Para encerrar o ano de 2021, chega na Netflix a quarta temporada de uma série cativante e despretensiosa, que traz consigo a missão de explorar a nostalgia, o karatê e adolescentes metendo a porrada em adolescentes. Inicialmente feita pelo YouTube, Cobra Kai foi comprado pela Netflix em 2020, estreando sua terceira temporada no começo de 2021 na plataforma. Brilhante e impiedosa, o terceiro ano da obra foi um sucesso de público e crítica, prometendo uma trama ainda mais poderosa para sua quarta temporada, mas será que conseguiu cumprir a promessa?
Desta vez, a série começa com a união improvável – mas muito esperada pelos fãs – de Jhonny Lawrence e Daniel Larusso –, que são rivais desde o primeiro Karate Kid, lançado em 1984. Com estilos de luta totalmente divergentes entre si, os dois personagens unem seus dojos com um objetivo em comum: acabar de vez com os Cobra Kai.
A união gira em torno da aposta feita entre os dois personagens com John Kreese no terceiro ano da série, a qual definia que se o Cobra Kai perdesse o torneio, o dojo deveria fechar as portas de vez. O brilho desta temporada fica por conta de dois arcos específicos, um deles sendo a interação dos dois senseis tentando aprender um com o outro.

Ver Jhonny aprendendo as técnicas do Miyagi-Do e ver Daniel aprendendo as técnicas do Cobra Kai é, no mínimo, extremamente prazeroso para aqueles que ainda tem o filme original em seus corações. Ao mesmo tempo em que Daniel tem que aprender a atacar primeiro e deixar a força e a raiva tomarem conta, Jhonny deve aprender a manter a calma e a usar suas técnicas apenas para defesa pessoal. O fato de ambos terem que aprender técnicas de karate opostas ao que foram ensinados – tendo como professor seus respectivos nêmeses de infância – torna essa temporada uma das mais engraçadas da série, sem dúvida.
Já o segundo brilho desta temporada fica por conta do mais novo Torneio de Karate All Valley, que acontece nos dois últimos episódios. Agora na Netflix, o clássico torneio é reinventado não só com novas regras, mas com um orçamento bem maior, trazendo um espaço mais abrangente, telões digitais, efeitos de luz e até mesmo uma participação musical um tanto quanto surpreendente – que não agrega muito à narrativa, mas que não deixa de ser divertida.
Não só pela beleza visual apresentada no torneio, as tramas desenvolvidas durante a temporada são muito bem trabalhadas no evento, que traz consigo desfechos não só divertidos e impactantes, mas também surpreendentes. Diversos personagens chegam em seus ápices, não só com suas habilidades de karatê, mas também em suas relações com o restante do universo apresentado – destaque para os personagens que protagonizam as lutas finais do torneio, que apresentam um espetáculo visual com as melhores lutas da série até então.

Os novos personagens também têm seu momento de destaque. Tanto Kenny quanto Anthony – caçula da família Larusso que apareceu nas demais temporadas, mas nunca teve destaque – são personagens importantes para o novo ano da série, com ações que não só agregaram ao desenvolvimento dos personagens Daniel e Robbie, mas que também repercutirão no futuro da série, talvez até se consagrando como a próxima geração de personagens, no melhor estilo Malhação – e vamos combinar, Cobra Kai não está tão distante deste clássico novelão brasileiro.
Ainda que com essa proposta despojada e interessante, alguns momentos da nova temporada caem na mesmice, repetindo alguns acontecimentos já vistos antes. Os dois maiores exemplos se dão, primeiramente, na tão esperada união entre Jhonny e Daniel que, surpreendendo um total de zero pessoas, explode mais uma vez em brigas e rivalidades infantis que demarcaram o primeiro Karate Kid e toda a série até então. Indo um pouco além, outra clara repetição se dá com o personagem Kenny, que mesmo tendo sua importância para a trama, tem seu desenvolvimento quase que idêntico ao do personagem Eli/Falcão nas temporadas anteriores: do saco de pancadas ao maior dos valentões.
Mesmo que repetitivos, entretanto, tais momentos não são o suficiente para estragar a temporada, visto que ver mais uma vez ambos os senseis brigando por motivos tão banais não deixa de ser interessante e engraçado para os espectadores.

Dito isso, indo um pouco além dos conceitos de pura repetição, a quarta temporada foca suas energias em um forte sentimento de nostalgia, se utilizando de momentos do primeiro e do terceiro filme da franquia original para agregar e expandir a narrativa presente. Terry Silver, vilão bizarramente cômico apresentado em Karatê Kid 3 – O Desafio Final, dá as caras novamente, dessa vez mais contido e menos enloquente, mas que vai revelando sua verdadeira face aos poucos ao longo dos dez episódios.
Dessa forma, a quarta temporada se mantém no mesmo nível pastelão das demais, divertindo o público não só com coreografias criativas de luta e dramas adolescentes propositalmente exagerados, mas também com alguns acontecimentos capazes de emocionar os fãs da obra. Nem melhor nem pior, a quarta temporada se mantém no nível das demais, e começa a preparar terreno para uma nova geração de lutadores de karatê.
Espera-se, entretanto, que a série saiba a hora de parar, evitando perder sua essência com mais infinitas temporadas que mais nada tenham a acrescentar à trama. Ainda que gritemos “Cobra Kai para sempre”, tudo tem que ter um fim, e agora cabe à Netflix escolher dentre um final bem executado e planejado, ou um final mergulhado na banalidade e na exaustão.














