Disse na review passada que gostaria muito que a história de Lovecraft Country pudesse seguir o caminho das antologias apresentadas no material de origem e nos mostrasse as repercussões da morte de George; bem como o estado emocional de Letitia após os últimos acontecimentos; gostaria de ver também um pouco da relação de Atticus com Montrose e os segredos da ancestralidade da família Freeman. Parece que meus pedidos foram plenamente atendidos, ainda de bônus tivemos o cruzamento desse novo arco com o que foi finalizado no episódio anterior e ainda vimos um pouco do doloroso luto de Hippolyta e dos demais. Uma das decisões mais acertadas que a equipe por trás desse show poderia ter tomado durante o processo de adaptação e transposição de linguagem da obra original, foi a de mudar radicalmente alguns plots estabelecidos no livro. Com isso, não faço aqui uma crítica ao livro de Matt Ruff, que por sinal é muito bom e recomendo a leitura, mas deixo claro que essas mudanças abriram novas e imensas possibilidades para a série, dando a chance àqueles que já fizeram a leitura do livro de usufruírem de uma experiência única, quase igualada a experiência daqueles que nunca leram esse material. Apesar de já possuir uma visão geral dos acontecimentos, é muito gratificante ser surpreendida a cada episódio sem fazer a mínima ideia para qual lado a história está caminhando. Vamos ao que interessa!

Nos minutos iniciais do episódio tomamos conhecimento, através de uma narração em off, que o binômio religião e fé seriam os principais vetores desse episódio. Já o luto e a perda da essência que nos motiva a viver passariam a permear as existências de todos os personagens. Embora a fé e a religião tenham estado presentes nos episódios anteriores, aqui a situação passa pelo viés do questionamento sobre a própria existência, junto com um pouco da descrença apresentada por Letitia após os acontecimentos tenebrosos de Ardham. Em seguida somos apresentados a nova empreitada de Letitia, que é a compra de uma casa em um bairro branco de Chicago com um dinheiro misterioso. Casa essa que, por sinal, parece bem estranha com seu elevador sinistro. Enquanto Leti tenta envolver a sua irmã Ruby no seu projeto de integração habitacional, Atticus, na casa de Hippolyta, se esforça para suprir a ausência do seu Tio George. Faço uma pausa para exaltar o trabalho da excelente atriz Aunjanue Ellis, que em uma pequena cena mostra o quanto a sua personagem não está bem por causa da morte de seu marido. Os pequenos detalhes contidos nessa minúscula cena reforçam a minha certeza de que a estratégia de ocultar os fatos que cercam a morte de George brevemente cairá por terra, causando uma nova cisão familiar.
Para quem tinha dúvidas, Tio George realmente está morto – até que se prove o contrário a tábua ouija não estava mentindo! -, e o episódio fez questão de validar essa informação de diversas maneiras. Com a saída de Tio George e a entrada de Montrose na trama, uma nova dinâmica de poder foi estabelecida entre os Freeman. Saem de cena a afetividade, a alegria, o diálogo aberto e a amorosidade que George possuía com Atticus que, de certa forma, eram qualificativos importantes que aterravam o jovem veterano de guerra e entram na pauta do dia o desprezo, a raiva e a aparente falta de carinho que Montrose nutre pelo filho. Claro que somos time Tio George, por isso, lamentamos muito a sua morte prematura e nos questionamos se a perda de um personagem tão carismático poderia ser compensada com a inserção de um personagem que não nos inspira uma simpatia imediata. Não nos precipitemos no julgamento e concedamos os devidos créditos ao trabalho incrível que Misha Green vem fazendo com esses personagens, daí a certeza que Montrose é um poço profundo que oculta muitos segredos relevantes para a trama, ele é um personagem mais complexo do que supúnhamos e, apesar da nossa simpatia gratuita pelo Tio George, aposto as minhas fichas na competência do ator Michael K. Williams para nos entregar um personagem inesquecível também. O embate entre ele e Atticus sentados à mesa da cozinha foi intenso e nos deu uma mostra sobre a conturbada relação entre pai e filho que veremos futuramente.
Mais adiante vemos Letitia arrumando a nova casa na companhia da sua irmã e dos seus amigos, quando repentinamente ela é surpreendida pela chegada de Atticus, que lhe diz que tem planos de retornar para a Florida. A tensão sexual entre eles é bastante palpável e mostra que Atticus também vê Letitia como mais que uma amiga. Bem nessa hora mais emocional, o casal ouve sons estridentes de buzina de carro em frente à casa. O buzinaço é obra dos moradores brancos e racistas do bairro, diante dessa situação absurda, Atticus decide aceitar o convite de Letitia para permanecer por um tempo na casa. Antes de prosseguir falando sobre os elementos sobrenaturais que começam a acontecer logo em seguida, farei uma pausa para contextualizar um pouco o movimento de integração habitacional em Chicago que inspirou esse episódio.
