O Falcão e o Soldado Invernal chega ao seu fim escrevendo uma nova história para o Sentinela da Liberdade.
Como eu já havia apontado em textos anteriores, para aprofundar a jornada de Sam e Bucky, a Marvel apostou em um formato muito mais seguro e reconhecível do que WandaVision (o que provavelmente continuará sendo uma experiência televisa única), porém, de forma alguma continuou no lugar-comum da narrativa do restante do MCU, isto é, desta vez a empresa não temeu pisar em calos sensíveis e entregou um título totalmente direcionado a abordar questões sociais intensas. O resultado foi uma série que, apesar de mais reconhecível com o MCU, se mostrou como uma das produções que, narrativamente, mais se afastou deste, trazendo um discurso social tão forte que tornou a experiência de acompanha-la uma tarefa mais difícil de digerir, mas sem cair no enfado e no desnecessário.
A série ficou longe de ser perfeita, e, pessoalmente, ainda prefiro a construção de WandaVision, porém ganha pontos o suficientes para se tornar uma das obras mais emblemáticas de super-heróis dos últimos anos justamente por tratar disto: O emblema de ser um super-herói e os diversos ramos políticos e ideológicos que as ações de um super-herói – e claro, sua aparência – repercutem em um “mundo real”.
Felizmente Um Mundo, Um Povo não se escusa de nos entregar, logo em seus minutos iniciais, o que todos estávamos esperando assim que a premissa da série foi anunciada: Sam romper os ares com seu novo uniforme e seu novo ideal. O traje do novo Capitão América abraça a personalidade de Sam sem esquecer de tudo que as estrelas, listras e escudo representam. Uma nova essência para um símbolo antigo, quase como um rebranding de uma marca.
Asas de vibranium, recursos do Asa Vermelha elevados à décima potência e infinitas possibilidades que a tecnologia wakandiana pode permitir fazem com que Sam, mesmo sem o soro de super-soldado, em nada fique perdendo para Steve Rogers. Ou melhor, fazer uma comparação do tipo quem ganha e quem perde entre os Capitães América parece ser tudo que a série rechaçou ao longo de sua história, então vamos dizer que o novo traje de Sam o permite trilhar um caminho diferente de Steve, com táticas e estilo de combate diferente, mas que de forma alguma se sobressairá ao bom e velho mano a mano que Steve tanto difundiu.
Apesar de uma direção por vezes confusa, ficou claro que o episódio conseguiu a imersão necessária para reconhecermos que a batalha final cumpriu o propósito de toda batalha final: Empolgar e surpreender, aproveitando o orçamento da série até o limite. Por óbvio, a fusão do estilo do Falcão com o do Capitão América resulta em sequências muito diferentes das que estávamos acostumados com Steve, e algumas cenas aqui vistas parecem quase saídas dos filmes do Homem de Ferro, causando certa estranheza, mas que acabam por anunciar um futuro faraônico para o novo herói. E com o praticamente já confirmado Capitão América 4, teremos um maior aperfeiçoamento desse estilo único que aproveita o combate de técnicas clássicas do herói somando-se à sequências eletrizantes que podem ser criadas com todas as oportunidades que o vasto espaço aéreo entrega.
Porém as oportunidades que agora se vislumbram no horizonte irão muito além de mecânicas de batalha e têm tudo para atingir um ponto mais sensível: As implicações sociais e políticas de um novo Capitão América, desta vez sem o apoio midiático do governo e, ainda por cima, negro.
Por mais que Steve Rogers seja um personagem exemplar, sua presença como Capitão não inspirava discussões inflamadas justamente por ele reunir todos os princípios e ideais que os Estados Unidos mais prezam. Sam, por outro lado, apesar de ser tão honrado e personificar o Capitão tão bem quanto Steve, deve acabar sofrendo resistência justamente por aceitar que é a melhor pessoa para carregar o escudo que reúne tantos símbolos. Infelizmente vimos pouco disso no episódio, e mesmo que tal cenário venha a ser tratado no vindouro filme, algo mais notável deveria ser observado no episódio, uma vez que toda a série se fundou na base das implicações de ter um Capitão América negro, e quando isso finalmente acontece, pouca movimentação se vê em cena.
Isto é, apesar de o Capitão América não ser uma marca do governo, não podemos ser ingênuos e achar que o Estado aceitará que seu símbolo maior fique disponível para qualquer um carrega-lo sem tentar tirar uma lasquinha disso. Claro que ainda pode ser cedo para sentir toda a resistência, influência e críticas que recairão sobre Sam, e com certeza mais facetas de sua independência do governo ainda devem ser mostradas, porém, tudo ser aceito de forma tão fácil e simples, principalmente levando-se em conta o circo montado para anunciar Walker, enfraquece essa questão. Ou talvez seja justamente por causa do circo, e posterior fracasso de Walker, que o governo tenha preferido fazer vista grossa à um novo Capitão e não mais se envolver no trabalho do herói. E o grande problema aqui reside no fato de que o episódio não nos deu qualquer indício de como será essa relação da “iniciativa privada” de Sam com o controle estatal. Acredito que mesmo que o governo tenha deixado que Sam atue livremente, um choque ainda irá acontecer, e só gostaria que o episódio já desse pequenas fagulhas de indícios.
Um Mundo, Um Povo tinha uma intenção boa, e até conseguiu entregar para sua audiência muito da empolgação que estava sendo exigida para um episódio que iria apresentar um legítimo novo Capitão América, porém alguns pontos acabaram não recebendo o esmero necessário, como o caso dos Apátridas.
