Dos títulos pouco singelos da história da televisão, Amazing Stories estreou em 1985 sob o comando de Steven Spielberg. Grande nome à época e grande nome hoje em dia, é de se imaginar que estaríamos diante de histórias maravilhosas (como foi traduzido o título da série por aqui). Antes da estreia da série, o diretor já havia nos presenteado com três de seus clássicos, provando certa versatilidade para desenvolver enredos extraordinários, sendo estes sobre a amizade entre uma criança e um extraterrestre ou tubarões rondando uma praia. Não ficaríamos tão duvidosos que os episódios de fato trariam enredos encantadores — um deles dirigido pelo próprio Steven, outro roteirizado por ele, enquanto tantos outros contavam com um argumento seu.
Fracasso de audiência, Amazing Stories foi sucesso de crítica, conquistando ao diretor sua primeira indicação no Emmy Awards. Não renovada depois do contrato inicial, como acontece mesmo hoje nessa nossa era de streamings, Amazing entrou para a galeria de séries “colecionáveis” aos fãs de ficção-científica ou do extraordinário em geral, galeria tantas vezes acessada pelos criadores e produtores das antologias futuras para se inspirarem.

O anúncio do retorno de Amazing Stories foi interessante por uma série de motivos. Em primeiro lugar, contávamos com uma série fixada no imaginário de muita gente voltando para disputar a atenção com as antologias de agora. Em segundo, o nome de Spielberg continuava ligado ao projeto, mesmo que aqui ele não dirigisse nenhum seguimento. Outro ponto a se destacar é que tendo sido negligenciada pela audiência à sua época, talvez agora fosse o momento em que Amazing Stories descobriria seu público. Assim, estávamos prontos para as tais histórias extraordinárias. O problema é que não as obtivemos nessa primeira temporada.
O papel que o sobrenatural tem nas histórias da série se manteve o mesmo, o que é sempre bem-vindo. Conforme o enredo se desenvolve, as personagens vão entrando em contato com um mundo mágico, de possibilidades, no qual a realidade é distorcida para que o extraordinário possa acontecer. Assim, temos regras lógicas e físicas sendo quebradas e pouco interesse em verossimilhança. Ao que parece, a importância aqui é contar uma boa história. Isso funcionou no passado e ainda é o maior ponto positivo neste retorno da série. A impressão, no entanto, é que o cenário construído, o palco acima do qual estes enredos nos serão apresentados, é mais intrigante do que seu desenvolvimento. É como aquela história que seu amigo te conta em um sumário brevíssimo porque está sem tempo e depois, quando possível, te detalha. Neste segundo momento, você infelizmente percebe que a narrativa apenas parecia interessante.

Temos um casal transitando entre passado e futuro, uma menina presa numa pós-vida de regras incertas, um soldado que voa (literalmente) da II Guerra Mundial para o presente, o avô de um jovenzinho ganhando superpoderes e extraterrestres ocupando corpos em coma. Se essa versão resumida parece interessante, lembremos do exemplo que eu acabei de deixar como hipótese. O que ocorre no retorno de Amazing Stories é o desperdício de um argumento suficientemente intrigante em um formato inadequado para seu desenvolvimento. Temos episódios de mais de cinquenta minutos para narrativas que poderiam ser satisfatoriamente concluídas em trinta minutos, seguindo a versão antiga da série. Quando saímos de uma maratona (ou mesmo de um episódio) com a sensação de que o canal / o projeto queria ocupar nosso tempo, mas não sabia como, algo está errado.
Serviços de streaming entraram na grande corrida atual no entretenimento e no mundo digital pela nossa atenção. Temos toneladas de séries chegando toda semana, e mesmo as comédias quebram a tradicional duração da tevê aberta norte-americana, comendo mais de trinta minutos nossos. No caso da Apple TV+, casa deste retorno de Amazing Stories, o tempo se tornou um compromisso semanal, já que o serviço lança episódios semanalmente. Mesmo que não te obrigue a um compromisso específico, como a HBO o faz quando séries suas se tornam um evento em determinado momento do seu domingo, o serviço agenda uma ou duas horas em sua semana. E de hora em hora, semana após semana, as séries da Apple vão se tornando familiar em nossa vida. Este é um bom plano para The Morning Show que, mesmo com minhas ressalvas, consegue cativar seu público para que este retorne. No caso de Amazing Stories, isso dificilmente ocorrerá.
A série não faz nada de muito grave, e talvez este seja seu problema. Temos personagens pouco interessantes, conflitos sem qualquer tensão que nos deixe algum sinal de aflição e resoluções cafonas e questionáveis. É aquela antologia que você maratona esperando que o próximo episódio seja melhor. Quando se dá conta, você investiu cinco horas de sua vida aqui e o tal bom episódio não veio.
Uma vez estabelecido o resultado medíocre para a temporada como um todo, falemos agora sobre cada episódio.
THE CELLAR

