Mesmo que carregue o verniz “infantil”, os filmes da Pixar são extremamente eficientes em afetar os adultos. Através de gatilhos poderosos (a família em “Coco”, a infância nos “Toy Story” ou a memória e sentimentos em “Divertidamente”, como alguns dos exemplos), o estúdio sempre apela para a nostalgia para deixar o espectador em contato com os mais diversos tipos de emoções ao final da sessão. O que torna “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica” (Onward, 2020) ainda mais irônico em retrospecto, já que há uma constante quebra dessa nostalgia em prol de encarar as realidades da vida.
Ian Lightfoot (voz de Tom Holland no original em inglês) está prestes a completar dezesseis anos de idade quando recebe da mãe, Laurel (Julia Louis-Dreyfus), um presente deixado pelo seu falecido pai, o qual idealiza por nunca ter realmente conhecido. Acontece que o presente é um cajado que contem uma magia capaz de trazer o pai de volta por um dia. Quando o (apaixonado por rpgs e magia) irmão de Ian, Barley (Chris Pratt), tenta ajudar, uma jornada através dos mais diversos locais do mundo onde vivem tem início.

O filme dirigido por Dan Scanlon não poderia ser mais plural em suas referências: indo de “Dungeons & Dragons” ao rock dos anos 80, passando por “Um Morto Muito Louco”. Mas a sensação geral é a de uma road trip que se mistura a uma campanha de rpg de mesa, em que cada nova etapa vai desvendando peças do grande quebra-cabeças e os personagens vão evoluindo progressivamente, tanto em suas habilidades como em seus relacionamentos. Se tratando de visual, o longa carrega o padrão de qualidade do estúdio e não faz feio. O mundo fantástico que se entrega a modernização é cheio de gags visuais e cenários deslumbrantes repletos de detalhes, engajando o público a reconhecer as contrapartes reais de determinados locais e se afeiçoar com os protagonistas élficos ou os coadjuvantes das mais diversas raças mágicas.

No entanto, é na narrativa que o filme mostra suas verdadeiras cores (e garras). Apesar de lotado de elfos, centauros, sereias e fadas, o mundo do filme reflete mais o nosso do lado de cá da telona, onde a tecnologia vai nos afastando cada vez mais do ambiente a nossa volta e as relações são embebidas em grandes doses de nostalgia e não realmente vividas como se devem. Aí que de certo modo o longa quebra o andamento das produções até então lançadas, tanto na separação das ideias originais (usando bastante referências externas), mas também ao utilizar a aventura em busca de algo/alguém como apenas o motor de uma descoberta bem mais pessoal e pertinente.
A grande mensagem da animação é que muitas vezes buscamos algo que na verdade esteve o tempo todo dentro de nós mesmos. A nostalgia de algo externo ou do passado, dá lugar a satisfação de viver no presente e com as nossas limitações e habilidades. É assim que um garoto medroso se torna um mago destemido ou um paladino de bom coração se revela um guia de mão cheia. Sim, há contornos de autoajuda aqui e acolá, mas nada que tire o fato de que “Dois Irmãos” é uma aventura das boas, que não chega a ser um dos integrantes do panteão do estúdio, mas que com certeza não faz feio perante os seus antepassados, ressuscitando a magia de nosso cotidiano. E sim, você vai estar de olhos marejados no final da sessão, como todo bom produto da Pixar.
* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Walt Disney Studios BR
O papo sobre cinema não acaba aqui. Se você tem Telegram e quer continuar a conversa sobre cinema em todas as suas vertentes entre no Lounge Cinemaníacos! Você pode entrar em contato com a equipe de cinema do SM e com bastante gente legal que curte a 7ª Arte! Nos encontramos lá!














![Dois Irmãos 1×10: Episódio 10 [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2017/01/Dois-Irmãos-1x10-1-218x150.jpg)
