Com uma final abalada por um dia de perdas, a edição 21 do Big Brother Brasil chegou ao fim deixando a obscuridade de seus primeiros dias para trás.
No texto anterior a esse, quando vivíamos com ressentimento o lamentável episódio da eliminação de Gil, cheguei a dizer que a final do BBB 21 poderia ser justa com sua torcida, mas que ela não seria bonita. Aquele foi um eco sincero, ainda atrelado a lógicas que continuam fazendo sentido, mas que toparam com uma terça-feira, 4 de Maio, que tinha planos de se marcar na história como uma das mais chocantes e sensoriais da história do nosso país. Algumas horas antes do programa começar, o queridíssimo Paulo Gustavo faleceu, vítima do Covid 19, deixando tudo menor, desimportante.
Se a final do BBB em si já parecia desconexa do estado de espírito generalizado, olhar para trás e avaliar o que pautou a narrativa desse ano soava ridículo. Brigas entre torcidas? Cactos? Eliminações? O que era tudo isso perto do que estava acontecendo?
É claro que não funciona exatamente assim. A vida continua, a máquina continua girando a despeito da troca de turnos entre operários. A final do BBB ia acontecer e o que foi o programa durante esse tempo todo foi parte importante, inclusive, do nosso escape, do nosso entretenimento. E acho que essa palavra – entretenimento – fica espremida no meio de tantas outras coisas que fazem do programa o que ele é. Uma delas é o nosso senso de justiça. Se existe o elemento existe a falha. Se existe a falha existe a defesa; e é aí que tudo se confunde.
Fãs do Big Brother sabem que a luta do público para premiar comportamentos moralmente adequados sempre esteve presente no DNA do show. Até flexiblizamos o aspecto moral das coisas em alguns casos, mas desde que o participante escolhido para a defesa compense isso com humor ou passe a ser perseguido. O problema é que grande parte da audiência não sabe defender sem atacar, não sabe desgostar sem odiar, não sabe a fronteira entre empatia e cinismo. Sim, porque o cinismo virou um direito propagado pela rede, um traço de personalidade celebrado por soar – vejam só que loucura – mais sincero que a paciência e a gentileza.
O BBB 21 começou “bem”. Vamos colocar àspas na palavra porque é evidente que no setor do entretenimento só tínhamos a ganhar. Contudo, o tom era suspensioso, a energia era pesada e o clima era sombrio. Existem muitas razões para isso, muitos personagens que contribuíram para isso, mas o que esse período do programa teve como fator predominante foi a dificuldade dos envolvidos em olhar para além dos próprios umbigos. Não à toa, Karol Conká, Nego Di, Projota e Pocah, eram todos famosos e acostumados à centralização. Lumena, mesmo não sendo famosa, se sustentava na ideia de super-importância que sua formação insinuava. Uma vez ali dentro, naquela imensa vitrine, era hora de exibir suas habilidades. Mesmo Fiuk, que parecia desenergizado, só estava preocupado consigo mesmo, com vencer ou se convencer de qualquer coisa que justificasse sua presença.
De todos eles, Karol Conká era a mais nociva porque era a que tinha mais culhões para enfrentar sem medo de consequências. Ela ditou o tom e os outros seguiram a correnteza. Para ela e seu grupo, a “verdade” de um participante não residia na generosidade e sim no cinismo. Se olharmos com atenção para trás, vamos ver que os participantes mais atacados pela patota de Karol eram aqueles julgados como dissimulados em suas posturas não-confrontativas. É claro que qualquer um pode despistar os outros sobre quem verdadeiramente são, mas isso não dura muito tempo.
Lucas, que começou errando em uma semana o que se erra em 10 anos de vida, foi o primeiro a revelar a própria fragilidade (isso era o que ele despistava com um comportamento errático e bizarro). Sarah, que começou parecendo justa por acolher o moço, mais tarde revelou que aquele foi um episódio isolado. Sua capacidade de acolhimento tinha condições demais. Até mesmo Gilberto, no meio de sua maneira sanguínea de olhar para o mundo, foi seduzido pela ideia de ser o “participante esperto que desvenda o grande vilão da temporada”. Mirou na própria aliada, capengou nos princípios básicos que defendia, mas teve tempo de voltar atrás.