O primeiro episódio, como acontece com tantas séries, é o melhor de sua temporada inicial. Temos uma boa escolha de casting: Dylan O’Brien e Victoria Pedretti interpretam duas personagens adoráveis, e são dois atores com apelo midiático suficiente para ganhar nossa atenção. Na história, um homem que não sabe muito bem qual seu propósito ou o que fazer com sua vida acaba voltando cem anos no tempo e encontrando uma jovem apaixonada por música quando isso ainda era um tabu para mulheres. Enquanto ambos se ajudam, os dois acabam desenvolvendo um laço entre eles que deve enfrentar o grande problema do tempo. É uma história que precisaria de mais tempo para desenvolver de forma mais crível a relação dos dois protagonistas e a nos vender a importância de um na vida do outro, uma vez que os dois fazem tanto um pelo outro no desenvolvimento da trama. É bem possível que você saia deste episódio imaginando que ele daria uma boa comédia romântica no cinema. Aqui, acabamos com uma apressada fábula sobre propósito e destino. É encantadora, tem boa performance dos dois atores principais, mas não deixa de soar artificial ou de levantar perguntas sobre as escolhas do roteiro.
THE HEAT

Na história seguinte, temos duas amigas atletas que compartilham o sonho de ganhar uma bolsa para a faculdade através de seu desempenho no atletismo. Um desentendimento é seguido de um trágico acidente, e Tuka (Hailey Kilgore), a mais preparada delas, morre vítima das circunstâncias. Tuka não vai embora: seguimos a personagem invisível às pessoas que conhecia tentando arrumar uma forma de se comunicar. Isso ela descobre depois de diversas tentativas: ela consegue se comunicar com a melhor amiga quando ambas estão correndo. Estabelecida a comunicação, as duas tentam entender por que Tuka ainda está neste plano, o que faltou dizer ou fazer. Enquanto o primeiro episódio sofre de falta de tempo, todos os outros sobram. Este é um exercício tedioso e repetitivo que coloca nas costas de uma personagem não cativante a missão de carregar um enredo que nunca faz as perguntas certas. Além disso, o rumo que ele escolhe para desenvolver a interação entre as duas meninas e o desfecho são daqueles momentos que você acaba jogando palavras de não-amor à televisão.
DYNOMAN AND THE VOLT!

Este é um episódio bem típico das séries dos anos oitenta e encaixa perfeitamente com a série. Aqui, vemos um senhor mais velho indo morar na casa do filho, com quem nunca teve uma relação muito boa. Lá, ele começa a interagir com seu neto, a contar-lhe sobre sua infância e o amor que tinha por histórias em quadrinho e uma personagem específica. Minha descrição faz a personagem parecer bacana, mas não se engane: o avô da história é um homem rude e amargurado, apoiado há décadas nas mesmas desculpas que o levaram a ser negligente com o filho e a esposa. Seu neto é quem sofre com isso, pois gostaria de se apoiar nessa nova figura em sua vida já que está em uma estranha fase de transição. O avô recebe um anel que tem a promessa de lhe dar poderes — e, como as histórias aqui contam com elementos de mágica em seu enredo, é certo que isso acontecerá. A partir disso, seguimos avô e neto enquanto o primeiro faz usos equivocados de seus poderes e o segundo responde a isso. Se dá para apontar as falhas do episódio, que tem um desenvolvimento razoavelmente positivo, devo comentar o quão genérico é seu conflito, o quão erra ao se apoiar quase totalmente em uma personagem desagradável para seguirmos e o erro de se deixar algumas questões relacionadas ao neto de lado. E é mais longo do que deveria.
SIGNS OF LIFE

Se eu defini como “apática” a experiência de maratonar Amazing Stories, talvez este seja o melhor episódio para demonstrar isso. Nessa nova não-maravilhosa história, temos uma paciente que desperta de um coma durante uma tempestade seis anos depois. Sua filha, agora com dezoito anos, presta a assistência que pode, mas imagina que há algo de errado com sua mãe. Aos poucos, vai percebendo habilidades e comportamentos não conhecidos nela, o que a faz pensar que talvez esta mulher não seja a pessoa que conhecia. Signs of Life tinha, possivelmente, o enredo mais interessante para desenvolver. O que ganhamos, pelo contrário, é uma tediosa jornada seguindo um ser não-humano que nunca parece se distanciar do humano o suficiente para que crie alguma curiosidade em nós. Ficamos com gestos estranhos e uma interação quase oca entre mãe e filha que não emociona e não provoca, deixando o telespectador perdido sobre para quem torcer.
THE RIFT

Com clima de sessão da tarde, voltamos novamente às histórias de viagem no tempo com The Rift. Aqui, temos uma interessante premissa: essas viagens não são só conhecidas pelo governo, como são relacionadas a catástrofes da natureza. Através de buracos no céu, pessoas são ejetadas de seu tempo e param no presente. É o que ocorre com Cole (Austin Stowell), um piloto da II Guerra Mundial que aterrissa em 2019 e começa a ser perseguido pelo governo. Seu caminho se interliga ao de Elijah (Duncan Joiner) e Mary Ann (Kerry Bishé), madrasta e enteado marcados pela morte do pai da criança. Mesmo que eu ainda bata na tecla da apatia em relação às personagens, este é o episódio que mais se esforça para vencer este problema. Temos bons protagonistas e conflitos críveis a respeito de luto e destino. A relação entre o fenômeno aqui abordado e o que o governo decide fazer a respeito é interessante de acompanhar e deixa o episódio com o carimbo do “extraordinário” almejado pela produção.

Sem nunca ter episódios terríveis, Amazing Stories também passa longe do maravilhoso. Não é uma boa adição às antologias atuais, perdendo feio para tantas coisas incríveis criadas na última década. Há de se argumentar que o passado fique no passado, na maravilha de tal glória e período, deixando aos projetos do presente e seu influenciado frescor a missão de nos entreter.
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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.














