We’re still in a Moonson Season.
Foi bem lá pelo meio da temporada que todos notamos que o tão sonhado All Winners não seria como nós imaginávamos. No nosso “sonho colorido” teríamos vencedoras como Bianca Del Rio, Raja, Jinkx e Alaska disputando pela nova coroa em desafios muito difíceis e tomados de drama. Contudo, olhando em retrospectiva, é evidente que fomos ingênuos. Nenhuma queen aceitaria retornar se não estivesse totalmente protegida da edição, sem que absolutamente nada arranhasse suas reputações. Ru, então, eliminou as eliminações e foram pelo ralo as tensões e narrativas possíveis para a temporada. Produziram uma temporada cheia de amor… e com mais doses de tédio do que seria seguro arriscar.
A decisão foi tomada, era mais confortável do ponto de vista comercial e midiático; não adiantava reclamar e espernear. E ficaríamos assim até as próprias queens irem para as redes sociais nos provocar com tweets sobre o que ficou na lixeira da sala de edição. Monet já tinha ironizado o “bom trabalho” dos editores; The Vivienne já tinha reclamado que cortaram todas as suas boas piadas do Roast… Mas, foi Trinity quem deu a declaração mais emblemática: num vídeo que circula pela internet ela conta que no episódio 3 Raja não aceitou as críticas negativas de Michelle e literalmente mandou um “quem você pensa que é” para a jurada. As duas discutiram e Raja saiu gritando pelo backstage exigindo a demissão da best de RuPaul.
A ausência completa de críticas foi um problema colossal no All Winners. Ao mesmo tempo em que se costurava paralelamente a reputação da “temporada do amor”, também ficava uma sensação de que tudo era maravilhoso e lindo, o que, obviamente, é uma completa ilusão. É possível entender o que fez com que RuPaul achasse que as vencedoras só podiam ser elogiadas nesse retorno, mas sem críticas o sentido de “corrida” fica pelo caminho. Ao que parece, as críticas existiram, só foram eliminadas da edição para garantir que nada afetasse o que as meninas tinham construído até aqui. É louvável, mas produz resultados enfadonhos e injustificados para a própria existência da temporada.
Dando uma passada rápida pelos episódios que eu não consegui cobrir já é possível destacar vários pontos que pareciam destoantes na comunicação entre episódio e bancada de jurados. Vejam alguns deles:
Episode 7

Os Legendary Looks refaziam uma roupa de RuPaul e foram uma ótima ideia dessa temporada. O que Shea fez com o vestido rosa – pintando tudo e levando a base para o topo do look – foi impressionante. Já Raja me apareceu com um monte de trapos desorganizados que se não tivessem sido feitos por ela seriam condenados à fogueira. A quantidade de pano que passaram para Raja nessa temporada teria aquecido uma cidade inteira do frio. Isso sem falar em Monet com um “facekini” sem ser “facekini”. Prevaleceu o gosto de Ru por longos e glamorosos vestidos, o que premiou Trinity e Jaida.
Episode 8

O tal do “Santa’s School For Girls” talvez tenha sido uma das coisas mais penosas que a Drag Race já fez. Essas paródias e encenações são terríveis, tem roteiros hediondos e não tem graça nenhuma. Não dá para entender por que um roteiro e uma encenação mais profissionais não poderiam ser produzidos para uma temporada só com vencedoras. As declarações dos jurados ao resultado daquilo foram de outro planeta… Se nem Jinkx foi engraçada quanto mais Raja. Quando Michelle disse que ela foi “hilária” provavelmente matou metafisicamente os deuses das artes dramáticas. Saber que as duas brigaram no começo da temporada só deixou tudo mais fake. Foram elogios totalmente fora de propósito.
Episode 9
Outra ótima ideia dessa temporada foi o desafio das dancinhas de Tik Tok. O episódio já valeu pela presença bela de Ben Platt, mas as danças foram realmente boas. Quase todas, pelo menos. Jaida não foi muito bem-sucedida na coreografia, mas o look ruveal foi sensacional; o melhor, disparado. The Vivienne e Raja tiveram o pior desempenho nos vídeos e os ruveals também não foram grande coisa. Críticas? Nadinha. Ao menos Jinkx e Monet venceram, o que foi um dos raros casos em que a justiça foi feita. A coreografia de Monet, aliás, era INCRÍVEL!
Episode 10

