Arrow ensaia sua despedida em Purgatory, o último ato antes da Crise nas Infinitas Terras.

Para começar a dar adeus à sua história, Arrow retornou aonde tudo começou: Lian Yu, o primeiro calvário de Oliver Queen. A ilha foi quase que um personagem protagonista nos primeiros anos na série, quando acompanhávamos as primeiras provações de Oliver após o naufrágio do Queen’s Gambit e a lenta transformação de um playboy mimado e inconsequente à um sobrevivente nato e futuro salvador do multiverso. O selvagem lugar, assim, foi passando de uma experiência de vida ou morte para uma espécie de santuário de Oliver, onde, mesmo após se ver livre, de vez em quando retornava para buscar alguma resposta ou encontrar algum equilíbrio. E, mesmo após ter ficado quase esquecida nas últimas temporadas, não tinha como a série não recordar de tão insípido e marcante cenário.

E foi justamente para nos trazer as memórias dos velhos e bons tempos, que o episódio escolheu começar com uma série de flashbacks do piloto, dando até mesmo a vontade de assistir novamente essa jornada e acompanhar mais de perto a incrível evolução de Oliver, que sequer conseguia matar um pássaro, para o homem que temos hoje. Uma escolha certeira do roteiro que acabou se sobressaindo em meio à um episódio confuso e mal aproveitado.

Retornando aos dias atuais vemos Oliver e seu time em uma incólume Lian Yu, como se nunca tivesse sido explodida por Adrian Chase lá no final da quinta temporada. Estranhezas à parte, logo Lyla aparece para explicar que a ilha será o local para ser fabricada a arma necessária para enfrentar a Crise e que um estranho pico de energia está fazendo o lugar ter vida novamente. Uma desculpa quase que tosca que acentua um dos maiores problemas dessa temporada: A necessidade de jogar Oliver em lugares marcantes da sua história sem se aprofundar em justificativas. Apenas está ali porque o roteiro quer, porque o Monitor é poderoso e pronto. A falta de naturalidade nessas situações acaba por tirar alguns pontos da experiência do episódio, que não consegue fluir com um ritmo agradável, uma vez que os próprios diálogos escritos parecem se enrolar para explicar o que está acontecendo.

Fora isso, o tal pico de energia também está trazendo fantasmas do passado de Oliver na ilha. Especificamente aqueles que tiveram ao lado do Arqueiro desde seus primeiros dias no lugar. Sim, foi apenas uma desculpa para trazer Yao Fei de volta, mas aqui não podemos reclamar, uma vez que é Yao Fei, o primeiro grande mestre de Oliver, o primeiro a colocar um arco e flechas em suas mãos. Um grande nome que ficou esquecido na primeira temporada, mas que não poderia deixar de ser homenageado.

Yao Fei fez uma participação tímida aqui, mas certeira ao apontar que Oliver pode até morrer mas seu legado já está caminhando por aquele solo, na forma de Willian e Mia, sendo até mesmo um aviso do roteiro de que a morte de Oliver não significa o fim e que aquele ciclo dificilmente será quebrado.

E falando em nomes esquecidos, tivemos o retorno do mercenário Fyers (esse sim eu nem lembrava da existência), que foi a grande primeira ameaça de Oliver na ilha. Mas aqui, esta ameaça foi quase nula, passando despercebida e não inspirando nem de perto o terror que inspirou em sua participação original. Em certo momento o episódio resolveu não focar em seu vilão e sim em juntar o maior número de personagens possíveis para ir para o campo de batalha, em uma sequência que poderia mas não conseguiu ficar entre os momentos mais memoráveis do episódio, haja vista uma direção pouco inspirada e até mesmo confusa, que não conseguiu lidar com propriedade com todos aqueles personagens em tela.

Para se acabar com os fantasmas da ilha, era necessário a urgente construção da tal arma que reunia todos os elementos encontrados por Oliver nesta temporada, que acabou sendo mais um momento em que era difícil entender de fato o que estava acontecendo e como a arma tinha relação com os fantasmas. Porém, ao fim das contas a arma tinha como principal objetivo transformar Lyla em algo mais: Na Precursora da Crise, a mensageira do Monitor que será responsável por reunir os maiores heróis de todas as Terras.