O grupo revolucionário até tinha um conceito bom e motivações sólidas, no entanto, seus ideais tropeçavam em ações confusas e discursos que pouco diziam, não sabíamos exatamente o que o grupo em si buscava e o foco se dava todo em cima de Karli Morgenthau, que teve suas convicções brilhantemente sustentadas por Erin Kellyman, único nome do grupo que realmente ganhou seu destaque. E aqui está o problema de toda essa história: Para um grupo que dizia não haver limites para sua influência (e de fato, tal influência foi elevada a níveis até irreais), focar toda a história em cima de Karli, foi uma jogada que acabou não dando muito certo. Víamos relances de insatisfação por parte do grupo com as ações mais extremistas de Karli..e ficou por isso. A impressão final é que se a série apostasse unicamente em Karli – sem todo o aparato de uma grande organização por trás – as ações da moça, e seus resultados, seriam os mesmos, uma vez que poucas consequências de se lidar com um grupo único como os Apátridas foi mostrado durante a série.
E não que toda a história dos Apátridas tenha sido desnecessária, pelo contrário, tê-los como antagonistas elevou ainda mais a maturidade da produção. Porém, não há como se livrar do gosto amargo que o grupo deixou ao fim do episódio, justamente por prometerem muito e entregarem pouco, e claro que, quanto a isso só temos que culpar o roteiro, que apenas se preocupava em aumentar o “perigo” que o grupo representava, mesmo que este apenas era mostrado em diálogos, sem ter muita noção do que fazer com sua própria motivação e todos aqueles seguidores.
Por outro lado, ficou claro que a morte de Karli plantou sementes e que os Apátridas não devem desaparecer rapidamente, haja vista que seu ativismo é de fácil comprometimento, se sua luta continuar a ser tratada em momentos futuros, ótimo, se não, um grande desperdício de um movimento realmente crível e dúbio houve aqui.

No episódio em si, a participação dos Apátridas teve como maior consequência motivar Sam a discursar perante os políticos americanos e a população. O discurso de Sam, apesar de em certos momentos ser um tanto artificial e engessado, cumpriu o objetivo de estabelecer pelo o que Sam lutará na pele de Capitão América e o que ele espera que o símbolo agora represente. O ativismo social e político foi um ponto marcante da série e resume muito o que será da jornada do novo Capitão a partir de agora. Já quanto ao discurso, poderia ter sido entregue de forma menos enlatada (quase me lembrou Carla Perez criticando sabiamente as campanhas demagógicas no final de Cinderela Baiana) e ficou enfraquecido pela aparente mudança total de mentalidade dos senadores, mas foi marcante o suficiente para se estabelecer de vez o Capitão perante o mundo representado na série e o mundo que a assiste.
John Walker também teve seu momento de estabelecimento no episódio, apesar de que seu arco aqui não ter sido muito bem trabalhado. Vimos no episódio anterior o conflito visceral do militar com Sam e Bucky e sua revolta por ter sido destituído do posto de Capitão América, já aqui ele parece ter superado os eventos passados como se vários episódios estivessem entre Verdade e Um Mundo, Um Povo. Sim, ainda vimos sua fúria homicida para cima de Karli porém, para um homem que tanto fervor dedicou para o escudo, a aceitação de Sam como o novo Sentinela veio ridicularmente fácil ao ponto de praticamente vê-lo seguir ordens do “rival”. No entanto, apesar disso, o episódio acertou em posicioná-lo em uma linha cinza, retratando-o como um homem ainda tem seu controle para fazer o que é certo mas ainda guarda muitas dúvidas sobre os meios que deve empregar para isso. E para recalcular sua rota e transformá-lo em um novo símbolo, entra em cena Vallentina de Fontaine, pessoa perfeita para dar um novo impulso para o agora Agente Americano.
Bucky também encontrou fechamentos para agora buscar uma nova identidade, ou melhor, recuperar sua antiga. Ver Sam abraçar seu destino talvez tenha sido o ponto de virada para que Bucky aceite, de uma vez por todas, que seu destino não é viver eternamente traumatizado pela sombra do Soldado Invernal. Todas as cenas que representaram sua reconstrução aqui, por mais simples que fossem, foram carregadas de significado. Desde sua conversa definitiva com Nakashima até a entrega de seu caderno para a terapeuta, passando pelas interações com a família de Sam, tudo foi representado com muito cuidado e respeito, mostrando que não é apenas Sam que tem direito à um futuro glorioso pela frente.
Falcão e o Soldado Invernal se despede com um roteiro que pode não ter sido perfeito mas que se compensou pela alta qualidade de atuações, direção e até mesmo premissa, ousando não pela maneira de contar sua história, mas pela história contada. Mesmo que a série, em alguns momentos, não tenha conseguido carregar o peso de sua própria narrativa, recheada de referências, simbolismos e sub-textos, a iniciativa e o produto final devem ser aplaudidos, uma vez que mostraram que as produções de super-herói, principalmente as da Marvel, podem, e devem, entregar muito mais do que o mero e raso entretenimento pipoca.
Voo rasante:
– Sharon Carter ser revelada como Mercador do Poder não surpreendeu ninguém, inclusive a decisão da série em manchar o sobrenome Carter não está sendo muito bem recebida. Agora, com Sharon de volta aos Estados Unidos e com acesso direto à vários segredos, o que será que está reservado para ela? Eu mesmo não estou muito empolgado.
– Isaiah também teve seu grande momento de reconhecimento, mesmo que este ainda seja pouco perante à tudo que lhe foi infligido. Pode um espaço em um museu compensar décadas de tortura e esquecimento?
– Mesmo que os Apátridas ainda existam, a cúpula formada pelos super-soldados parece ter sido definitivamente extinta. Agradecimentos à Zemo, que também entregou uma trajetória brilhante na série.
– Encerro aqui minha cobertura de Falcão e o Soldado Invernal. Muito obrigado a todos que me acompanharam durante essas semanas e até uma próxima oportunidade.















