Com direito ao clichê adolescente, triângulo amoroso, representatividade, questões culturais, comédia e drama na medida certa, a nova produção da Netflix consegue divertir e emocionar seus telespectadores.

Criada por Mindy Kaling e Lang Fisher, a série conta a história de Devi e sua relação com seus familiares, amigos e interesses amorosos durante seu segundo ano do ensino médio, com a narração de Jonh McEnroe, conhecemos os dramas que Devi tem passado no último ano, após perder seu pai durante uma apresentação musical e ficar sem andar por três meses, a jovem volta para seu novo ano escolar com uma nova postura, disposta a mudar a imagem que as pessoas possuem dela, conquistar a sonhada popularidade e o garoto que ela é a fim.

A protagonista da série é típica por ter as intenções certas, mas realiza-las da forma mais egoísta possível, ao começar por querer que suas amigas sejam da forma como ela acredita que seja melhor, Devi se transformou em alguém que só consegue ver seus problemas e que estes são maiores que de todas as outras pessoas. Sendo que nem os seus problemas ela consegue lidar, mascarando a dor do luto e dos problemas com a mãe através do seu interesse pelo Paxton, a série consegue construir isso de forma interessante e gradual, sempre apontado pela terapeuta da adolescente.

Eu Nunca… é muito boa ao tratar de temas tão importantes como luto, representatividade cultural, sexualidade e solidão e como essas coisas ocorrem com adolescentes, a linguagem é feita para alcançar não só jovens, mas qualquer um que queira aproveitar a série em todos os seus momentos. Ter uma produção onde todas as suas protagonistas não são brancas e possuem sua própria narrativa de forma naturalizada é um grande feito para as criadoras, com personagens que são complexas e ao mesmo tempo conseguem divertir e sensibilizar àqueles que assistem.

Ao começar pelas melhores amigas de Devi, Fabiola é uma jovem com muito conhecimento em robótica que começa a lidar com questões da sua sexualidade e luta para conseguir contar aos pais e amigas, a maneira como a personagem é desenvolvida é muito natural, a conversa com a mãe e a reação das pessoas que vivem ao seu redor foi muito bonita, é um ótimo exemplo para os jovens que assistirão e poderão se identificar com a personagem e suas questões. Já a Eleanor possui uma questão mais delicada com sua mãe, a forma como a relação com os pais e a ausência deles pode afetar e transformar a maneira que os filhos agem, além da busca por ser que nem esta pessoa que serve como modelo.

O triângulo amoroso da série formado por Devi, Paxton e Ben é muito difícil, pois são relações muito diferentes, mas ao mesmo tempo com muita química entre cada casal, claro que ficar com Ben já era o esperado, pelo menos nessa temporada, o episódio do personagem, narrado pelo incrível Andy Samberg, foi sensacional, deu ao personagem uma história e motivação para sua personalidade, podemos ver em todos os personagens como a relação com os pais afeta as ações dos jovens, para os fãs de The Office, como eu, assistir a Angela Kinsey como mãe do Ben foi uma surpresa muito boa.

Já Paxton é o clássico atleta gentil, que no meio de tudo isso se apaixona por Devi, talvez numa segunda temporada isso seja mais desenvolvido e até melhorado, visto que a relação dos dois até o momento foi bem platônica e baseada numa fantasia adolescente, enquanto a de Devi e Ben mostrou um ponto de encontro e reconhecimento muito mais palpável, Devi ficou entre escolher a paixão platônica por Paxton e a paixão nascida de um lugar de rivalidade e admiração com Ben.

Em relação à questão cultural, a série consegue apresentar muita informação  série sobre a cultura indiana e ter isso numa plataforma mainstream como a Netflix, que possui um alcance enorme é muito importante para possuirmos cada vez mais representatividade, agora não só envolvendo Devi, mas sua mãe e sua prima, Kamala se encontra no meio de um noivado arranjado, algo comum culturalmente para eles, a forma como a moça se posiciona é muito importante para conquistar seus direitos, a resolução talvez seja melhor trabalhada no futuro, quando ela diz que não quer ficar nem com Steve e nem com seu noivo arranjado pareceu um pouco forçado, tendo em vista que isso só acontece depois que vimos que o possível noivo dela é bonito, porém a conversa entre os dois foi realista e bem colocada. Ainda na questão cultural, algo que representa bastante a maneira que a protagonista vê suas raízes indígenas está presente na conversa que Devi tem com o amigo que ela costumava fazer brincadeiras sobre ser indiana, trazendo os dois lados e o equilíbrio entre reconhecer a cultura como algo importante para a sua formação e forma de ver o mundo, mas não deixar que isso controle quem você é, um aspecto que pode e deve ser desenvolvida no futuro da adolescente.

A questão mais importante na série para mim é a relação de Devi com seus pais, o processo de luto e aceitação é a trama principal, por mais que fique num plano de fundo durante alguns episódios, no final percebemos que tudo foi feito por conta da dificuldade que a jovem tem de aceitar a morte do pai e a mágoa que possui das coisas que escutou de sua mãe. Dizem que algumas coisas ditas pelos nossos pais machucam de forma que é muito difícil de curá-las, algo que os personagens debatem muito sobre durante os dez episódios em diferentes níveis. Mesmo que Devi seja imatura, o que é aceitável, já que ela é uma adolescente, podemos entender sua dor, da mesma forma que a dificuldade que a mãe está tendo de cria-la em conjunto com os sentimentos de luto que a viúva está tendo que lidar, dizem que os pais se dividem entre um para ser o mais carinhoso e um que impõe os limites, então enquanto o pai de Devi é lembrado como um herói, sua mãe é vista como a vilã das coisas, o que só gera mais profundidade à discussão levantada pela série.

Eu Nunca… é leve, dramática, engraçada e importante em tudo que propõe, consegue desenvolver todos as suas personagens de forma coesa, cada uma com seu espaço, suas questões e suas complexidades, possui muitas possibilidades de desenvolvimento em temporadas futuras e oferece uma série de qualidade aos seus telespectadores.

REVISÃO GERAL
Nota:
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