Enfim tivemos as respostas que estávamos esperando a respeito do papel de Lyla neste grande evento e como ela conseguiu tão importante função, amarrando inclusive a história que sempre tivemos dela. A diretora da ARGUS foi salva pelo Monitor na sua época de exército, na missão em que perdeu todos os seus companheiros, e acabou ganhando um vislumbre do que seria o futuro se a Crise viesse a, de fato, destruir toda a vida como a conhecemos. A discussão com John a respeito disso era algo esperado e Diggle demorou um pouco para aceitar que o destino de Oliver não poderia ser mudado e que a missão de Lyla estava além de problemas terrenos como segredos conjugais.

E para John precisar cair na real, um sacrifício precisou ser feito, mesmo este sendo um tanto quanto gratuito dentro do episódio. Roy retornou para esta temporada ainda sem mostrar realmente ao que veio, e não creio que haverá tempo hábil o suficiente para dar alguma grande serventia ao personagem. O Arsenal aqui serviu apenas para que John percebesse que algumas coisas estavam além de seu poder de interferência, coisa que Oliver já aceitou.

Uma pena que essa percepção precisou custar o braço de Roy, cuja perda teve impacto narrativo quase que zero no episódio e que provavelmente deve ficar por isso mesmo, haja vista que teve como única utilidade fazer um paralelo com a história do personagem nos quadrinhos, se resumindo aqui à quase que um easter-egg.

Foi apenas em seu final que Purgatory engata boas sequências, sendo essas as despedidas de Oliver que, vendo sua missão completa, se prepara para enfrentar seu destino. Os momentos com Dinah, René, Roy e Laurel foram breves, mas o roteiro tratou de caprichar nas últimas linhas de Oliver com Diggle, com o Arqueiro confidenciando à seu amigo a tarefa de levar seus filhos novamente para o futuro (não sabemos como…) e Diggle enfim verbalizando o inevitável: Oliver não sobreviverá. Porém a despedida não ficou apenas no campo do que acontecerá ou não no futuro, e sim remeteu à toda história da série, nos fazendo lembrar o quanto John foi importante nessa jornada, uma rocha, para usar das palavras de Oliver.

A conversa final com William atestou o que todos sempre soubemos: Não precisa se usar uma capa ou um capuz para ser um herói. William é um ótimo exemplo disso, tendo toda a coragem e bravura do pai sem segurar armas. E não tinha como Oliver não sentir outra coisa que não seja orgulho do filho e do que ele se tornou, mesmo passando 20 anos longe da criação dos pais.

Durante o episódio, William mostrou maturidade o suficiente para saber lidar com a informação de que o pai morreria muito em breve, coisa que Mia teve dificuldades em aceitar, o que é completamente compreensível. A jovem passou a vida inteira sendo avessa ao legado do pai por achar que ele preferiu ser um herói do que estar com sua família e quando finalmente teve a chance de conhece-lo e entende-lo, descobriu que logo seriam separados novamente. Porém, mesmo longe de Oliver, a trajetória de Mia não acabará ali e com toda a certeza esse pouco tempo que compartilharam irá ter grande utilidade para o amadurecimento da futura Arqueira Verde nas histórias que estão por vir.

Porém, para que haja uma história para contar, um grande desafio precisa ser superado. E é com o céu se tornando vermelho e com o surgimento de Lyla já na alcunha de Precursora que ficamos sabendo que a hora chegou: A Crise está entre nós.

Flechadas:

– Muito válido o retorno de Yao Fei, porém, poderia ter Shado novamente, não? As diversas menções ao seu nome não adiantaram e só me fizeram sentir mais vontade de rever essa que foi um dos grandes rostos da série em seus primeiros anos.

– Como querem fazer uma série com duas Canários Negro sendo que uma já não tem mais seu grito e a outra não o usa nem quando está com dezenas de inimigos em campo?

– Estou encerrando esse texto pouco depois de ver o primeiro episódio da Crise. Eu ainda me recuso a acreditar no que presenciamos ali.

– Arrow retorna apenas em Janeiro com a quarta parte do mega-evento da Crise, até lá, ficamos com os episódios de Supergirl, Batwoman e The Flash que dão início a esta história.

REVISÃO GERAL
Nota:
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