Uma das manias que eu adquiri nos meus anos de experiência como Série Maníaco e membro do Clube do Ódio ao Spoiler, foi de iniciar uma série sabendo o mínimo possível do que se trata, no aguardo inocente de cada surpresa programada na trama. Algumas vezes caio numa armadilha maldita de quebrar a cara numa alta expectativa e pouca informação sobre o show (beijos, Luca Guadagnino), por outras me surpreendo ao achar o Rafael Portugal vestido de rola a melhor piada da televisão brasileira.

Homens? é basicamente uma grande cebola seriada com diversas camadas exploradas ao longo das suas duas temporadas e 16 capítulos. De início, aparenta ser mais uma comédia brasileira sobre homens solteiros brancos cariocas surfando na onda do machismo, esbórnia e álcool, algo meio “E aí, comeu?”, mas a cada 30 minutos, é um passeio satírico, real e necessário sobre o comportamento médio do brasileiro. Uma tetra observação e representação da cultura machista normalizada difusamente no país.

A grande questão nessa expectativa errônea foi desconsiderar o talento por trás do texto, criação e protagonismo da comédia: Fabio Porchat. Possivelmente o melhor comediante brasileiro atual, dono de especiais de stand up excelentes, responsável pela fase de ouro do Porta dos Fundos e por um dos filmes mais subestimados do cinema brasuca: Entre Abelhas. Após poucos desenrolares de trama, é nítida a influência da mente cômica do rapaz que constrói, mesmo abordando temas corriqueiramente problemáticos da sociedade, um roteiro totalmente atual e woke que entretêm, condena e educa.

A premissa de quatro amigos em seus 30 e poucos anos lidando com os problemas e gozos da vida de cada um entre si e com o grupo é bem batida no mundo televisivo, mas o grande diferencial vem da capacidade do roteiro em torcer a narrativa e procurar um desenvolvimento maduro, reflexivo e justo de cada personagem. Isso sem falar do perfeito timing contemporâneo do politicamente correto necessário. A partir disso, temos quatro potenciais mini tramas a serem exploradas, um leque muito bem aproveitado de opções de paradigmas e tabus a serem discutidos e quebrados, seja na ficção ou em no real com o espectador.

Alexandre abre a série precisando compartilhar com os amigos mais próximos a constrangedora verdade de estar impotente e de cara a série já toca o dedo na ferida da masculinidade frágil em razão do medo de ser zoado e não levado a sério, logo agora quando precisa. É do personagem principal que se inicia a revolução consciente não toxica do grupo, com o incomodo do mesmo com a falta de seriedade dos amigos num assunto tão importante para ele e com isso, novas portas vão se abrindo para o descobrimento do homem eticamente cego e paredes de preconceito desmoronando.

A partir disso, cada um dos amigos do Alê (Pedro, Pedrinho e Gustavo), embarca na própria jornada interna de abertura de fronteiras mentais e nas mais variadas óticas e representações. Dessas, a minha favorita foi a do último, o eterno meninão mimado solteiro sem responsabilidade, criado num berço machista e privilegiado, que se vê pela primeira vez diante de um dos maiores conflitos do solteiro: estar apaixonado. Toda a construção do sentimento do personagem foi bem feita se apoiando numa mudança gradual e natural da sua personalidade não cimentada, o que acabou se tornando uma característica importante do roteiro para ele e todos os quatro amigos do grupo, e quiçá uma das maiores virtudes da comédia.

Pedro representa a parcela casada do homem brasileiro não fiel e não arrependido, isso até a casa cair. Descascando a cebola, é possível acompanhar a sua insegurança acerca da infertilidade, a salvação do casamento ao experimentar a casa de swing com a esposa e o seu sofrimento com a separação. Em comparação, foi menos desenvolvimento positivo de personalidade e comportamento, e mais sofrimento com a consequência de uma série de decisões egoístas erradas.

Já o Pedrinho, na primeira temporada, foi importantíssimo para abordar o assédio sexual no trabalho, mas de forma reversa, quando o homem rejeita a tentativa feminina e se sente incomodado. A ironia do descaso feminino com a situação e não compreensão pode parecer absurdo ficcional, mas infelizmente no mundo onde acham que roupa curta é desculpa para estupro, hipocrisia de gênero é palpável e real. Problema visto também na personagem da Maytê Piragibe carregando a personalidade da mulher não feminista e sem papas na língua, novamente realíssima no cenário atual.