Roast são sempre desafios muito bons e com a presença de Winter Green a energia já estava no topo. A edição passou a faca, mas praticamente todo mundo conseguiu se destacar um pouco. Aqui precisamos dar para Raja os créditos da piada com as estrelas do Uber que foi realmente muito boa. Jinkx arrasou, mas precisava ter sido chamada à atenção por conta da repetição da piada com a fileira de cocaína em cima do pênis de alguém. Shea teve um desempenho medíocre, mas os jurados a fizeram parecer um gênio da comédia. Jaida foi pior ainda, uma tristeza. Críticas? Zero! A passarela de vestidos com luzes de led foi uma boa ideia, mas quando as luzes apagavam os rostos sumiam e a coisa toda parecia sem sentido. Contudo, a roupa de Jinkx era DESLUMBRANTE. Todos lembramos de Frances Conroy gritando BALENCIAGA na fogueira de AHS: Coven. Foi história sendo feita na passarela.
Episode 11

A definição do Top 4 sofreu as consequências da inconsequência da produção do programa. Dar 3 estrelas no último desafio cavou outra injustiça, levando Shea ao Lipsync na frente de Jaida, que teve um desempenho muito melhor. Entretanto, toda essa ideia de fazer o show de variedades no final para escolher o Top 4 já é problemática. Absolutamente NENHUMA daquelas performances era forte o suficiente para merecer 3 estrelas de uma só vez. Nada ali era digno de uma final. Era um monte de gravações prévias de músicas que contam sempre a mesma história: “eu sou uma bitch e sou maravilhosa”. Ao menos Jinkx e Monet cantaram ao vivo. O melhor seria algo nos moldes de Kitty Girl, do All Stars 3; dança, lipsync, presença, letras… Mas, precisamos dizer que entre as canções a de Shea era a melhor, parecia mesmo um hit pop e gruda na cabeça.
Episode 12

Jinkx, Monet, Shea e Trinity (graças à aliança com a colega de coroa), foram para o Top; e as outras quatro meninas competiram em um insano concurso de Queen of She Done Already Done Had Herses; uma saída para garantir que outra veterana não saísse de mãos abanando. E não é coincidência que essa veterana tenha sido Raja, considerando o desentendimento com Michelle e a evidente maneira como RuPaul ignorou tudo que Yvie fez no lipsync, mesmo com Visage ao lado se acabando de rir. Tudo absolutamente calculado para administrar danos.
A vitória de Jinkx era mandatória para que essa temporada tivesse sentido. Além de fazer parte dos anos dourados da corrida, Jinkx representa uma ideia de superação e tem um ponto de vista muito claro. Monet, que vem mostrando uma evolução notória, acaba não soando certa para o cargo justamente porque sua drag é genérica. Isso é realmente importante? De modo algum. Aquaria era uma drag com ponto de vista e talvez seja a vencedora mais boring da história da corrida. Ainda assim, Raja, Sharon, Jinkx, Bianca e até Willow Pill – a mais recente – são nomes fortes para esse título de Queen of All Queens justamente porque tem óticas artísticas singulares.
Assim, mesmo que o All Winners tenha sido morno, ele teve bons momentos, bons desafios e provou que para todas que recusaram voltar o preço foi perder a chance de ganhar muito dinheiro, muita projeção e muita proteção. Ru decidiu produzir uma temporada de afeto, em respeito ao legado que aquelas pessoas construíram como participantes e como detentoras de uma marca que mudou o mundo da arte drag para sempre. Teria sido uma temporada que Ben DeLa faria com sorriso de orelha a orelha; só amor e só talento. Para os tempos de prestígio da corrida foi valioso; para o entretenimento nem tanto.
Fica a linda vitória de Jinkx e seu nome como a maior de todas. Foi merecido, em todos os aspectos. Jinkx representa tudo de mais belo que existe no exercício da arte: transformar a dor em riso, transformar o passado em matéria-prima colorida e fazer do desajuste uma tendência de superação para o futuro. Ela é linda, engraçada, talentosa, carismática, gentil e ousada. Tudo além disso é só água deslizando pelas costas de um pato.






















