidade de Nova York nos anos 80. Murphy, mais tarde, também já tinha adaptado o poderoso The Normal Heart, que também se passa nesse período. De certa forma, o que vimos em NYC foi uma junção dessas duas abordagens, com sequências lúdicas que foram profundamente dentro da psique dos personagens; e também com sequências mais cruas, dificílimas, sobre o que é presenciar a chegada lenta e corrosiva da morte.
Era de se esperar que com um tema tão “nichado”, AHS:NYC fosse receber menos aprovação do público; e foi o que aconteceu… Perante a crítica, contudo, ela já é a quarta temporada melhor colocada no ranking do Rotten Tomatoes (perdendo apenas para 1984, Coven e Asylum, nessa ordem). Essa rejeição da audiência está ligada a uma alienação natural ao que constitui e aflige a comunidade. Narrativamente, NYC é uma temporada muitíssimo bem estruturada e entre seus pecados talvez os mais graves sejam apenas a habitual falta de desfecho para alguns núcleos e a escalação de Zachary Quinto para viver pela milésima vez o gay cínico que fuma sem parar.
Enfim, um dos detalhes mais impressionantes desse ano é a presença constante de Big Daddy, aquela figura gigante, projetada pelo inconsciente dos personagens, vestida e performada de acordo com os códigos de submissão que ilustram a temporada, rondando cada um deles, como uma espécie de “anjo da morte”; uma percepção que só temos muito após várias de suas aparições. Ele está ali para os infectados, ele está ali para representar uma ligeira crítica às dinâmicas sexuais; e também para representar o estabelecimento de um comportamento pautado por anos e anos de uma clandestinidade forçada e de rejeições que levavam autoestimas ao nível do solo. Quando o espectador percebe que Big Daddy só aparece – e age – para os que serão mortos pelo vírus, a sensação é de que Ryan Murphy e seu time ainda estão com o controle nas mãos. Aquela é uma história poderosa de medo, angústia, projeção e erotismo.

Big Daddy
CR: FX
Todos já sabemos como tudo vai terminar… Entre 1981 e 1991, os corpos se acumulam em covas coletivas. Se aquelas sequências finais pareceram um exagero, eu vou deixar aqui uma evidência de que não são: Nova York é uma cidade realmente lúdica e provocativa. Mas, ela também tem seus fantasmas, seus esqueletos no armário; e a Hart Island é um deles. De fato, toda a área que compreende o pequeno complexo de ilhas ao norte do Bronx padece de um passado macabro. A ilha era um cemitério de indigentes vítimas do HIV. Encaixotados e enfileirados aos montes, os mortos do HIV chegavam em pilhas todos os dias (como se pode ver no vídeo abaixo); em 100% dos casos, eram rejeitados pelas famílias e muitas vezes incapazes de terem um enterro adequado por falta de dinheiro ou de apoio (já que as mortes dizimavam grupos inteiros de amigos e conhecidos). Apesar da ilha não ser mais um lugar para enterro de indigentes, está lá, totalmente abandonada, com ossos surgindo nas orlas a cada nova erosão.
Não podemos nos enganar. O distanciamento do horror mostrado nessa temporada é puramente um acaso. A perseguição ainda está aí, o massacre ainda está aí, a irresponsabilidade sexual pipoca nos aplicativos todos os dias (e é convenientemente chamada de “liberdade”) e o HIV ainda mata. Pode ser difícil realizar que com tantos tratamentos medicamentosos alguém ainda possa definhar diante dos nossos olhos pouco a pouco, do mesmo jeito que esses resgates históricos eventualmente retratam. Mas, a medicação impede a tomada do vírus, não a proliferação da culpa. Não parece possível que isso aconteça em plenos anos 2000. Mas, acontece. E eu vi acontecer diante de mim.
Big Daddy ainda está por aí, indiscriminadamente, espreitando as janelas de todo tipo de casa, de todo tipo de pessoa… Não é mais uma questão de nicho, ele não seleciona mais. A informação está aí para quem quiser ter acesso, os riscos e consequências de ignorá-las, também. A comunidade gay muda o mundo para melhor a cada dia, desafiando códigos reacionários, ensinando o que é a força do amor a despeito de tanto ódio. Mas, gays ou não, temos que ser alertas ao equilíbrio seguro entre fetiche e responsabilidade, entre liberdade e risco… A verdade do que somos nasceu conosco. É mais importante que nunca preservarmos o nosso bravo lugar de direito ao mundo.
Resistamos, juntos… sempre.















