No Circle de 2021, lutar para ser popular é coisa do passado.
Entre todas as versões do The Circle (UK, US, Brasil e France), a versão mais criticada sem dúvida alguma foi a dos colegas americanos. Não que ela seja uma temporada ruim, nem de longe. Na verdade, é interessante porque é uma excelente porta de entrada para a franquia, visto que ela nos apresenta o conceito mais básico de The Circle – ser popular no círculo e saber guiar seus chats virtuais para tornar-se influencer – e um elenco muito carismático que navega por esse caminho.
Mas, quando seguimos em frente e percebemos como os nossos conterrâneos e principalmente os europeus entraram no game com sangue nos olhos, quando vemos os britânicos, franceses e brasileiros montando alianças e literalmente guerreando para preservá-las nas discussões do Hangout, o The Circle US esmorece.
Talvez, sabendo disso, a Netflix caprichou muito mais na seleção do elenco da segunda temporada, posicionando o espectador diante de um grupo extremamente diverso e o mais afastado de clichês possível. Nada de modelos ingênuas que colocam fotos impecáveis no perfil, nada do macho heterotop sarado e meio bobão.
Estamos diante de pessoas realmente interessantes e com personalidades e histórias de vida muito mais únicas. A garota bonita fez parte do clube de robótica, o senhorzinho fofo que usa fake é um escritor experiente na criação de personagens, o rapazinho padrão decidiu ser um hippie totalmente zen, e a negra que tende a ser rotulada como barraqueira chama a atenção não pelo péssimo estereótipo, mas por ter dois diplomas.
Mas uma coisa que todas (ou quase todas) essas personalidades peculiares têm em comum é: eles não estão ali para fazer amigos, para ser populares, para ser amados, para provar que sabem interagir. Eles estão ali para ganhar 100 mil dólares, e ponto final. Se, para isso, precisarem fazer alianças, mentir e quebrar promessas, que seja. Ou seja, absolutamente tudo o que esperávamos de uma temporada digna de The Circle!
ATENÇÃO: a partir de agora, os comentários terão relação direta com os rumos do jogo, e consequentemente, trarão spoilers das formações de alianças e eliminações.
Ser do bem nem sempre convém

O mais interessante do primeiro ciclo é que ele parece nos trazer de volta ao mesmo clima da temporada 1 (o que é um ponto positivo em termos de identidade e ambientação), mas rapidamente começamos a perceber que as coisas não vão ser bem assim. Uma das personagens mais emblemáticas nesse sentido é Emily, conhecido na vida real como Jack. Inicialmente, existe uma tendência de se sair da primeira sequência de episódios pensando que Jack prometeu muito e não cumpriu quase nada, tendo caído no velho estereótipo do fake que é tão diferente da pessoa que o interpreta que, por medo de errar, acaba se tornando um personagem vazio e sem personalidade.
Mas, quando prestamos atenção, Emily tem um impacto bastante considerável para os rumos do jogo, principalmente porque foi ela, ao tentar fazer uso da boa e velha aliança feminina, quem criou o chat “Girls Just Want To Have Fun”, a aliança que definiu toda a configuração do jogo e o “racha” que dividiu o elenco em dois grupos dispostos a digladiar entre si. Emily pode não ser uma persona realmente vilanesca como Jack prometeu, mas, mesmo com sua personalidade sem graça, os movimentos estratégicos estão ali, e estão fazendo diferença. É interessante como isso é notado por Savannah no diálogo com Courtney no quarto episódio.
Essa essência de Emily de não querer se comprometer com nada é captada muito rapidamente por Chloe, e aqui, precisamos muito falar de Chloe! Sim, assim como você (provavelmente), eu também achei Chloe uma maluca sem noção que tinha tudo para ser a primeira eliminada – e torci pra ser, não vou negar. O problema é que é impossível manter essa visão superficial por muito tempo, porque Chloe é uma das personagens mais maravilhosas que já passaram pelo Circle!
E é interessante como a edição entende o tipo de personagem que ela é e nos guia bem pela jornada de Chloe, que sobe da sexta posição no primeiro ranking à primeiríssima colocada do game. É simplesmente HILÁRIO ver as caras e bocas que a britânica faz ao ditar mensagens do tipo “Minha opinião sobre você não mudou”, “Eu ainda confio em você”, ou “O QUE VOCÊ ACHA, EMILY???” Aliás, todo o contexto de Chloe enfiando Savannah no chat para cobrar dela o não salvamento enquanto Emily estava ali no meio só assistindo foi absolutamente impagável!