Conforme falei no texto de primeiras impressões de Lovecraft Country, somente em 1968 foi promulgada uma das últimas Leis dos Direitos Civis nos Estados Unidos, que proibia definitivamente a discriminação racial em temas relacionados ao aluguel e venda de casas. Pode parecer estranho que uma lei relacionada ao aluguel e venda de casas tenha uma estreita relação com a Lei dos Direitos Civis Americano, no entanto, essa lei deu fim a algumas convenções repulsivas como o temerário Formulário Padrão de Convenção Restritiva, elaborado para a junta imobiliária de Chicago por Nathan William MacChesney, da Comissão de Planejamento de Chicago, em 1927, que preconizava que determinadas instalações/casas jamais deveriam ser ocupadas direta ou indiretamente por negros, salvos os casos em que esses negros fossem empregados, zeladores, motoristas ou servos e ocupassem porões, celeiros, garagens ou alojamentos à parte. Dessa forma, mesmo que um indivíduo negro prosperasse e conseguisse dinheiro suficiente a ponto de comprar um imóvel para morar em determinada região da cidade (bairros brancos), havia uma lei que o impedia, usando a cor da sua pele como único argumento de recusa. Obviamente essa lei, além de abusiva e repulsiva, buscava manter negros e brancos afastados, fortalecendo a segregação, criando os chamados guetos e impedindo que as pessoas pretas tivessem o direito de morar no local da sua livre escolha. O Fair Housing Act, como era conhecida a Lei dos Direitos Civis de 1968, expandiu o que propunha a lei de 1964, ao proibir em todo território estadunidense a discriminação com relação à venda, aluguel e financiamento de habitação com base na etnia, religião e nacionalidade. Atualmente, quaisquer indivíduos que acreditem ter sofrido discriminação habitacional nos Estados Unidos podem registrar uma reclamação para que exista uma investigação de âmbito Federal sob a tutela do Programa de Assistência à Habitação Justa.
Dito isso, voltemos ao episódio propriamente dito. Passamos a acompanhar o infortúnio de Letitia ao ser assombrada em seu quarto pelo fantasma de uma mulher com o rosto bastante danificado – confesso que nessa hora tomei um susto e dei um pulo no sofá -, e para piorar a situação, os vizinhos continuam fazendo barulho em frente à casa. A coisa não para por aí e manifestações sobrenaturais no porão assustam Letitia, Atticus vem em seu auxílio e deixa escapar que usou táticas de tortura psicológica contra os inimigos durante a guerra. Mais uma vez um clima íntimo se instala entre a dupla, mostrando que dentro em breve algo mais físico poderá acontecer entre eles. A festa de inauguração da casa de Letitia me lembrou muito a festa no bairro negro no primeiro episódio, quando Ruby e Leti cantaram juntas. Essas cenas, além de alegres, mostram a comunhão de um povo que sabe celebrar, apesar de todo o sofrimento.
O que vimos a seguir, a intimidade bruta entre Letitia e Atticus, foi o resultado da queima lenta que foi desencadeada desde a première, o sexo foi quase como uma válvula de escape para ambos, mas eu percebo que Letitia é uma personagem muito independente e vibrante para manter um relacionamento permanente e rotineiro com Atticus, um cara taciturno, traumatizado e introvertido. Ademais, algo muito grave aconteceu com Letitia em Ardham, ela, uma mulher de fé, morreu e voltou à vida de forma inexplicável. Isso balançou os seus alicerces, corrompeu a sua fé e a fez se sentir como um fantasma. Tanto é que, mais adiante, em um momento de sinceridade ela confessa para Atticus que aquela teria sido a sua primeira vez e vai além, nos entregando uma das suas melhores falas até agora:
“Honestamente, desde que voltei me senti como um fantasma. Como se algo estivesse faltando. E eu continuo me agarrando a tudo, tentando evitar… A igreja, minha irmã … você. Inferno, eu pensei que o mundo era de um jeito e agora descobri que não é. E isso me apavora. Mas eu não posso viver com medo. Eu não vou. Eu tenho que encarar esse novo mundo de cabeça erguida e pegar o que é meu.”
Como disse no início desse texto, o binômio fé e religião pavimentaram o caminho de Holy Ghost, mas, para além dessa importante combinação de fatores, o protagonismo concedido a Letitia fala sobre a recuperação do poder e do controle sobre a sua própria vida, algo que ela perdeu há muito tempo quando fragmentou a sua identidade, abrindo mão do sobrenome materno (Dandridge), adotando um nome independente (Lewis) e criando um abismo entre ela e a sua irmã Ruby; ela perdeu o poder sobre a sua própria vida ao morrer e retornar, colocando em xeque todas as suas crenças e a projetando para o lugar de um fantasma, apesar de ainda respirar.

