Qualquer realizador do audiovisual ou de outras mídias e plataformas que decide contar uma história envolvendo zumbis vai lidar com a seguinte questão: o que há mais para ser dito? Além desse problema inicial, que nunca foi lá um problema real à indústria que fala sobre o que quer falar independentemente da originalidade ou razão de ser de suas produções, temos outro encaixado. Neste segundo, a pergunta é: quanto da influência internacional entrará em nossa história? Os produtores, roteiristas e diretores que não desejam apenas preencher as grades de seus canais, mas pretendem fazer algo relevante e que influencie outras narrativas, terão que chegar a boas conclusões antes de prosseguir nessa jornada. É tentando responder a essas perguntas que Betaal estreou em maio deste ano na Netflix.

O original indiano da plataforma de streaming tem um modo internacional de lidar com a questão dos zumbis, tomando emprestado certa maneira estadunidense de desenvolver a lógica de seu roteiro. Dessa forma, parecemos às vezes assistir a uma versão asiática de Resident Evil. Não dá para tomar esta série de horror como um exemplo isolado, no entanto, uma vez que diversos gêneros sofrem dessa influência, e mesmo o modelo de escrever roteiros que temos é internacional. Cabe a cada produção trapacear nos contornos deste quadrado no qual são inseridas para corresponder às expectativas norte-americanas.

Betaal.

Para lidar com este desafio, Betaal investe na história de seu país, nos conhecidos conflitos territoriais que o marcaram e no folclore local que reinventa monstros criados a partir de lendas longínquas e reformulados na lógica mercadológica para a qual o horror às vezes se vende. Temos aqui um grupo de soldados utilizados para varrer uma área de possíveis rebeldes/terroristas e abrir um túnel. Depois da abertura deste, no entanto, percebemos que havia um motivo para que um grupo local lutasse até o último momento para que isto não ocorresse. Do escuro de tal ambiente, renascem criaturas de um exército imortal contido até então.

Como é possível deduzir do resumo acima, não temos uma doença/vírus como causa principal do clima apocalíptico da história. Na série, temos uma maldição ligada à ganância daqueles que a evocam e um misticismo explicando os mortos vagando entre os vivos. Isso dá à trama uma mistura interessante o bastante para que saiamos por um momento do percurso que histórias como esta costumam seguir. Ainda ganhamos uma história consciente dos próprios mitos, que não deixa de falar sobre egocentrismo e sacrifícios do começo ao fim, ligando as reflexões das personagens aos monstros que elas enfrentam, quase como se o mal que as espera fosse uma representação dos demônios que precisam enfrentar em suas vidas. Por esta razão, os episódios parecem transitar por um limbo, onde seres-humanos com atitudes reprováveis foram parar por motivos diversos e precisam penar como consequência aos danos que causaram em vida.

Betaal.

Seguimos uma unidade de elite, uma pequena família cujo patriarca é um homem que orquestrou a operação e destruição do túnel e os residentes de uma vila que protegiam o túnel. Os três grupos se juntam e se confundem quando o mal desperto começa a persegui-los. Encurralados dentro do que serve de fortaleza aos sobreviventes, aprendemos mais sobre suas personalidades, seus passados e o que é essa multidão de mortos-vivos que os perseguem.

Dentro deste refúgio, muito é discutido sobre autoridade. Como é de se esperar, temos o comando do grupo sendo questionado diversas vezes e a responsabilidade por seus destinos passando de mão em mão — e nem todos estão a seu lado. Tudo em Betaal soa derivado e reduzido a uma versão inferior de suas referências, então mesmo esta briga por continuar relevante nessas circunstâncias parece familiar. Ainda assim, há bons momentos dentro deste jogo.

Betaal.

Betaal faz uma ousada escolha em seu roteiro: começa a história nos apresentando personagens detestáveis. Assistimos a cruéis assassinos e ambiciosas pessoas passando por cima de tudo o que conseguem descrever como “inimigo” a seus interesses pessoais — ou aos interesses daqueles que os comandam. Enquanto desfilam sua arrogância e complexo de Deus a nossa frente, não podemos não sentir antipatia às personagens e achar que merecem o destino que encontram, sua penitência. Nos episódios seguintes, este primeiro retrato terrível vai sendo questionado, e a série se esforça para nos fazer mudar de ideia. É algo interessante de acompanhar, uma vez que é regra geral que sintamos empatia por personagens para que tenhamos uma experiência engajadora. Há uma boa quebra de expectativa nesse sentido, pois criamos laços com pessoas que havíamos condenado de primeira.

Mesmo com esta e outras positivas sacadas, Betaal não deixa de ter um roteiro pouco inteligente. Os recursos utilizados para dividir as personagens, e as decisões que estas tomam uma vez isoladas requerem paciência demais do telespectador. Temos um perigo anunciado no caminhar deste exército regresso que varia sua intensidade de forma conveniente, ora parecendo letal e invencível, ora sendo posto de lado com cobertores. Vikram Sirohi (Vineet Kumar Singh), nosso protagonista, tem uma boa saga e destino dentro da história, mas as outras personagens não são suficientemente aprofundadas para que não acabemos dependendo de seus atores e o quão carismáticos eles são.

Betaal.

Betaal foi ao banco de histórias internacionais e retirou uma fórmula com a qual cavou dentro de sua cultura para nos apresentar algo que pareça local, mas com um apelo ao público de fora. Assim, um pé lá e outro no continente americano, ganhamos uma fábula sobre ganância com um princípio moral quase oco e que nunca se compromete o bastante para falar sobre processos de colonização como poderia. Há boas cenas e bons momentos de tensão, mas uma quase inexistente contribuição ao gênero que coloca em questão a existência da própria série.

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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
critica-betaal-e-um-desajeitado-terror-indianoMesmo sacadas positivas, Betaal não deixa de ter um roteiro pouco inteligente.