Sinta o fogo.
Perigo: spoilers!
“So no matter what I do, hooray for me because I’m a great guy?” – Jesse Pinkman
Uma coisa que me fascina na quarta temporada de Breaking Bad é como ela sabe trabalhar com maestria o gradual aumento nos níveis de tensão. Tanto nos personagens quanto na trama, dá pra sentir a escalação da fúria, de todo um ímpeto narrativo que mesmo não sendo entregue antes do tempo, parece claro. Assim como Gus na longa sequência do assassinato de Victor em “Box Cutter”, é um preparo sem caprichos ou erros – se a perfeita terceira temporada (repito: perfeita) funcionou pela sua imprevisibilidade explosiva, a quarta sucede por trazer esse mesmo elemento de um modo mais focado, adicionando presságios apocalípticos no caminho.
Considerando que Breaking Bad é escrita na base da improvisação (nada de planinho Lostiano aqui), Vince Gilligan está fazendo algo realmente único. Ele não só balanceia todos esses elementos que transformam a série no mais improvável e fascinante dos thrillers psicológicos, como sabe medir o peso dos tons que dominam as beiradas de toda essa tensão. Afinal, quanta tristeza nós podemos suportar? Quantos socos na cara uma série pode nos dar, semana após semana, e ainda nos manter fissurados em assistir cada episódio? A resposta: vários, desde que eles venham com a motivação necessária.
Quer dizer, quando Jesse terminou o seu discurso da semana, eu estava preso na minha cadeira. Era algo que ele precisava. Desabafar, deixar tudo isso sair da sua mente, bater na parede e voltar. E mesmo sendo para o bem, mesmo sabendo que é parte da sua jornada para escapar do péssimo lugar emocional em que está, o momento não deixa de ser devastador. Aaron Paul pega você e te carrega. A câmera rola, deixa-o dominar a tela e cada segundo do tempo. Cada vez que a confissão se aprofunda, ele se afeta fisicamente. Cai contra a cadeira ou sob o peso do próprio corpo, se entregando por completo ao personagem – não só isso, mas o compreendendo. Nos olhos, o homem contendo a emoção. Na fala, o menino indignado. E no discurso, alguém que amamos clamando por ajuda. Qualquer ajuda.
É fácil entender Breaking Bad como a jornada de Jesse. Muito fácil, até. Se por Walter temos um pouco de empatia, por ele também temos simpatia: entre as suas gírias e trejeitos, é difícil não se afeiçoar por alguém que com um pouco mais de carinho, um pouco mais de conselho, poderia ter tido sucesso. Poderia ter tido uma vida, um trabalho, uma família. Todos reais, sem precisar procurar substitutos nas drogas, em um laboratório ilegal e em… Walter White.
Mas isso é apenas a marca de uma grande série, essa noção de que cada personagem poderia carregar as suas próprias histórias. Afinal, existem poucas coisas piores que servos do protagonista, simples instrumentos da trama sem vida própria. Quebra a credibilidade das pessoas daquele mundo, o contrato implícito entre telespectador e série de que existem consequências que estão fora da nossa perspectiva. Que existe um elemento de realidade e que existe uma lógica básica em tudo que é feito ou dito. Ali as pessoas estão indo por todas as direções – mas nos bons dramas, assim como na vida, não são todos que seguem a mesma.
E caso sigam, como vamos levá-los a sério?
Vejam Hank, por exemplo. De palhaço para figura trágica, o momento em “Problem Dog” no qual ele finalmente se ergue e marcha em direção ao escritório é heróico. Serve como resolução de várias pequenas cenas da temporada e dá todo um peso dramático ao assassinato: se a morte de Gale viver através do caso, essa superação de Jesse é inútil. Em poucos episódios, a culpa vai voltar e ser despejada na cara dele, reacendendo todos os mesmos sentimentos. Já por si só, também funciona como um momento de pura glória – algo que torna suportáveis cenas cruas e poderosas como as de Jesse.
Ou seja, as motivações das direções que ele decide tomar são ricas. Fator esse que o permite fazer coisas que outros personagens não podem. Walt explode e com isso deixa vítimas por todos os cantos… E mesmo sendo pego pelo impacto, Hank não se deixou queimar. Lentamente (que ganha justificativa e qualidade na fisioterapia que acompanhamos, nos problemas do seu casamento, no fascínio com minerais etc) conseguiu se arrastar pra fora das chamas que o cunhado criou – metáfora visual para o Efeito White que é até usada em uma das primeiras cenas do episódio.
