As melhores histórias de mistério tendem a lidar com a dúvida mais do que com o acúmulo de acontecimentos. Para criar tensão no telespectador, não é preciso que tenhamos fatos devorando fatos numa bola de neve que atropela a própria trama em seu caminho. O roteiro deve nos dar motivos suficiente para acreditarmos totalmente em mais de uma hipótese, deixando-nos inclinados a acreditar em tudo ou em nada, ambos impossíveis diante de um mistério solucionável. Flertando com essa brincadeira, maneira astúcia de conquistar a atenção do telespectador e manipular suas certezas, The Pale Horse estreou na BBC este ano.

No especial de Agatha Christie anual, que foi ao ar em fevereiro, ganhamos desta vez uma adaptação do livro The Pale Horse (O Cavalo Amarelo no Brasil). A série foi dividida em dois episódios e teve direção de Leonora Lonsdale. O roteiro ficou novamente nas mãos de Sarah Phelps, responsável pelos anos anteriores. A quinta adaptação da roteirista é adicionada à maravilhosa And Then There Were None (2015), à perturbadora The Witness for the Prosecution (2016), à divertida Ordeal by Innocence (2018) e à apática The A.B.C. Murders (2018). Esta última muito criticada por mexer na personalidade e no passado do detetive Hercule Poirot e por sua monotonia — para mim, com certeza o mais grave.

The Pale Horse.

A dupla formada por Phelps e Lonsdale se sai melhor na tarefa de apresentar um mistério de Agatha Christie este ano. Mesmo que ainda tenha uma estranha predisposição a digressões visuais que se tornam repetitivas, a roteirista comete menos erros do que em seu trabalho anterior. Em cada nova imersão no universo da escritora inglesa, Sarah parece querer retratar um aspecto diferente de suas fábulas, ora atribuindo um contexto político à narrativa, ora investindo na força das personagens femininas que nos são apresentadas. Aqui, o texto fala sobre fé e a possibilidade de manipulação através dela.

Começamos de maneira muito atrapalhada, com um foco disperso que demora a se assentar. Quando isso ocorre, conhecemos nossas personagens principais: o casal formado por Mark (Rufus Sewell) e Hermia Easterbrook (Kaya Scodelario), unidos em matrimônio meses depois da última esposa dele falecer em um acidente. Ainda com o luto muito presente em seu dia a dia, o que complica o relacionamento neste novo casamento, Mark vira o centro de um estranho mistério: seu nome é descoberto numa lista de sobrenomes encontrada no leito de morte de uma desconhecida. Temendo que seja de alguma forma incriminado ou que corra perigo, ele começa a investigar o enigma, o que o leva a uma jornada sobrenatural.

The Pale Horse.

The Pale Horse foge muito do estilo de Agatha Christie. Isto não seria um problema se a série não fosse literalmente vendida com o nome da autora seguido de apóstrofo. As liberdades tomadas nos deixam dúvidas demais, furos na história e um texto pouco preocupado com responder todas as questões que trouxe. A escritora, por outro lado, trazia complexos casos em seu enredo, mas as explicações estavam sempre presentes ao final. O interesse de Pale Horse, então, é pela atmosfera, por explorar o flerte que Agatha Christie teve com o sobrenatural neste trabalho.

Durante a jornada, temos diversos pesadelos sendo mostrados nos quais Mark é mergulhado por conta das culpas que carrega consigo. Também encontramos três figuras enigmáticas que se aproveitam da abertura do roteiro para fazer aparições repentinas e mexer com nossa capacidade de distinguir aquilo que é real e aquilo que as personagens gostariam que fosse. Essas passagens que contém elementos de horror em si fazem bom contraponto às personalidades que nos são mostradas, pois logo percebemos que ninguém é muito inocente nessa história.

Sarah Phelps optou por deixar uma detetive que fazia parte da história original de lado, fazendo sua adaptação girar em torno do protagonista. Mesmo o papel da personagem de Kaya Scodelario parece pequeno demais. Assim, é com Mark que ficamos boa parte do tempo, compreendendo seu caráter e os motivos que o levam a tomar certas decisões. É basicamente a saga de um homem descrente aceitando o sobrenatural como possibilidade quando implicado em situações complicadas. O ator Rufus Sewell se sai bem na tarefa, enganando-nos perfeitamente quando isto é requerido; em outros momentos, consegue demonstrar um remorso convincente.

The Pale Horse vai se entregando cada vez mais à possibilidade de que é uma série sobre bruxas de uma vila enfeitiçando pessoas sob demanda até chegar às conhecidas reviravoltas da rainha do crime. Mesmo então, a série nunca retira totalmente sua inclinação para aquilo que não pode ser explicado, sendo esta a ousada contribuição de Sarah ao universo da obra original. Desta vez, seu interesse parece estar no lugar certo, nunca deixando sua intenção muito transparente no processo de adaptação como o fez no ano passado. Falta-lhe ainda a consciência de que mistérios não precisam ser construídos com momentos de divagação. Para dar vida a essas cenas e suas rotações sobre si, temos uma direção e edição fazendo transições pouco ágeis. Por outro lado, a minissérie pode ser aplaudida por seu belo visual, figurino e cinematografia, presença confirmada nas séries do canal.

The Pale Horse.

Quanto ao mistério, temos em sua condução o grande mérito de Pale Horse. Se saímos do primeiro episódio perdidos e desinteressados, ganhamos um segundo com boas perguntas e uma traiçoeira fórmula para captar nossa atenção e nos deixar tão suscetíveis às respostas fáceis quanto o protagonista. A conclusão, branda e dispersa, pode não ter sido ideal e não fazer jus à maneira de Agatha Christie de dar um desfecho a suas histórias, mas isso não condena a minissérie. Não tem Sarah Phelps em seu melhor, mas nos faz crer que ao menos o pior já passou.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-em-the-pale-horse-agatha-christie-flerta-com-o-sobrenaturalThe Pale Horse não nos lembra totalmente do trabalho de Agatha Christie, mas sabe construir um mistério que coloca os telespectadores constantemente em dúvida.