Novo ano, novo especial com os Daleks. É difícil dizer se ao introduzir os especiais de ano novo, Chibnall planejava criar uma “trilogia Dalek” ou se esse capítulo mais recente envolvendo os habitantes de Skaro surgiu após a confirmação da saída do showrunner, que ao se ver deixando o controle criativo da série resolveu trabalhar com algo que já era familiar aos olhos do público. Independente de qual seja a explicação, esse conjunto de especiais temáticos seguirá como um dos legados que ele deixará para a série.

O mais interessante nisso tudo é que a trinca Dalek apresenta alguns dos episódios mais “corretos” da era Chibnall. Nenhuma das três histórias é ruim, embora o episódio “Resolution” seja o melhor e mais inventivo de todos. É claro que eles também estão longe de receber o rótulo de obra-prima, mas se compararmos com grande parte das histórias de autoria do showrunner, em especial o grande evento “Flux” do ano passado é possível estabelecer um nível de qualidade onde esses especiais se localizam em uma área segura. Pode ser que ao se concentrar em roteiros mais autocontidos e sem a necessidade de explorar uma trama maior e transformadora, Chibnall consiga extrair bons frutos do seu trabalho. Isso sem falar da utilização dos Daleks, vilões com um modus operandi já estabelecido e que sempre funcionam como uma aposta segura.

“Eve Of The Daleks” trabalha com o conceito de loop temporal, que incrivelmente não é um recurso tão recorrente dentro de Doctor Who, que embora seja uma série sobre viagens no tempo não utiliza esse fenômeno de forma mais ativa dentro das suas histórias. Qualquer pessoa que acompanhe séries sci-fi sabe como esses loops funcionam, então é um ponto positivo perceber que o roteiro não demora muito tempo para colocar os personagens cientes da situação em que eles se encontram, dando assim um andamento mais ágil e fluido para os eventos que seguem. É uma premissa bem simples, no fim das contas.

A partir da percepção desse evento todo o desenrolar do episódio caminha para a resolução da problemática estabelecida e entre um reset e outro nós acompanhamos as influências que as constantes retomadas causam no conjunto de personagens. Além do nosso trio habitual, outras duas pessoas se vêem presos nesse jogo de gato e rato: Nick e Sarah. Esses dois estão longe de serem personagens modelos, com uma conduta exemplar e coração puro que utilizaram dessas características para salvar o mundo. E essa é a melhor coisa sobre eles.

Enquanto Sarah é claramente egoísta e mal-humorada, Nick embora seja apresentado como uma pessoa gentil possui o estranho hábito de guardar pertences de relacionamentos fracassados, além de ser o responsável por fazer com que Sarah trabalhe em toda véspera de Ano Novo só para ficar perto dela por alguns momentos. Essas características absurdas são muito bem reconhecidas pelo roteiro no divertido momento em que os personagens desconfiam que ele seja um serial killer. E é através deles, enfrentando os constantes recomeços, que temos o aceno mais sutil a temática de recomeço que um especial de Ano Novo poderia oferecer: ela percebe que não precisa ficar presa em um trabalho que não lhe faz feliz e ele finalmente toma coragem para expor os seus sentimentos.

Nick, aliás, não é o único a abrir o seu coração nessa aventura. Após muita especulação e uma cena altamente sugestiva no último episódio da temporada, nós enfim tivemos a confirmação de que a Yaz nutre sentimentos românticos pela Doutora, mesmo que não fique muito claro se o sentimento é recíproco. É uma aposta válida, mas a maneira e o momento em que esse plot é colocado me fazem torcer um pouco o nariz.

É altamente possível que após anos viajando juntas, elas acabassem desenvolvendo esse tipo de sentimento, mas é algo que nós dificilmente vimos ser trabalhado ao longo das temporadas. Durante o Fluxo nós vimos que a Yaz ficava extremamente irritada com o comportamento distante e, por vezes, egoísta da Doutora e agora nós sabemos o motivo. O problema é que não existe um crescimento ou andamento palpável desse sentimento.

Vamos tomar como exemplo a relação Rose e 10º Doutor. Eles passaram por uma situação muito parecida, viajando por muito tempo juntos e desenvolvendo uma relação de extrema confiança. A diferença é que os sentimentos românticos que a Rose sentia pelo Doutor foram sendo apresentados durante toda a jornada, tanto que outros personagens mencionam essa relação diversas vezes. O próprio Mickey resolveu ficar em uma realidade alternativa após perceber que ele não era mais tão importante para a garota. E mesmo que o Doutor nunca tenha deixado explícito, era perceptível que a relação entre eles não era só de companheiros de viagem. Dessa vez, porém, a Doutora não demonstrou qualquer sinal de reciprocidade.

Outra coisa preocupante é que só houve o interesse de trabalhar esse assunto faltando apenas dois episódios para a regeneração da Doutora e, possivelmente, a troca de todo o elenco. Nós sabemos das dificuldades que Chibnall possui para resolver questões aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, então qual é a justificativa para começar só agora? O meu medo maior não é que essa relação fique mal trabalhada, mas que ela NEM seja trabalhada. E se isso acontecer, aí sim o showrunner vai merecer todos os puxões de orelha possíveis.

E assim iniciamos a nossa caminhada rumo ao fim. Da próxima vez que nos encontrarmos será para acompanhar o retorno de um monstro clássico há muito tempo esquecido no fundo do baú: o Sea Devil! Espero por vocês.

PS: E não tivemos nenhuma menção ao estado atual do universo, não é? Parece que essa não é uma prioridade do nosso showrunner.

REVISÃO GERAL
Nota:
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doctor-who-eve-of-the-daleks-new-years-special“Eve Of The Daleks” fecha a trilogia anual dos mutantes assassinos. Ao menos com eles, Chibnall conseguiu fazer um bom trabalho.