E falando em salvamento, é delicioso ver que a produção do The Circle não se acomodou, e segue criando novas e interessantes twists para cada ciclo. Começar o jogo com uma salvação imediata para cada influencer, mas, ao mesmo tempo, dando 24h de tempo para o social antes que as influencers tomassem sua decisão entre os quatro jogadores restantes é uma dinâmica realmente muito boa, pois, ao mesmo tempo que recompensa as primeiras impressões e interações, também dá tempo para que aqueles em perigo tenham o senso de urgência necessário para jogar estrategicamente.
Bom, quase todos… a sempre maravilhosa apresentadora Michelle Buteau, de volta com suas observações sarcásticas, chama a nossa atenção para o fato de que Bryant focou em conexões reais com pessoas que, assim como ele, também estavam em risco e não tinham nenhum poder, enquanto todos os jogadores estavam preocupados em cair nas graças das influencers Savannah e Terilisha.
A eliminação de Bryant não chocou e nem incomodou, muito pelo contrário: ela foi simbólica, representativa do espírito dos jogadores da segunda temporada. Não adianta ser coração, ser querido e fofo, porque ser legal e “ser você mesmo” não vai te levar longe desta vez. Ao escolher jogar com o coração, Bryant negligenciou qualquer viés estratégico. Isso teria funcionado muito bem na primeira temporada, mas não mais. Não com o elenco deste ano.
Apesar disso, seus últimos momentos com River foram fofos, e a humanidade da sua mensagem final era algo que eu realmente adoraria (e talvez precisasse) ouvir caso estivesse no game. É importante não se desconectar completamente da nossa humanidade, e Bryant proporcionou isso aos jogadores, uma forma muito digna de dizer adeus.
Amigas e rivais

É muito chocante ver como as duas grandes amigas se tornaram inimigas mortais após a reunião de influencers, e a causa de tudo isso ficou bastante perceptível pela história contada pela edição: Terilisha queria Courtney (aliado de Savannah) eliminado, e retornou dessa reunião contrariada porque isso não aconteceu. Terilisha, então, tentou descontar sua frustração jogando publicamente a culpa da eliminação de Bryant em Savannah, e, a partir daí, toda a confusão se instaurou. Os acontecimentos que sucederam compõem o que pode ser chamado de o mais puro TV GOLD que o The Circle já nos entregou!
Savannah e Terilisha, cientes de que a guerra havia se iniciado, começam, então a formar seus exércitos. As pessoas envolvidas entendem o que está acontecendo e escolhem seus lados, mas são espertas suficiente para deixar o lado oposto confortável para não se prejudicarem (destaque para Chloe e Emily, que estavam claramente do lado de Terilisha, mas conseguiram iludir Savannah como jogadoras profissionais!). Assim, quando as duas se tornaram influencers e Trevor ficou novamente em terceiro, o destino de Savannah já estava praticamente ceifado. Acho até que a edição foi bastante falsiane ao dar a sensação de suspense. Tenho certeza de que, para as duas, foi uma decisão razoavelmente fácil diante das interações que vimos.
Mas o que a conversa das novas influencers permitiu que víssemos foi a perspicácia de Chloe, que leu perfeitamente a estratégia de Emily assim que recebeu sua primeira mensagem. Em uma temporada tão estratégica, vai ser difícil que Jack sustente essa personagem por muito tempo sem sofrer retaliações.
Por outro lado, Chloe tende a falar demais, e as informações que ela deu a Jack foram bastante valiosas, porque permitiram que ele identificasse, pela primeira vez, o domínio que Chloe está exercendo sobre todo o elenco, e portanto, a enxergasse finalmente como a ameaça que ela está se tornando. Vamos ver como essas novas impressões desses dois jogadores um sobre o outro irão impactar o jogo. Provavelmente algo pode acontecer em longo prazo, mas não deve haver nenhuma ação imediata em consequência dessas informações. Porém, depois de Savannah e Terilisha saindo do Hangout direto para as trincheiras, nada mais vai ser capaz de surpreender.
Savannah era uma jogadora consideravelmente melhor do que Terilisha (tanto que ficou acima dela no ranking em que as duas despencaram), mas as cartas não foram dadas em seu favor com essa dupla de influencers. Entretanto, por mais que eu tenha odiado ver minha maior torcida da temporada sendo eliminada tão cedo, não dá pra dizer que Emily e Chloe erraram em eliminar uma jogadora desse calibre.
