Semana passada eu reclamei pra caramba da falta de investimento dos roteiristas em incutir medo entre os moradores de uma cidade onde quase todo dia tem uma maluquice acontecendo. E não é que meu clamor foi sussurrado em seus ouvidos?

Spoilers Abaixo:

Tudo bem que foi só um sussurro mesmo, já que ao invés de falar do medo dos moradores da cidade, o episódio preferiu reciclar um problema já visto em The X-Files, e mostrar uma garota que ao ter contato visual olho no olho com uma pessoa, se transformava no maior medo dela. Mas vamos lá… Sejamos justos. Pelo menos falaram do medo.

Mas vamos tentar estudar as coisas mais calmamente. Eu vou tentar expressar nessas linhas as minhas reações ao ver o episódio. Acho que dá pra entender bem como funciona a mente de alguém que quer mesmo se envolver com Haven.

Nos minutos iniciais – tirando a cena da “posse” do Nathan – eu fiquei animado. A mulher entrando ensangüentada no mercadinho foi bem bacana. Eu levei um sustinho bom. Pensei: opa, vem aí um bom episódio de terror. Aí apareceu o cachorro. Pensei: caramba, esse cachorro junto pode ajudar a melhorar o ritmo sombrio da cena. Aí o cachorro virou o homem morto e quando a senhorinha disse: “Mas eu enterrei você”, eu comecei a ficar desconfiado. A senhorinha desmaiou e apareceu o Duke. O homem morto virou um grandalhão com as tais tatuagens… E de repente toda a boa expectativa desceu pelo ralo. Tava na cara que era alguém manipulando os medos das pessoas. Em menos de 30 segundos de início, Haven consegue dar de bandeja pra você todos os mistérios do episódio. O roteiro não guarda nem um pouquinho de suspense. Estraga a surpresa e adianta pra você tudo que a investigação só vai revelar dois blocos de cenas adiante. Ou seja, quando Audrey e Nathan começam a investigar, você já está entediado, porque já sabe do que se trata.

Mais uma vez, as coisas vão acontecendo na história e os roteiristas vão ignorando tudo que poderia trazer à série um nível de complexidade que seria muito bem vinda. Alguns comentários que têm surgido aqui nas resenhas me acusam de querer dar complexidade a um produto feito para ser superficial, mas eu me pergunto, é para aplaudir a superficialidade gratuita e assumida que nos propomos a acompanhar uma série que nasceu com a função de mexer com o suspense? Parece-me contraditório. Se eu fosse buscar a superficialidade, não começaria criando uma história que lida com tantos mistérios. Haven tem muitos, o problema é que parece não saber como lidar com eles. Vai jogando aqueles “problemáticos” na estatística da cidade e fica 42 minutos mostrando os protagonistas tentando desvendar uma história que o espectador já desvendou no teaser.

Pensem bem: Nesse episódio, o roteiro se dividiu em dois e mostrou duas pessoas atormentadas por aquelas “habilidades”. Se a série continuar nesse ritmo, em breve mais da metade da população de Haven terá sido acometida por essas estranhas qualidades. Nenhum problema com isso, mas será mesmo que se uma cidade assim existisse – e quando assistimos uma ficção, temos que embarcar na viagem do “se isso existisse”, ou não faz sentido ligar a TV – a população ia se comportar tão passivamente diante de tamanha e freqüente turbulência? Eu sinto falta de credibilidade. Sinto falta de pessoas apavoradas pelo medo de desenvolverem “problemas”. Sinto falta da cidade se movimentando pelo disfarce de suas peculiaridade para o mundo. Sinto falta de Haven ser mais que Audrey, Natham e Duke.

A mitologia das duas Audreys estacionou e sinto que assim permanecerá até o final da temporada. O passado da cidade também continua obscuro e pouco explorado. Isso até seria bom, se ao menos elementos interessantes fossem distribuídos até aqui. Dave viu Lucy e ao contrário do que diziam da dita cuja, que ela era boazinha e tal, o pobre senhor quase teve um infarto. Lucy não era flor que se cheirasse, pelo jeito. Resta rezar pra que os próximos episódios embarquem nessa linha de ambigüidade e nos presenteiem com bons momentos.

Nathan quase se viu livre de sua incapacidade de sentir, mas é claro que no fim das contas tudo voltou ao “normal”. Até agora, sinto que a resistência dos autores em criar um clima de romance entre ele e Audrey é o que de melhor a série tem. Duas pessoas como eles jamais embarcariam numa profusão de emoções tão imediatamente. Esse afastamento é correto, crível, torna-os próximos da realidade. Pena que esse bom senso não contaminou o resto da série. Haven continua querendo ser surpreendente, mas ainda soa fraca e ingênua.

Haven não é só defeito: A cena da casa desintegrando foi muito boa e o clímax no barco funcionou bem.

The Trouble Scene: Lucy aparecendo com aquele cabelo Cindy Lauper numa vibe Dona Florinda foi mesmo de assustar.

Prêmio Pieguice: Audrey e Nathan conversam no bar sobre as contradições de Howard e a nobre atitude de Nathan em sacrificar-se e voltar a ser insensível. Audrey faz a linha sutil e apenas acaricia a mão do parceiro antes de ir embora. Já Nathan decide estragar com tudo e acaricia os lábios com uma pétala de rosa. Liricamente ridículo.

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