E sim, isso tudo funciona como um artifício da trama. Coloca a situação contra Walt e complica o estado de Jesse – mas é um artifício baseado em fortes traços do personagem que o traz. Quando a mobilidade de Hank ressurge (mesmo que com ajuda), é merecido. Ele não é um objeto de cena ou um soldadinho, ele é HANK SCHRADER! O homem, a lenda, o herói inesperado de Breaking Bad.
Que assim, com uma simples desconfiança, joga todas as possibilidades da temporada no ar. Falei acima sobre como existe esse clima de apocalipse iminente, mas ao contrário da segunda temporada – com seus ursinhos de pelúcia queimados em preto e branco –, não recebemos uma indicação do nosso destino (o que faz sentido, já que toda a temporada se constrói em cima de pura tensão acumulada). Gus pode morrer, Hank pode descobrir a identidade de Heisenberg, Walt. Jr. pode acabar se envolvendo e virando uma parte importante da temporada, lealdades estão abaladas e confusas no meio de brigas internas… A diversão está em nada ser muito certo, e não só nisso, mas em observar a série prezando essa qualidade com a mesma eficiência que preza todos os seus outros aspectos.
O cuidado é tão grande que em “Problem Dog” ela chega a quebrar uma de suas regras. Assim como The Sopranos e The Wire, Breaking Bad não costuma ocultar acontecimentos da audiência. O mistério está sempre no futuro, não no passado. Aqui, o problema de Gus com o cartel não é dito para a audiência… E ele já ocorreu. Estamos um passo atrás dos personagens, o que é uma contradição aos costumes da série – que funciona apenas pela total confiança e absorção com a qual executa a cena. Não é só Gus que está se preparando para uma reunião, não é só o longo processo de preparação que vemos. É Jesse lidando com os seus sentimentos enjaulados enquanto se infiltra cada vez mais na organização, é Mike desenvolvendo uma relação com o garoto, é a sombra de Walt se espreitando em cada conversa… Decisão tão consciente de si mesma, e além de si mesma, que Gilligan pôde tomar sem criar nenhum estranhamento.
Caso continue e se expanda, é perigoso. Mas depois de tudo que fez e de todas as coisas com a qual se safou, confio em Breaking Bad até com a minha senha do banco. E “Problem Dog” (melhor episódio de uma temporada que se supera a cada semana) só fez reforçar isso – tendo êxito tanto como uma daquelas longas análises emocionais que Breaking Bad costuma fazer, quanto uma preparação de terreno para o inferno que vai cair nas cabeças dos personagens.
Outras observações:
– Não significa muito para o episódio, mas acho digno de nota o retorno do Gomez e das provocações feitas por Hank. Sempre agradável.
– Tenho certeza que as pessoas naquele encontro ficariam bem menos enojadas com a história real do que com a do cachorro.
– Sim, sim, temos Gus, armas, digitais, DEA, cartel, Hank… Mas o objetivo final do lava-jato ainda é um dos aspectos que mais me intriga na temporada. Lavagem de dinheiro poderia muito bem ocorrer fora de tela, e existem outras maneiras de mostrar a corrupção de Skyler ou aumentar as suspeitas de Hank, então imagino que exista um ponto de chegada obscuro no final de tudo isso.
– Um dos grandes pontos do episódio é sobre como Walt “convence” Jesse a matar Gus, mas isso serve somente como o exemplo da semana no quesito tensão e nos temas sobre como Walter está se sentindo em pânico – algo que já falei até exaustão nas outras reviews. Também não foi sobre o assassinato em si, servindo mais como um agravante que acabou levando Jesse a procurar conforto naquela reunião do que um momento “ELES VÃO MATAR O GUS!!!”.
– Já que estamos no meio da temporada, gostaria de saber um pouco mais sobre como vocês estão se sentindo em relação a ela – tanto em retrospecto, quanto em conjunto. Toda essa tensão amontoada, por exemplo, está funcionando com vocês? Ou soa meio cansativa/contraditória quando comparada ao desenfreio da terceira? Quem vocês acham que não vai sair vivo na reta final? Mandem ver nos comentários.














