Mesmo trazendo uma temática batida, Arrow consegue inovar em sua história com Reset.
Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento de cultura pop sabe que viagens no tempo e loops temporais são figurinhas carimbadas em filmes e séries devido ao leque infinito de possibilidades que proporciona para roteiristas se divertirem, sendo assim, é certeza que você verá a temática em qualquer produção que permita tal loucura. Nem precisaria ir muito distante citando títulos como Os Doze Macacos, Boneca Russa ou Feitiço do Tempo para exemplificar a questão quando o próprio Arrowverse já se aventurou neste campo com Legends Of Tomorrow e The Flash. Porém, Arrow, mesmo já abordando outras realidades e rituais mágicos, sempre teve mais pé no chão que suas séries irmãs, o que impedia que o roteiro alucinasse de vez, até que uma Crise se anunciou.
Para criar um cenário sólido para o grande evento do ano, Arrow precisou ser revirada de ponta cabeça com situações que nunca imaginaríamos ver na série, e Reset é apenas mais um exemplo do surto criativo desta última temporada, trazendo algo que não é novidade alguma até mesmo para o universo das séries da CW, mas que deu um diferencial bem interessante aqui.
O episódio começa com Oliver acordando em seu apartamento sem lembranças do que aconteceu após ter desmascarado Lyla com John e Laurel. Mesmo confuso e com informações desencontradas, o Arqueiro só nota que algo está realmente errado quando se depara com o grande nome desta semana: Quentin Lance.
O antigo prefeito de Star City foi uma presença forte na série por seis anos, sendo um dos personagens mais bem desenvolvidos na história e também muito bem defendido por Paul Blackthorne, disparado o melhor ator que já passou por aqui. Sua morte ao fim da sexta temporada veio em um momento em que o personagem estava cansando o público com a irritante brincadeira de pai e filha que fazia com a Laurel da Terra-2, mas nem por isso foi comemorada, haja vista o grande peso que sempre teve no cânone da série, e principalmente para o desenvolvimento tanto de Oliver quanto da sósia de sua filha. Assim, em uma temporada comemorativa, a chance de tê-lo de volta não poderia ser desperdiçada, mesmo que esse retorno diminuísse um pouco o peso da despedida que tivemos do personagem alguns anos atrás.
Como já apontei em outros momentos, Arrow, nestes últimos episódios, está muito focada em homenagear sua trajetória, inserindo o máximo possível de elementos que marcaram sua história, mesmo precisando de uma pequena forcação de barra para tais elementos fazerem sentido dentro da narrativa que aqui está se construindo. Escrevo isto agora porque é fácil imaginar Oliver preso em qualquer outro tipo de loop temporal, tentando salvar qualquer outro ente querido que já perdeu em sua vida, sendo a decisão de trazer Quentin de volta não tão necessária assim, apesar da importância do personagem. Porém, Reset não trata apenas de Oliver sendo obrigado a testemunhar novamente a morte de Quentin por infinitas vezes, trata também de Laurel passando pela mesma provação, e qual outro nome melhor para afetar o Arqueiro e a Canário de uma só vez do que o patriarca Lance? Então, mesmo que ter Quentin neste episódio seja claramente mais um aceno da série ao seu passado, desta vez a justificativa foi orgânica e plausível.
Tratando primeiramente de Laurel, o que tivemos aqui foi o último movimento para a nova Canário se fixar de vez no caminho que escolheu para ela. Apesar de todo o arco de redenção, estimulado por Quentin, ter sido aborrecido e prolongado demais, reconheço que a personagem se tornou muito interessante ao virar uma heroína com tons de deboche e uma moral facilmente testável, com uma personalidade completamente diferente da falecida Laurel, não concretizando o meu medo de transformarem a personagem da Terra-2 na cópia cuspida da original. Assim, mesmo com todos os seus defeitos e desvios, hoje temos a Laurel mais interessante que a série já nos trouxe, a perfeita sinergia entre a heroína Canário Negro e a vilã Sereia Negra, e muito disso se deve ao papel que Quentin desempenhou, em sua vida e morte.
Quentin foi o primeiro que percebeu que algo dentro de Laurel poderia ser mudado mesmo com a própria rechaçando veementemente a ideia. Foi uma redenção engolida a seco no começo, mas que gerou bons frutos, principalmente depois que o antigo prefeito se atirou na frente de uma bala para salvar a “filha” cuja alma tentava tão incansavelmente salvar. Um sacrifício desses não poderia ter outra consequência que não fosse Laurel buscando honrar esta memória e ser tudo que ele acreditou que ela poderia e deveria ser um dia. Por isto, vejo a missão de Laurel neste episódio ainda mais pessoal que a de Oliver, já que ela se via com a chance de salvar a vida do homem que morreu por ela, mesmo tendo que passar pela mesma experiência traumatizante dezenas de vezes e sabendo que tudo não passava de uma espécie de ilusão no fim das contas.