O conselho de Savannah para Courtney na visita foi cirúrgico: elimine Emily. Emily é a jogadora com a qual deve-se tomar cuidado, porque ela se faz de neutra e de apática, mas na verdade está, sim, fazendo jogadas estratégicas e influenciando o jogo. Terilisha é o tipo da jogadora que se afunda sozinha; Emily, se não for diretamente atingida, vai conseguir passar despercebida.
Essa leitura de Savannah é uma verdadeira aula de como se jogar The Circle, e vamos torcer para que seu aluno tenha aprendido a lição. Courtney não é lá dos jogadores mais torcíveis do mundo, mas vai ser interessante ver o impacto dessa visita e, principalmente, da vantagem do Inner Circle, no jogo do blogueiro de celebridades. Aliás, mais uma vez, precisamos aplaudir a produção do The Circle por se manterem sempre criativos e inovadores com twists inéditas, e nos perguntarmos: o que raios será o Inner Circle?
A melhor teoria que vi me foi apresentada pela leitora e amiga Samyra Santos, que comentou que talvez, nessa sala, Courtney poderá escolher uma pessoa e ter acesso – total ou parcial – ao seu último ranking. É uma vantagem muito interessante, mas ao mesmo tempo, não é algo superpoderoso que o deixaria num patamar estratégico acima dos demais. Alguém tem mais teorias? Tenho certeza de que não sou o único que está ansioso, mas logo logo iremos descobrir. Até a próxima semana!
Ranking

1. Chloe: ela ficou em #1 no ranking, mas não parece que sofrerá qualquer consequência desse domínio de jogo. Tem uma ligação forte com todos os jogadores, e mesmo aqueles que não gostaram da eliminação de Savannah provavelmente mirarão nas outras duas garotas antes de se preocuparem com ela.
2. Trevor a.k.a. Deleesa: eu não falei muito sobre ele neste texto, mas isso nem de longe significa que Deleesa tenha poucas chances de vencer. De fato, se tem algum fake nesta temporada com condições de levar o game, é ela. Deleesa precisou tomar algumas liberdades para se fazer de solteira (o que foi uma excelente ideia, é só ver o comportamento de Chloe), mas, em essência, ela está usando pessoas reais como referências, e as pessoas mais próximas possíveis: o marido e a filha. Isso faz com que suas interações com as pessoas se tornem muito genuínas e similares ao que ela realmente diria caso fosse ela mesma. Trevor tem um futuro promissor neste game, e só deve ser eliminado se for enxergado como grande ameaça.
3. Courtney: a visita de Savannah e a vantagem que receberá podem deixar Courtney numa posição bem mais interessante no game. Ele é o tipo da pessoa que vai estar sempre em risco, mas, ao mesmo tempo, pode ir passando despercebido e ganhando o espaço que precisa para se posicionar de forma definitiva.
4. River a.k.a.Lee: Lee é extremamente fofo e querido, mas caiu naquele velho problema que assola os jogadores que tentam usar fakes muito distantes de quem eles realmente são: River tornou-se um personagem sem graça e sem brilho, e a ausência de conexões interessantes pode torná-lo um alvo fácil a qualquer momento. Por outro lado, nunca será uma ameaça, então pode ser que vá sendo arrastado até bem longe.
5 .Emily a.k.a. Jack: apesar de ter prometido fazer e acontecer e não ter sido tão vilão assim, Jack está jogando muito bem e impactando fortemente o jogo sem que as pessoas percebam. Savannah só entendeu isso quando era tarde demais, mas, como ela passou a informação para Courtney, Emily cai um pouco no ranking por ter entrado no radar do blogueiro. Caso contrário, ela provavelmente estaria no topo.
6. Terilisha: impulsiva e pouco estratégica, Terilisha destoa um pouco do perfil geral dos jogadores da temporada. Ela conseguiu um social bom suficiente para garantir a própria segurança porque correu para atirar Savannah aos lobos primeiro. Se ela jogar sempre com o elemento surpresa dessa forma, talvez acabe ganhando vantagem sobre seus rivais quando necessário. Mas, de maneira geral, parece ser o tipo de jogadora que irá se colocar sempre em evidência de forma negativa.
7. Lance Bass a.k.a. Lisa: com certeza a maior decepção da temporada até aqui. A ideia de se passar por Lance Bass parece uma loucura absurda, mas, quando a informação de que Lisa é sua assistente pessoal vem à tona, de repente soa como extremamente genial. O problema é que Lisa não tem tato social suficiente para interpretar o artista pop, e acabou metendo os pés pelas mãos. Só irá durar caso perceba a importância de se tornar um número para um dos lados do jogo, mas tem todo o perfil de quem irá ser eliminada em uma das primeiras oportunidades.