Por alguma razão, o pequeno Pedro recebe bem menos enfoque na segunda temporada, mas com importância preservada ao debater com os amigos sobre a possibilidade de se envolver com uma mulher trans, mostrando logo de cara que não tem problema, embalado pela sabedoria de Seu Jorge: Mulher bonita mexe com o meu coração. 

Se fosse para fazer uma comparação entre as duas temporadas, considero a segunda como a melhor, e olha que eu terminei a primeira achando uma tremenda série. Nos 8 capítulos finais, Fabio e sua equipe de roteiro decidem aprofundar mais na relação masculina. Se no início foi um embate intrapessoal ou geracional, agora a discussão se estende de pai pra filho.

A introdução do pai do Alê na história trouxe diversos bons frutos para as discussões e piadas da série, assim como a de Gael como novo colega de quarto do protagonista, mesmo em menor intensidade. Para o personagem de Porchat, foi possível aprender com o jovem negro e bissexual e desconstruir a mente machista fechada do seu pai, o famoso tiozão do futebol que todo mundo tem como pai ou tio.

Curiosamente, tanto pai quanto filho vivem problemas parecidos em seu cerne, doloridos pela enraizada cultura machista perpetuadora. O primeiro, ao preferir morrer do que ser “broxa”, com a preocupação estampada e palpável de não conseguir mais transar e com isso, sua vida perder todo o significado. Já seu primogênito, um medo louco e presente de se mostrar incapaz para transar, um pensamento de que se a sua espada não sobe, toda a sua virilidade escorre para o ralo. Ambas problematizações vem da pressão social de que homem que é homem tem que comer o que vier pela frente, sem negar ou reclamar, e que qualquer situação contraria a essa máxima, seja apedrejada verbalmente com as zoações de amigos.

Como um produto final completo, até aqui, ‘Homens?’ se apresenta como uma série que pretende satirizar, representar, educar e desconstruir ideias ultrapassadas e grosseiras para os tempos atuais. Se compromete a mostrar pro homem que o verdadeiro macho é aquele que não é machista, além de dar luz e voz e espaço para mulheres serem mais reais, tanto no dialogo quanto nas atitudes. Já que estamos aqui e a review acabando, deixa eu enaltecer Lorena Comparato espetacular no papel da Tainá como a guia turística do Alê desbravando o novo mundo correto social.

Fora todos esses elogios, a comédia apresenta um arsenal textual completo, utilizando de quebras de 4ª parede inesperadas e pontuais, amplamente explorada no segundo ano, referências soltas e criativas de programas icônicos da TV tupiniquim, como o Plantão da Blogo, Programa da Marcia e, confesso o meu favorito disparado, a porta dos desesperados com o ICONE Sérgio Mallandro. Todos esses recursos inteligentes para pescar a atenção e interesse do público, executada de forma primorosa. Um dos grandes trunfos foram as esquetes dentro de cada episódio com representação cômica e livre de assuntos sexuais e problematizados, como os espermatozoides à caminho do óvulo e as tantas participações do Rafael Portugal como o pênis emotivo do protagonista, facilmente, o melhor personagem da trama.

‘Homens?’ é basicamente um dos melhores produtos televisivos brasileiros, não é somente humor barato fácil e acessível para qualquer um, é uma jornada pelas camadas da cebola cômica do homem atual, é uma desconstrução de ideias passadas naturalmente por gerações, uma cartilha educativa de comportamento humano e sexual perfeita, disfarçada de humor e entretenimento. O que Big Mouth e Nick Kroll fazem para os pre-puberais, Porchat faz redondamente caprichado para o sexo masculino moderno.

Considerações finais:

– Rafael Portugal como o Pênis do Porchat é um trabalho digno de Emmy, o cara está absolutamente perfeito no papel e funciona absurdamente bem nos mini esquetes que a série tem dentro do enredo para aumentar o poderio cômico. Sem dúvidas, o meu personagem favorito.

– Dois ganchos deixados no season finale: Nathasha grávida e o roteiro mais uma vez brincando com a 4ª parede e metalinguagem dentro de si próprio e o Alê inaugurando no clube de swing e ficando com a Mari, uma surpresa total, já que eu estava esperando um final mais cômico mostrando a Rola Portugal no paraíso todo feliz na sacanagem.

‘Homens?’ é uma série do canal Comedy Central da TV a cabo e todos os episódios estão disponíveis no Amazon Prime Video.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-homens-de-fabio-porchat-e-uma-comedia-que-entretem-condena-e-educaComo um produto final completo, até aqui, ‘Homens?’ se apresenta como uma série que pretende satirizar, representar, educar e desconstruir ideias ultrapassadas e grosseiras para os tempos atuais.