O poder voltou para as mãos de Letitia, a sua fé foi restaurada e uma nova convicção tomou conta de todo o seu ser, levando-a a ter certeza de que a casa é dela, apesar dos racistas e dos fantasmas. O que dizer da sequência em que, com um taco de beisebol, ela quebra os carros dos racistas em frente à sua casa e depois, mostrando que, tal qual Jackie Robinson, ele pode ser uma heroína para a sua comunidade. Em seguida, juntamente com os seus pares sociais, ela se ajoelha e levanta as mãos, nos lembrando os eventos recentes envolvendo a força policial americana. A cena na viatura policial foi bastante metafórica e tensa também. Mais uma vez eu tenho que destacar a poderosa atuação de Jurnee Smollett-Bell nessas sequências intensas, onde é visível a sua entrega e o quanto ela está à vontade na pele de Letitia. A conversa com Ruby sobre a suposta herança da mãe foi uma cena tocante e angustiante, evidenciando a distância que existe entre essas duas irmãs. Wunmi Mosaku é outra força da natureza no elenco dessa série, além de cantar muito bem, ela entrega muita verdade em suas cenas.
A cena do exorcismo de Epstein foi muito poderosa por várias razões. Ao dizer os nomes das vítimas em voz alta dentro da casa assombrada, Letitia, de certa forma, representa movimentos como #SayHerName e #SayHisName, onde, ao dizer em voz alta o nome das vítimas do ódio racial e da brutalidade policial, elas são corporificadas e humanizadas, saindo do campo da fria lógica que as trata como mais um número dentro de uma extensa estatística. Afinal, fica claro que aquelas pessoas eram sequestradas pela polícia e entregues ao médico para os seus experimentos monstruosos. Apesar de tudo muito denso, ri um pouco na transição dessa cena quando os brancos racistas foram abatidos pelos fantasmas.
Certamente, para quem não é muito familiarizado com o universo lovecraftiano, Holy Ghost se apresentou como um episódio mais fluido que o anterior e muito mais conectado com o piloto dessa série. Não há como reclamar de um episódio que nos entregou uma trilha sonora com God’s Been Good To Me, do Mighty Walker Brothers e Take It Back, na versão de Dorinda Clark-Cole, tocando no fundo de cenas tensas e eletrizantes, enquanto éramos expostos a um rico desing de cores que explora os hipnotizantes tons de roxo. Quando a gente pensa que dificilmente essa série irá superar a grandiosidade do seu episódio de estreia, eles entregam um episódio quase tão bom quanto o seu piloto. Com Holy Ghost, Lovecraft Country esteve no controle total de todos os seus elementos definidores, colocando em cena fantasmas, casa mal-assombrada, fenômenos de poltergeist, tensão racial e dando o protagonismo a uma personagem que faz tudo, Letitia!
Até a Próxima Semana!
Por Dentro do Território
Dee não existe na versão literária de Lovecraft, na verdade Hippolyta e George têm um filho chamado Horace. Aqui, da mesma forma que houve uma mudança de gênero no personagem Caleb que na série passou a ser Christina, foi feita essa mudança com Horace.
Em julho de 1951, Harvey e Johnetta Clark e seus dois filhos se mudaram para um apartamento no subúrbio de Cícero, em Chicago. Eles tiveram que obter uma ordem judicial para tornar a mudança possível, pois quando eles tentaram se mudar pela primeira vez, eles foram impedidos de fazê-lo pelo xerife.
Quando Leti menciona algumas das vítimas que foram assassinadas em sua casa, ela diz que duas das mulheres mortas se chamavam Lucy e Anarcha. E realmente existiram mulheres negras vítimas de experiências com esses nomes – embora elas tenham morrido décadas antes dos anos 50. Ambas eram mulheres escravizadas no Alabama na década de 1840, quando foram torturadas por J. Marion Sims. Anarcha e Lucy foram submetidas a várias cirurgias sem anestesia até Sims aperfeiçoar sua técnica. Só então ele começou a tentar isso com mulheres brancas.
Jeremy J. Jackson, Corretor de Imóveis chamou a atenção de Atticus e comprometeu o seu disfarce mostrando ser um laranja de Christina Braithwhite por dois motivos: o primeiro deles foi a foto de Epstein que Atticus viu enquanto esteve na casa Braithwhite, e o segundo motivo é que, naquele período, homens negros eram proibidos de usarem títulos como Corretores de Imóveis, apenas poderiam usar o título de Vendedores de Casas. Lógico que Atticus não acreditou na história da herança misteriosa de Letitia, muito menos em um homem negro em um escritório com seu nome pintado na porta e escrito Corretor de Imóveis logo abaixo. Gostei muito dessa reviravolta, Christina é uma boa adição para o rol de personagens misteriosas e poderosas dessa trama, tenho certeza que ela e Atticus ainda vão se encontrar outras vezes.
Satan, We’re Gonna Tear Your Kingdom Down, da cantora gospel Shirley Caesar, é a música que toca na hora do exorcismo, quando todos os fantasmas se juntam a Letitia. Essa música já foi tema da série Greenleaf.