Laurel percebeu antes de Oliver que Quentin estava além da salvação e que estava de mãos atadas dentro daquele ciclo doentio. Assim, tudo o que poderia fazer era agarrar a oportunidade que o Monitor concedia a ela: De fazer as pazes com seu passado e se despedir de maneira apropriada do homem que proporcionou que hoje ela ostentasse a alcunha de Canário Negro. A cena final da dupla foi poderosa e até melhor do que todas as sequências envolvendo Oliver no episódio, com Blackthorne e Katie Cassidy reafirmando mais uma vez como funcionam bem quando juntos em cena, qualquer que seja a versão que interpretam de seus personagens.
Com Laurel uma vez tendo encontrado seu objetivo ali dentro e se liberado daquele vicioso jogo, restou Oliver entender o que estava fazendo ali. Quentin foi uma figura importante o suficiente na sua vida, mas, por si só, não justificava o fato de Oliver ter como missão tentar salvá-lo desesperadamente e se acertar com o passado não parecia bem ser o objetivo. E foi através das palavras do próprio Quentin que Oliver percebeu que a questão não era fazer as pazes com seu passado, e sim com seu futuro.
Desde a temporada anterior o destino fatal de Oliver vem martelando em nossas cabeças. E muito deste último ano se baseia nisso. Em momentos cuidadosamente planejados para darmos adeus a este personagem que nos acompanhou por todos esses anos. E para entendermos que ele irá morrer, que sua lápide já foi mostrada e que não há nada que se possa fazer para mudar isto, afinal, os destinos de todos os universos dependem deste sacrifício. Por isto, assim como a morte de Quentin era irreversível, não importando quantas vezes tentassem mudar este cenário, o caminho de Oliver aponta para a mesma direção. Não há o que se fazer. O destino é implacável e inexorável, para usar de termos que o Monitor tanto gosta, e resta tanto à audiência quanto ao próprio Oliver aceitar e entender que o fim se aproxima. E nada deve trazer mais clareza ao estado de espírito de um indivíduo que a certeza de uma morte iminente.
Na cena final de Quentin no episódio o vemos mostrando a Oliver que a morte não é algo que se possa enganar e que alguns aspectos simplesmente não estão ao alcance de serem mudados, e que isso não é desistir, é apenas aceitar que as coisas são como são. Assim, Oliver deveria estar ciente de seu papel ali e parar de tentar lutar contra uma força que é maior que todos os inimigos que já enfrentou.
E é essa mensagem que Lyla reitera ao final da “simulação” (o quão estranho é a mulher de seu melhor amigo falar que você vai morrer e que tem que aceitar isso de uma vez por todas?). Oliver precisou passar por essa experiência excruciante para estar pronto para encabeçar a luta pela sobrevivência de todos, mesmo que isso não signifique a sua própria. E foi por entender isto que o Arqueiro acorda no cenário de seu último teste, no lugar onde tudo começou: Lian Yu.
O que nos aguarda no purgatório?
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Flechadas:
– O Monitor deu como presente para Laurel a oportunidade de se despedir de Quentin. Para Oliver, conforme Lyla aponta, seu presente foi outro: A vinda de seus filhos do futuro.
– O episódio foi dirigido por David Ramsay (se não me engano, seu segundo na série), e foi tecnicamente perfeito, parecendo até mesmo obra de um diretor com mais experiência.
– Apesar de banalizar a morte de Quentin e não interferir tanto assim na história da temporada, eu não tenho como reclamar de um episódio focado em loop temporal.
– Tudo bem que Lyla está aliada ao Monitor para ajudar a salvar o universo e, consequentemente, sua família. Mas ainda esperando uma cena digna onde a personagem revela tudo que ainda está oculto. Por que ela? Desde quando? Qual o motivo de fazer tudo por debaixo dos panos?
– Quando foi noticiado que Paul Blackthorne faria uma participação nesta temporada, foi revelado que ele estaria em mais de um episódio. Erro da matéria ou ainda não vimos tudo de Quentin?
– Não é só porque Oliver irá morrer que ele não retornará de alguma forma, não é mesmo?














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