Na Grécia Antiga os verdadeiros governantes não eram os reis das cidades estados ou os guerreiros que atravessaram mares e desertos em busca de conquistas e glória, mas sim os deuses. Filhos das forças primordiais do cosmos, esses seres onipotentes tinham a força de criar civilizações ou destruí-las num piscar de olhos, tudo de acordo com seus caprichos. Mas apesar de poderosos, eles eram intimamente humanos, pois amavam, traiam, cobiçavam e tinham ciúmes assim como suas criações.

Criados em 1976 por Jack Kirby, os Eternos surgiram como uma contraparte dos quadrinhos da Marvel para essas figuras. Confundidos com os deuses da cada civilização, assumiram através dos séculos os lugares dessas lendas mitológicas e ganharam respeito e devoção dos humanos que o viam como figuras além do entendimento.

Eternos

Essa vertente fantástica fica bem evidente nos primeiros minutos de “Eternos” (Eternals, 2021), que adapta os personagens para as telonas e marca a introdução deles no MCU. Criados pelos Celestiais, os Eternos recebem a missão de atravessar o universo ajudando as civilizações que encontram a lutar contra os Deviantes, figuras deformadas focadas apenas na destruição. Só que ao chegar à Terra as coisas mudam e a missão proposta acaba ganhando novos contornos, principalmente porque nem tudo é o que parece e forças além daquelas que vemos estão em ação com consequências avassaladoras.

A primeira sensação que Eternos deixa após o término da exibição é de que algo mudou no MCU, mas não sabemos o que. Como já é de praxe do modus operandi da diretora escolhida para a empreitada, a oscarizada Chloe Zhao, o filme foca mais nos personagens e suas problemáticas do que na ação propriamente dita, algo meio atípico prum filme de heróis, onde esperamos que a ação seja desenfreada. É algo que parece estranho, mas funciona em diversos níveis.

Mesmo com um elenco estrelado gigantesco, fica logo óbvio que vamos acompanhar a história através dos olhos de Sersi (Gemma Chan, em sua segunda participação no MCU), já que ela é a que tem mais empatia e a que se aproxima mais da humanidade. A verdadeira líder do grupo é Ajak (Salma Hayek), que guia o grupo como uma figura maternal, assumindo os conselhos e decisões quando necessário. Há subdivisões dentro da trupe, com alguns assumindo um papel mais bélico – Ikaris (Richard Madden), Thena (Angelina Jolie), Kingo (Kumail Nanjiani), Makkari (Lauren Ridloff) e Gilgamesh (Don Lee ou Ma Dong-seok, como ele é conhecido na Coreia do Sul) – enquanto outros encarnam papéis mais cerebrais e manipulativos – Druig (Barry Keoghan), Phastos (Brian Tyree Henry) e Sprite (Lia McHugh).

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Ainda que todos tenham o seu momento de brilho na tela, nem todos são desenvolvidos bem o bastante. Sprite por exemplo, tem todo um questionamento sobre viver milênios num corpo de criança, mas tudo descamba para uma situação sentimental. Gilgamesh acaba sendo só um apoio de luxo pra Thena, essa sim com um plot bem trabalhado e que trás um dos elementos mais interessante da mitologia dos heróis, Mahd Wy’ry, uma espécie condição mental que só ataca os Eternos, que aqui nos cinemas ganhou um contexto bastante inteligente para sua existência.

Outros nomes de destaque, como Dane Whitman (Kit Harington) não acrescentam em nada na trama, já que todo o plot do relacionamento entre Sersi e Ikaris poderia muito bem funcionar sem ele. O personagem no final das contas só ganha destaque no final do longa, com uma promessa de que seja desenvolvido para a figura que os fãs dos quadrinhos já conhecem de longa data (O Cavaleiro Negro, no caso). A decisão de colocar sete mil anos de história em 2h30 de filme também tem suas consequências.  Ainda que contextualize os momentos atuais dos personagens, as idas e vindas no tempo dão uma leve travada no andamento do filme, nada que o torne enfadonho, mas que quebra um pouco o clima do longa.

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No entanto, esses problemas de desenvolvimento e ritmo não atrapalham o espetáculo visual que é “Eternos”. Assim como já é de praxe da Zhao, as composições visuais das cenas são belíssimas, com quadros que podem ser impressos e transformados em quadros a qualquer momento (as cenas em contraluz são perfeitas). Perfeito também é o modo como a questão de Phastos ser gay é trabalhada: sem espetáculos, de maneira orgânica e natural, como deve ser.

As sequências de ação são grandiosas e épicas quando acontecem. E os efeitos estão no ponto, principalmente quando Makkari utiliza a super velocidade, rendendo as melhores cenas. Tudo isso emoldurado por uma trilha sonora que transita entre hits de diversas eras e pela inspirada faixa orquestral de Ramin Djawadi. O humor, como já é de costume do MCU, também aparece, principalmente na figura de Kingo. O Eterno que assume a identidade de um astro de Bollywood é o que tem as melhores tiradas e a ideia de fazer um documentário acompanhando a jornada do grupo é hilária, ainda mais quando o mordomo Karun (Harish Patel) entra em cena.

Mas ainda que se utilize da já conhecida “fórmula Marvel”, Zhao desvirtua alguns dos elementos desta, colocando uma identidade até então adormecida no MCU. Druig é um personagem questionador que coloca em cheque a fé cega na missão dada pelos Celestiais. Já vimos isso antes em alguns personagens, mas aqui ele tem as melhores motivações. Há sexo no longa, inofensivo, mas há. Há também um arco dramático que, ainda que seja previsível, consegue entreter o espectador (e casa totalmente com o nome do personagem que o vive), trazendo uma profundidade vista poucas vezes no MCU.

“Eternos” subverte não só as expectativas do público, mas também as da própria Marvel, talvez por, assim como na mitologia grega, apresentar deuses que na verdade só estão em busca de sua própria humanidade. Com personagens com potencial para estremecer os alicerces do MCU daqui em diante, principalmente com a chegada do Multiverso nessa fase 4 do projeto, o longa emociona, diverte e cativa, estando longe de ser essa tragédia que anunciam aos quatro cantos mídia afora.

PS: Há duas cenas pós-créditos, uma após os créditos animados e outra no final da exibição.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Walt Disney Studios Brasil 

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
critica-eternos-subverte-as-expectativas-do-publico-e-da-propria-marvel“Eternos” subverte não só as expectativas do público, mas também as da própria Marvel, talvez por, assim como na mitologia grega, apresentar deuses que na verdade só estão em busca de sua própria humanidade.