Há uma geração que cresceu nos anos noventa, lidando com a programação e a tecnologia da época, assim como há uma geração que cresceu depois dos anos dois mil, nessas duas décadas de assustadoras transformações nas quais nossa relação com a televisão também foi alterada. Nessa diferenciação, distância sempre presente entre as gerações, vale destacar que uma delas cresceu com o Clube do Terror (Are You Afraid of the Dark?) e suas reprises à tarde na tevê aberta, enquanto a outra, atual, pode nunca ter ouvido falar sobre a série canadense que ficou carinhosamente marcada na adolescência de muitos. Aos dois grupos, os saudosos fãs e os novatos pouco cientes, temos o retorno da série dezenove anos depois.
Em formato de minissérie, ganhamos três episódios em 2019 que atualizam a mitologia da série para nossos dias. Em resumo que pouco faz jus à qualidade da série original, Clube do Terror é basicamente uma antologia adolescente que foi ao ar na Nickelodeon canadense por sete temporadas e pouco mais de noventa episódios. Na série, seguimos um grupo de adolescentes que se denominam a Sociedade da Meia-Noite (Midnight Society). Sua missão é se reunir às madrugadas e contar histórias de horror, cada um à sua vez. Nós assistimos, então, a uma representação visual do tal conto, entrando na imaginação dessas crianças e em suas fantasias sobrenaturais.
Mesmo sendo voltada a um público mais jovem, Clube do Terror soube criar boas e inquietantes atmosferas. As protagonistas das histórias são crianças, mas isso não significa que temos finais felizes ou um mundo mágico preparado para lhes servir. Colocadas em perigo, tais crianças precisam, cada uma no universo diferente imaginado por seu narrador, enfrentar monstros e realidades desafiadoras. Grande sucesso de seu tempo (e o número de temporadas deixa isso transparecer), a série teve jogos e livros expandindo seu universo.

Em seu segundo retorno, tendo a série feito um intervalo entre a quinta e a sexta temporada, Are You Afraid of the Dark? muda algumas regras. Nas versões anteriores, tínhamos uma história por episódio, e este durava vinte minutos. Aqui, nesta minissérie, os três episódios contam a mesma história e têm duração de quarenta minutos. No novo enredo, temos as personagens navegando pelo sobrenatural que narram em suas histórias, algo que a série original só fez uma vez, colocando os contadores de histórias como as vítimas dos perigos que anunciavam.
A mudança de formato tem saldo positivo, pois conhecemos melhor os protagonistas da história e a personalidade de cada membro do grupo. As histórias terríveis e absurdas, o grande diferencial da antologia juvenil, fazem falta, mas não ficamos na mão: ganhamos uma aventura tenebrosa que constantemente desafia os limites do que seu canal veicularia em sua programação. Tem momentos tensos e empolgantes, aflitivos o bastante para que a nova geração sinta um pouco do pavor que sentíamos quando passávamos nossas tardes com esses jovens tão apaixonados pelo horror quanto nós.
Nosso retorno ao clube dos contadores de histórias se dá através de Rachel (Lyliana Wray), garota nova na escola que é convidada através de charadas a ir à floresta e se encontrar com um grupo de mascarados que lhe faz um desafio. Numa boa ambientação e que dá ao seriado a seriedade que tal idade tem aos adolescentes, temos a própria Sociedade da Meia-Noite apresentada com diversas regras e um sigilo quase exagerado. Assim como Rachel, nós vamos descobrindo aos poucos como esse grupo funciona.

Com o desafio de contar uma história, Rachel decide recorrer aos próprios pesadelos e apresentar aos novos amigos uma variação de sonhos recorrentes nos quais o misterioso anfitrião de um circo itinerante (Mr. Tophat) aterroriza crianças de cidades diferentes. O único problema é que ao contar a história, elementos dela são trazidos à realidade, o que coloca a vida de sua narradora e das crianças ao redor em perigo.
Entre os pontos negativos, além da falta do esquema tradicional de antologias no qual vemos histórias diferentes em todos os episódios, está a disposição de cenas que apenas preenchem a duração do episódio. Isto é, as personagens são colocadas em situações que nunca chegam a ser arriscadas de verdade, sendo apenas uma demonstração dos efeitos visuais que a série consegue realizar ou um exercício criativo aos roteiristas — algo que nos lembra os filmes It. Se deixarmos de lado a necessidade de que todos os eventos do roteiro desencadeiem uma consequência que alcance seu clímax em algum momento, teremos uma incursão por uma aventura que inclui satisfatoriamente elementos de horror em sua jornada. É engajadora não só ao público comum da Nickelodeon, como será aos mais velhos também.
Vale destacar também a boa construção do grupo que acolhe Rachel como parte de si. Nas temporadas antigas, sabíamos pouco sobre cada um e apenas os víamos no começo e no final, tendo pouco de sua personalidade desenvolvida, afinal, isto não era o foco. Aqui, cada membro do grupo tem seu momento, seus medos e sua contribuição para a resolução do grande problema que enfrenta na série. Há boa química entre eles, e um bom uso do humor que nunca deixa que uma história para o público infanto-juvenil se torne séria demais.

Em três partes, a minissérie foi ao ar em outubro de 2019 e já tem seu retorno confirmado para novas temporadas.
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Este post faz parte do quinto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano.