Aliás, “voltar atrás” é quase uma inevitabilidade do tempo. Quanto mais ele passa, mais se torna possível que as pessoas revelem outras camadas e tenham a chance de algum tipo de redenção. Funcionou assim para o Arthur, para a Pocah, dois participantes que conseguiram reverter uma rejeição simplesmente deixando o tempo agir sobre eles. Não funcionou assim com Vih Tube, a Rainha do Jogo Interno, que para permanecer distribuiu afetos conforme a pirâmide da semana e nunca, em nenhum momento, se perdeu desse objetivo. Contudo, “voltar atrás” é uma coisa proibida no Big Brother. Diminuindo ou não a rejeição, essas pessoas são eliminadas.
Isso explica em parte essa final deformada. Gilberto, por exemplo, jamais teria sido eliminado se Fiuk não tivesse vencido a prova de resistência. Esse evento, inclusive, voltou a acordar a moral rígida da audiência, esquecida de que num confinamento que envolve sentimentos, nem sempre eles são direcionados para as pessoas certas. E quem nunca se apaixonou pela pessoa errada que atire a primeira pedra. Fiuk foi um participante que usufruiu do Big Brother a oportunidade de autoconhecimento, mas foi uma jornada tão interna quanto o jogo da Vih. Gilberto, na sua alegria, força e arrependimento, se tornou a segunda grande marca dessa edição.
É curioso notar que dentre todas essas pessoas, apenas duas conseguiram chegar até o fim imunes ao furacão, em grande parte porque já chegaram com uma integridade capaz de suportá-lo: Camilla e Juliette. Camilla fazendo o jogo da invisibilidade, mas extremamente leal aos que a circundavam. Juliette fazendo o jogo kamikaze de se jogar em tudo que vinha pela frente. Estava aí a fórmula perfeita: consiga manter seus princípios, consiga envolver-se em tudo, consiga enfrentar seus opositores e se puder manter o humor e a leveza, você será imbativel. Junto com Gil, Juliette fez a narrativa do Big Brother 21 acontecer, resistindo a todas as tentativas de esmagamento. Será mesmo que o problema é a bondade? A empatia? A generosidade? O perdão? Essas são coisas incompatíveis com o jogo do BBB? Ou será que nós é que caminhamos na direção de um cinismo tão absoluto que nos tornamos incompatíveis com essas coisas?
Mas, Henrique… que maneira mais hiper sentimental de avaliar o programa. Será? Porque eu paro para me lembrar da emoção ao ver Lucas entrando para cantar com Projota e me pego presenciando o fechamento de um ciclo. Odiamos Projota por ele ter ridicularizado o colega. Mas, de algum jeito, em alguma instância bendita, eles foram capazes de seguir. Paro para ver Karol Conká sorrindo, leve, cantando, livre das correntes… E isso é o certo. Para quem errou o castigo eterno é o tweet que coloca em dúvida? Juliette passou meses sendo desacreditada por ser uma pessoa sensata e generosa. Mas, cá estão seus fãs duvidando que Gilberto realmente tenha se arrependido do que disse sobre ela.
Eu prefiro ser como o Tiago Leifert, que desceu de seu palco, juntou-se aos finalistas na frente do vidro, chorou, vibrou, porque em suas palavras estava a compreensão e a crença de que a obscuridade vivida no começo se transformou numa chance de ver a luz. Ele me comoveu muito nessa final, não só por ter segurado a onda da notícia da morte do Paulo Gustavo, mas porque desde sempre – a despeito de todo nosso cinismo – ele vinha disposto a, sei lá, quem sabe, acreditar? Seu discurso para a Juliette foi de desabafo e alívio. Era um “olha, você estava certa, tentaram te esmagar, tentaram te embrutecer, mas que bom Juliette, que bom que seu espírito ninguém conseguiu quebrar”. O que eliminou grande parte dos participantes foi a incapacidade de acreditar no que viam.
Estou muito feliz que depois de um começo sombrio, depois de cancelamentos e muita toxicidade, o BBB 21 terminou celebrando o recomeço. A vitória da Juliette representa a pausa para o ponderamento não apenas de quem nós somos, mas de como olhamos o outro.
O Brasil Tá Lascado:
- Sigo dizendo que Carla Diaz merecia desculpas públicas dos colegas por conta da maneira como foi tratada no programa.
- Um IMENSO parabéns para a equipe de edição. Estão cada vez melhores, mais afiados e mais antenados na internet.
- AMEI “O Brasil tá vendo”.
- Rafael Portugal, volte sempre.
- Ana Clara só reforçou como está preparada para mais oportunidades na TV.
Ano que vem estamos juntos, gente. Obrigado por tudo.
















